O PROCESSO CIVILIZATÓRIO

A antropóloga Margaret Mead (1901-1978) se notabilizou por escrever de uma forma clara o suficiente para ser lida e entendida pelo público geral, pessoas comuns, não “iniciadas” e conhecedoras de termos acadêmicos, que muitas vezes se mostram herméticos. E foram vários os livros que publicou: dez no total, sendo o primeiro em 1928 e o último em 1972. Mas a sua primeira experiência como escritora já foi muito controversa. Em Adolescência, sexo e cultura em Samoa ela descreve experiências e observações que fez em um período no qual viveu naquele país, numa pequena aldeia, onde entrevistou 68 mulheres jovens de até 20 anos.

Foi nesse trabalho que concluiu ser suave a transição da infância para a adolescência naquela cultura, com as meninas não passando pelas mesmas angústias emocionais e pela ansiedade que caracterizam a mesma faixa etária nos Estados Unidos. Segundo ela, as samoanas tinham hábito de adiar casamentos por muitos anos, período no qual desfrutavam de sexo ocasional sem qualquer problema ou cobrança da sociedade. E que apenas depois de casadas adotavam a monogamia e criavam seus filhos com êxito. Tais conclusões, no entanto, considerando a época em que foram publicadas, causaram forte reação, tendo sido questionadas e combatidas. Não queriam seus detratores admitir sequer a possibilidade de ser associada a existência de controle social com situações de angústia e instabilidade.

Ao longo de sua vida profissional a antropóloga manteve especial atenção a temas correlatos. Escreveu, por exemplo, Sexo e temperamento em três sociedades primitivas (1935) e Masculino e Feminino (1949). Mas também abordou o que chamou de “cultura cambiante”; escreveu sobre o envelhecimento; e produziu um livro dedicado ao público jovem (Gente e Lugares, de 1959). Outra obra sua de leitura relevante foi Cultura e Compromisso (1970). Preocupada com educação, opinou certa vez que “as crianças do futuro precisam ter mente aberta. O lar deve parar de advogar causas éticas ou crenças religiosas através de sorrisos ou olhares severos, carícias ou ameaças. Deve-se ensinar às crianças como pensar, e não o que pensar”. Fosse ela uma leitura indicada no Brasil atual e teria o privilégio de sentar-se ao lado de Paulo Freire, numa galeria de odiados gratuitamente. Ou não tão de graça assim, porque permitir que o povo pense é na verdade um grande perigo, talquei?

Mas tudo o que coloquei até agora sobre a antropóloga nascida nos EUA foi apenas para introduzir um único fato. Professora na Universidade de Colúmbia, consta que numa ocasião foi questionada por um dos seus alunos, sobre o que considerava ser o primeiro sinal de civilização que pode ser constatado em uma cultura. Todos na sala estavam prontos para aceitar como resposta a fabricação e utilização de instrumentos, por exemplo, com técnica e modo que os identificasse e diferenciasse. Entretanto, a resposta foi bastante surpreendente: disse ela que o primeiro sinal teria sido um fêmur com uma fratura consolidada. E depois explicou a razão disso, lembrando que no reino animal uma lesão dessas sempre era fatal. O que ocorria também entre os humanos em tempos imemoráveis. A fratura nesse grande osso da coxa impediria a pessoa de caçar, de ir beber água em algum rio, de fugir diante da ameaça de um predador. Não haveria como sobreviver o tempo suficiente para que a lesão fosse curada. A não ser, lógico, que outras pessoas cuidassem dela, levando alimento e garantindo toda a segurança necessária. E esse é o princípio básico da civilização. O entendimento e o respeito ao outro. Inacreditável que até essa lição pré-histórica esteja sendo esquecida.

18.12.2021

O bônus de hoje tem Alcione com Lenine – que fez participação especial no DVD Alcione Duas Faces – cantando Evolução, de José Cavalcanti de Albuquerque. 

PAULO FREIRE, O GÊNIO QUE A MEDIOCRIDADE ODEIA

Exatamente no dia de hoje, cem anos atrás, nascia Paulo Reglus Neves Freire, na cidade de Recife. Ele viria a se tornar um grande educador e filósofo, sendo considerado no mundo todo como um dos mais notáveis pensadores na história da pedagogia. Digno merecedor do título de Patrono da Educação Brasileira, seu trabalho se fundamenta na crença de que a real assimilação do conhecimento por parte do educando depende do uso de uma prática dialética, um contato efetivo dele com a sua realidade. Esse seria o contraponto ao ensino tradicional, que é tecnicista e se torna alienante. Explicando de uma forma absolutamente simplificada, o educando criaria a sua própria educação, seguindo caminhos próprios e não um daqueles que são entregues prontos. Ou seja, a aquisição do conhecimento se tornaria uma forma de libertação, de escapar do que sempre foi alienante ao desconsiderar especificidades e homogeneizar tudo.

Filho de um capitão – parece ironia – e de uma dona de casa, mesmo sendo da classe média, ele passou dificuldades sérias, em especial no período da depressão de 1929, vivenciando pobreza e até fome naquela época. Superando expectativas, conseguiu ingressar na Faculdade de Direito em 1943. Na universidade, aproveitou para ainda se dedicar aos estudos de linguagem e de filosofia. Depois de graduado, optou por trabalhar como professor numa escola de segundo grau, onde lecionava língua portuguesa. Mas suas primeiras experiências, que lhe deram o merecido reconhecimento, ocorreram em 1961. Ele conseguiu alfabetizar 300 adultos cortadores de cana, num prazo de 45 dias, ao aplicar o método inovador que havia desenvolvido. A partir disso, tal recurso foi multiplicado pelo Governo Federal, numa iniciativa batizada de Plano Nacional de Alfabetização. A previsão era ampliar a formação de educadores, com a rápida implantação de 20 mil núcleos espalhados pelo país. O esforço foi abortado pelo golpe ocorrido em 1964 e ele foi considerado um “traidor” pelo governo militar. Acabou preso por 70 dias e depois exilado, primeiro na Bolívia e depois no Chile, onde trabalhou por cinco anos, inclusive para a Organização das Nações Unidas.

Ainda no exílio, escreveu o primeiro dos seus livros: Educação Como Prática da Liberdade (1967).  No total foram 20 livros como autor único e outros 13 em coautoria. Entre os que apenas ele assinou se pode destacar ainda Pedagogia do Oprimido (1968) – que foi traduzido para 21 idiomas e vendeu mais de 500 mil exemplares –, Cartas à Guiné-Bissau (1975), Educação e Mudança (1981), A Importância do Ato de Ler (1982), Pedagogia da Esperança (1992), Política e Educação (1993), À Sombra Desta Mangueira (1995) e Pedagogia da Autonomia (1997). Estão liberados na internet pelo menos 17 de suas obras, em PDF. Ele também lecionou em Harvard, nos EUA, e trabalhou como consultor especial na Suíça.

Paulo Freire sempre defendeu a ideia de que o objetivo primordial da escola é “ensinar o aluno a ler o mundo, para poder transformá-lo”. Para tanto, os educadores deveriam fazer com que os alunos tivessem acesso a diversos conteúdos, mas nunca os apresentando como verdades absolutas. Se por um lado dizia que ninguém ensina ninguém, também afirmava que ninguém aprende sozinho. Ou seja, acreditava na educação como uma via de duas mãos, com professores e alunos aprendendo juntos, em relações afetivas e democráticas. Nas suas aulas, a expressão era sempre garantida e incentivada. Ele faleceu em 02 de maio de 1997, no Hospital Albert Einstein, após ataque cardíaco. Seis anos antes já havia sido fundado, também na capital paulista, um instituto que leva seu nome. O objetivo era estender as ideias do educador no Brasil e no exterior, manter protegidos os seus arquivos e realizar atividades que fossem relacionadas com o seu legado.

Paulo Freire foi o brasileiro mais homenageado de toda a história, com o recebimento de nada menos do que 34 títulos de Doutor Honoris Causa em vida e outros cinco in memoriam, de universidades da Europa e das Américas. Em 1986 a UNESCO lhe concedeu o prêmio Educação para a Paz. Amado pela intelectualidade, pela academia e por todos que acreditam que a educação é um dos mais importantes instrumentos de desenvolvimento humano e social, mesmo assim ele virou alvo de ataques gratuitos e ferozes, nos últimos tempos. Mas, considerando quem faz isso, tal atitude enaltece ainda mais a figura do educador. A estupidez dos negacionistas é rasteira demais para que eles tenham sequer noção da real dimensão desse gênio e de sua obra. A mediocridade, além de tudo, é narcisista: só reconhece a pequenez que vê refletida. Os que vão além disso – e não importa o quanto além –, segundo eles, são todos “radicais”.

A “radicalidade” de Freire foi a valorização da nossa cultura, dos saberes do povo, de racionalidade e matrizes próprias da nossa gente. Justo das pessoas que, pela lógica dominante, precisam ser inferiorizadas, “postas em seu lugar”, para que a sua dominação continue acontecendo. Se ser radical é mostrar que há valor, que enfrentamentos devem acontecer no campo do conhecimento, da identidade, da memória e do entendimento do sujeito, tudo bem. De fato, Freire entendia que educação era um ato político, uma vez que permite a leitura do mundo. Mas essa nunca foi uma referência à política partidária e sim ao seu aspecto filosófico, de decisão consciente sobre a vida e sobre o mundo que queremos. Ele defendia a vida, seus detratores apostam sempre na morte.

19.09.2021

Paulo Freire

No bônus de hoje, a possibilidade de ouvir Gabriel, o Pensador. Mais do que apropriada, a música é Estudo Errado.

No bônus de hoje, a possibilidade de ouvir Gabriel, o Pensador. Mais do que apropriada, a música é Estudo Errado.