PÃ E O PÂNICO

Na mitologia da Grécia antiga Pã (em grego Πάν) era o nome dado ao deus dos bosques e dos campos, que estava com os pastores e seus rebanhos. Seria uma criatura a habitar grutas e vagar pelos vales e montanhas, onde praticava a caça e dançava com as ninfas. Filho de Hermes, o deus mensageiro – aquele que tem asas nos tornozelos –, ao nascer ele teria assustado sua própria mãe, uma filha de Dríope. Isso porque veio ao mundo com um aspecto grotesco, animalesco mesmo. A representação de Pã o mostra com orelhas longas, chifres e pernas de bode, pele enrugada, um rosto disforme e cabelo bastante desgrenhado. Convenhamos, isso sem dúvida deveria ser suficiente para assustar qualquer um que estivesse desprevenido. E mesmo a mais amorosa das mães. De interessante era o fato de, em sua trajetória posterior, estar sempre acompanhado de uma flauta, que tocava com maestria.

Mesmo quem não conhece esse mito, deve saber o que seja pânico. A palavra é proveniente de Panikós, em grego, sendo referente justo ao deus Pã, esse amante da música. Como ele “assombrava” os lugares que visitava, com aparições repentinas e ruídos inexplicáveis, fazia com que as pessoas tivessem medo. E esse, quando extremo, até hoje se qualifica como pânico. O que, nos dias atuais, não está mais ligado a noites sombrias, mas tem muitas outras razões de ser e aparecer. Agora tememos a perda de controle sobre os acontecimentos ou pessoas; sobre coisas, atos e decisões que podem vir a afetar nossas vidas; sobre nossa própria existência física. Mesmo considerando que esse desejo de controle pode vir a ser traduzido também como uma psicopatologia, a imprevisibilidade e a insegurança afetam a vida moderna como nunca aconteceu antes. E os efeitos disso podem ser traduzidos como um transtorno mental.

Pessoas afetadas pelo Transtorno do Pânico (TP) têm sintomas fortes de desconforto físico e psicológico. E a situação pode ser deflagrada por riscos meramente imaginários, não havendo necessidade de tratar-se de um perigo real. Isso afeta sua vida social, relações familiares e emprego. Abala autoestima, convicções e inclusive a fé. Medo de enlouquecer ou de morrer, ansiedade, taquicardia, falta de ar, náuseas, tremores, tontura e até desmaios podem acontecer. Não são raras a sudorese, calafrios e vertigem. Estimativas apontam para a existência de pelo menos seis milhões de brasileiros atingidos por esse problema, sendo que muitas vezes o diagnóstico só termina sendo alcançado após consultas com diferentes especialistas. E não é nada improvável que a pandemia tenha contribuído para ampliar muito esse número.

Muitos médicos costumam dizer que sua causa é apenas um desequilíbrio químico dos neurotransmissores serotonina e noradrenalina. São essas duas substâncias apontadas como as responsáveis por influenciar nosso humor e excitação física. Portanto é evidente que o problema reside nelas, mas a razão dele ser desencadeado em geral são situações de estresse ou algum trauma psicológico. Assim, convém que paralelo à medicação que possa se tornar necessária, essencial é o acompanhamento psicológico.  Também é relevante examinar as estatísticas levantadas, que mostram 70% dos casos ocorrendo entre os 20 e 35 anos de idade; com 71% do total de pacientes sendo mulheres.  Pode ser um indício do que a estrutura social vigente e suas cobranças induzem ser esse o “público alvo”. Porque é uma faixa etária na qual se exige que a vida esteja mais do que encaminhada, conduzida para uma posição de “bem sucedido”; e devido à pressão ainda maior que é exercida sobre as mulheres e seus múltiplos e simultâneos papéis.

Uma questão que precisa ser superada é a resistência advinda do mero preconceito. Ninguém tem vergonha de dizer que precisou ir a uma consulta com cardiologista ou pneumologista, por exemplo. Mas não são poucas as pessoas que se envergonham e escondem uma eventual necessidade de procurar auxílio psicológico ou psiquiátrico. Nosso cérebro é um órgão tanto quanto são coração e pulmões, talvez com a característica de uma ainda maior complexidade. Precisa ser respeitado e atendido do mesmo modo. E aspectos emocionais – isso já está mais do que comprovado – podem ser mais devastadores que a maioria das doenças de origem meramente física, orgânica. Assim, conhecer a história pessoal e o contexto ou cenário onde essas pessoas viveram e vivem é indispensável para entendimento do problema e busca de solução, algo que jamais deve ser resumido a uma prescrição medicamentosa.

O Transtorno do Pânico é apenas um dos tantos males que podem vir a atingir qualquer um de nós. Outros podem igualmente conduzir a sensações e comportamentos limitantes ou, no mínimo, desagradáveis. Portanto, considerar a possibilidade de buscar apoio psicológico para enfrentar o problema, reorganizar a vida e retomar com saúde o seu cotidiano, precisa ser visto como a atitude correta  e saudável a ser tomada.

24.08.2021

No bônus de hoje, a música Medo do Medo, da rapper portuguesa Capicua, em parceria com João Ruas. Cantam os integrantes de Os Paralamas do Sucesso, sendo essa uma das faixas provocativas que compõem seu álbum Sinais do Sim, lançado em 2017.