QUEM CONHECE TRISTÃO DA CUNHA?

A sua autonomia praticamente equivale àquela de um país independente, apesar de fazer parte de um território ultramarino britânico, junto com Santa Helena e Ascensão. As três ilhas se localizam no sul do Oceano Atlântico, mais ou menos a meio caminho entre o extremo sul do Brasil e a África do Sul. Sua população total não chega a 300 pessoas, que vivem da agricultura – plantam batatas –, da pesca e do trabalho na única indústria local, uma fábrica que processa lagostas.

Existem uma escola infantil, um hospital minúsculo, duas igrejas e uma piscina, como locais públicos. Também há uma loja e uma agência dos correios. Além disso e das residências, os moradores também têm uma casa de palha que serve como museu, apesar de raramente ocorrerem exposições. Uma rádio FM e um serviço bastante caro de internet são lá encontrados. O território todo fica ao lado de um pico vulcânico. E a terra arável pode ser vista totalmente em uma única foto aérea.

Não há aeroporto e o acesso à ilha, desse modo, pode ser feito apenas por barcos, que utilizam um porto extremamente simples. A terra mais próxima está em Santa Helena, cerca de dois mil quilômetros adiante. Quem parte da Cidade do Cabo, na África do Sul, leva três dias para chegar em Tristão da Cunha. E por lá pode permanecer ao longo do dia, mas à noite não pode ficar em terra. Ou seja, precisa dormir no próprio barco. Isso é um dos sinais que evidenciam que os residentes não querem muito a companhia de ninguém. Por lá não há quase nada, mas eles não se importam com isso. Desde que continuem sozinhos.

A última erupção do vulcão local foi em 1961. Quando as evidências se tornaram mais graves, toda a população foi transferida para Calshot, no Reino Unido. Tão logo o vulcão se estabilizou, todos retornaram para suas casas e suas vidas mais do que pacatas. Inacreditável é que nos seus 207 quilômetros quadrados de área, eles possuem tecnicamente uma capital, que se chama Edimburgo dos Sete Mares e fica situada numa fajã – êta palavra interessante – na extremidade noroeste da ilha. As fajãs são pedaços de terra plana, geralmente cultiváveis e com uma extensão pequena, que resultaram do derramamento de lava vulcânica sobre o mar ou por sedimentos que se desprenderam de encostas.

Importante salientar que Tristão não é um homem muito triste, coisa assim de aumentativo. É apenas um nome próprio masculino, sendo de um dos Cavaleiros da Távola Redonda, aquela do Rei Arthur. Também aparece em obra de Wagner, como um dos personagens principais de Tristão e Isolda. Esse especificamente, o da Cunha, era um explorador português e comandante naval, nascido em 1460. Ele foi um dos cavaleiros do conselho de Dom Manuel I, sendo nomeado vice-rei e governador da Índia Portuguesa, cargo que não chegou a ocupar em função de ter enfrentado problema físico grave, uma cegueira temporária.

Foi ele que em 1506, no comando de uma frota de dez navios de carga, “descobriu” esse grupo de ilhas remotas. Mesmo que o mar revolto na ocasião sequer tenha permitido desembarque, ele se encarregou de batizar a principal delas com seu próprio nome, num surto da mais absoluta modéstia. Sobre as três ilhas: Santa Helena foi o local da morte de Napoleão, em 1821, e ela se tornou colônia da coroa britânica em 22 de abril de 1834. Em 1922 foi a vez de Ascensão ser anexada e, por fim, em 12 de janeiro de 1938 isso ocorreu com Tristão da Cunha.

Talvez como recurso de ilusão, que os ajude a acreditar que ainda são um grande império, os britânicos mantêm, além da ultrapassada família real, diversas áreas sob sua jurisdição no planeta. São 14 no total os chamados Territórios Ultramarinos Britânicos (United Kingdom Overseas Territories – UKOTs). Todos como monumentos que apontam para o passado e jamais para o futuro.

09.09.2022

Vista aérea de Tristão da Cunha

O bônus de hoje oferece Dança da Solidão, música de Paulinho da Viola, na voz de Júlia Rocha. Ela está acompanhada por Henrique Sete Cordas (violão), Fabiano Lie (cavaquinho) e Átila Souza (pandeiro)

A BASE NAVAL NAZISTA EM SANTA CATARINA

Os escombros ainda estão lá, para quem quiser ver. Desde que obtenha autorização da Marinha do Brasil, naturalmente. Na Ilha da Rita, em São Francisco do Sul, Santa Catarina, havia uma base naval especialmente construída para abastecer submarinos nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial. Isso aconteceu um pouco antes da entrada do Brasil no conflito, forçado a optar pelo lado Aliado devido à interferência dos EUA. Durante todo esse tempo as Forças Armadas brasileiras fizeram de conta que tal local nunca existira, mas agora não puderam mais esconder esse segredo, com o vazamento de documentação que comprova ter sido verdade. O que só oficializa aquilo que pode ser visto quando uma expedição consegue permissão para visita.

A construção é de 1940, provavelmente tendo sido autorizada por Getúlio Vargas. Ou nossas Forças Armadas não tinham a menor noção do que ocorria no território brasileiro. Nela se vê muros de contenção e grandes tanques, onde eram armazenados combustíveis e água potável, com os dutos necessários. Na parte fortificada existem orifícios que ocupam lugares estratégicos no muro, por onde seria possível realizar disparos de fuzil, havendo necessidade. Escadarias cercam o local, que conta também com uma construção de devia servir para reuniões nas quais eram discutidas estratégias de combate. E locais de armazenagem de material bélico e mantimentos, além de um espaço que se percebe era usado como oficina.

Essa ilha fica na Baía da Babitonga, na foz do rio Palmital, entre as cidades de Joinville e Itapoá, um dos estuários mais importantes do vizinho Estado. Sua localização exata é definida pelas coordenadas 26°15’03″S 48°42’29″W. É um verdadeiro santuário ecológico, onde o passado registra envolvimento com mortes, se não diretamente no local, na certa causadas por quem dele fez uso, ao longo do conflito.

Santa Catarina em especial, mas também o Rio Grande do Sul, sempre foram locais intimamente ligados à Alemanha. O grande contingente de imigrantes que já habitavam o sul do Brasil era fator a estimular e manter contato direto com esse país europeu. Vínculos não apenas de origem, como também ideológicos, eram bastante comuns. Com certeza, se fosse considerada a vontade dos moradores desses dois Estados, não seria ao lado dos Aliados que as Forças Expedicionárias Brasileiras teriam lutado, naquele conflito. E o governo brasileiro relutou muito em tomar partido, só fazendo isso bem no final do conflito e depois que navios cargueiros brasileiros foram afundados no Oceano Atlântico, supostamente pela marinha alemã.

Bem difícil, agora que também por documentos se comprovou o que era feito na ilha, se torna entender a razão pela qual submarinos alemães iriam torpedear navios justo do país que os acolhia. Enfim, a história é sempre composta de versões e escrita aos poucos. E não raras vezes precisa ser reescrita, quando surge alguma evidência que permanecia antes propositalmente menos evidente. Oculta, como estão aqueles escombros agora, por densa vegetação.

08.07.2022

Mapa com a localização da Ilha da Rita, no litoral norte de Santa Catarina

O bônus de hoje é uma versão em alemão da música Yellow Submarine, dos Beatles. O cantor é William McCreery Ramsey (1931-2021), que tinha repertório de jazz e pop. De origem americana-alemã, ele também era jornalista e foi ator de relativo sucesso.

DICA DE LEITURA

EXPRESSÕES DO NAZISMO NO BRASIL: partido, ideias, práticas e reflexos. Taís Campelo Lucas e Bruno Leal (org.) – R$ 59,00

Essa é uma obra que já nasce clássica. Reunindo os principais pesquisadores brasileiros sobre a temática, o livro analisa o impacto do nazismo no Brasil, nas suas diversas esferas.

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