A BASE NAVAL NAZISTA EM SANTA CATARINA

Os escombros ainda estão lá, para quem quiser ver. Desde que obtenha autorização da Marinha do Brasil, naturalmente. Na Ilha da Rita, em São Francisco do Sul, Santa Catarina, havia uma base naval especialmente construída para abastecer submarinos nazistas, durante a Segunda Guerra Mundial. Isso aconteceu um pouco antes da entrada do Brasil no conflito, forçado a optar pelo lado Aliado devido à interferência dos EUA. Durante todo esse tempo as Forças Armadas brasileiras fizeram de conta que tal local nunca existira, mas agora não puderam mais esconder esse segredo, com o vazamento de documentação que comprova ter sido verdade. O que só oficializa aquilo que pode ser visto quando uma expedição consegue permissão para visita.

A construção é de 1940, provavelmente tendo sido autorizada por Getúlio Vargas. Ou nossas Forças Armadas não tinham a menor noção do que ocorria no território brasileiro. Nela se vê muros de contenção e grandes tanques, onde eram armazenados combustíveis e água potável, com os dutos necessários. Na parte fortificada existem orifícios que ocupam lugares estratégicos no muro, por onde seria possível realizar disparos de fuzil, havendo necessidade. Escadarias cercam o local, que conta também com uma construção de devia servir para reuniões nas quais eram discutidas estratégias de combate. E locais de armazenagem de material bélico e mantimentos, além de um espaço que se percebe era usado como oficina.

Essa ilha fica na Baía da Babitonga, na foz do rio Palmital, entre as cidades de Joinville e Itapoá, um dos estuários mais importantes do vizinho Estado. Sua localização exata é definida pelas coordenadas 26°15’03″S 48°42’29″W. É um verdadeiro santuário ecológico, onde o passado registra envolvimento com mortes, se não diretamente no local, na certa causadas por quem dele fez uso, ao longo do conflito.

Santa Catarina em especial, mas também o Rio Grande do Sul, sempre foram locais intimamente ligados à Alemanha. O grande contingente de imigrantes que já habitavam o sul do Brasil era fator a estimular e manter contato direto com esse país europeu. Vínculos não apenas de origem, como também ideológicos, eram bastante comuns. Com certeza, se fosse considerada a vontade dos moradores desses dois Estados, não seria ao lado dos Aliados que as Forças Expedicionárias Brasileiras teriam lutado, naquele conflito. E o governo brasileiro relutou muito em tomar partido, só fazendo isso bem no final do conflito e depois que navios cargueiros brasileiros foram afundados no Oceano Atlântico, supostamente pela marinha alemã.

Bem difícil, agora que também por documentos se comprovou o que era feito na ilha, se torna entender a razão pela qual submarinos alemães iriam torpedear navios justo do país que os acolhia. Enfim, a história é sempre composta de versões e escrita aos poucos. E não raras vezes precisa ser reescrita, quando surge alguma evidência que permanecia antes propositalmente menos evidente. Oculta, como estão aqueles escombros agora, por densa vegetação.

08.07.2022

Mapa com a localização da Ilha da Rita, no litoral norte de Santa Catarina

O bônus de hoje é uma versão em alemão da música Yellow Submarine, dos Beatles. O cantor é William McCreery Ramsey (1931-2021), que tinha repertório de jazz e pop. De origem americana-alemã, ele também era jornalista e foi ator de relativo sucesso.

DICA DE LEITURA

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Essa é uma obra que já nasce clássica. Reunindo os principais pesquisadores brasileiros sobre a temática, o livro analisa o impacto do nazismo no Brasil, nas suas diversas esferas.

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O TRABALHO QUE PODE MATAR

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) relata que, em todo o mundo, morre um trabalhador por doença laboral ou acidente de trabalho a cada 15 segundos. Para destacar com maior rigor o absurdo desse número, são quatro pessoas por minuto; 240 a cada hora; 5.760 por dia. Na última década, eram brasileiros 21.467 dessas vítimas fatais – muito maior ainda são os casos de lesões graves e de mutilações. Isso significa que, em nosso país, ocorrem seis óbitos para cada 100 mil empregos formais. Algo bastante baixo, diriam os que adoram a leitura fria da estatística ou entende que em número algum há vida, exceto quando se refere a resultados financeiros. Mas cada um desses trabalhadores tinha nome, endereço, família, afetos que ficaram órfãos, muitas vezes devido à falta de cuidado e proteção que eles precisavam e mereciam, para cumprir suas atividades.

Para esse grupo que pensa com o bolso – ou com a Bolsa de Valores – se pode informar que doenças e acidentes de trabalho causam uma perda de cerca de 4% do PIB global a cada ano. No Brasil isso equivale a algo próximo de R$ 300 bilhões, segundo estimativas do Ministério Público do Trabalho, que considerou o Produto Interno Bruto de 2020 para apresentar o cálculo. E ainda existe o gasto previdenciário, que precisa ser também considerado. Em oito anos tivemos 5,6 milhões de casos de doenças e acidentes, gerando despesa de mais de R$ 100 bilhões. Voltando às taxas de mortalidade, na Argentina é de 3,7 perdas de vida a cada 100 mil trabalhadores; no Canadá é de 1,9 e no Japão de 1,4. Entre as 20 maiores economias do mundo, ocupamos o penúltimo lugar, estando na frente apenas do México, com oito mortes a cada 100 mil trabalhadores.

Por aqui existe uma enorme dificuldade na adoção de medidas que sejam preventivas. E essa resistência não é apenas por parte de empresas, que podem agir assim para reduzir custos: os próprios trabalhadores, muitas vezes, não aceitam ou dizem não se adaptar, por exemplo, com o uso de equipamentos de proteção individual. Além disso, a notificação dos casos verificados nem sempre é feita, o que significa que mesmo sendo preocupante o número dos registrados eles não representam a totalidade das ocorrências. Essas, em termos de distribuição geográfica, se concentram principalmente em São Paulo (35%), Minas Gerais (11%) e Rio Grande do Sul (9%). A razão é que esses três estados, juntos com o Rio de Janeiro, têm o maior número de trabalhadores em atividades formais, devidamente registradas.

O dia de hoje, 27 de julho, marca os 49 anos do primeiro passo dado para garantir boa saúde e segurança, pelo menos para os trabalhadores de grandes empresas no Brasil. No ano de 1972, nesta data, o então ministro do trabalho, Júlio Barata, regulamentou portarias garantindo a formação técnica em Segurança e Medicina do Trabalho. Com isso, nosso país se tornava o primeiro em todo o mundo a tornar obrigatória a existência desses serviços onde houvesse mais de cem empregados. Vale lembrar que hoje em dia nem mais o Ministério do Trabalho existe. Criado por Getúlio Vargas, em 26 de novembro de 1930, ele foi extinto por Jair Bolsonaro no dia de sua posse, em 1º de janeiro de 2019.

É preciso que se veja o trabalho não apenas como uma atividade de busca remuneratória, para sustento pessoal ou familiar. Essa rotina produtiva tem que alcançar outros níveis de satisfação, não devendo nunca ser de tal forma intensa que não sobre ao trabalhador energia e condições para lazer, convívio e vida privada. O adoecimento não raras vezes vem dessa falta, atingindo sua saúde mental e criando situações para o descuido que leva ao problema físico, pela desatenção e desgaste.

Não por acaso é grande o número de países que têm limites legais estabelecidos para as jornadas semanais. Na Holanda são 29,2 horas por semana e na Dinamarca 32,4. No Brasil o padrão fica em 40 horas semanais, havendo exceções. Nos EUA a legislação não assegura nada para ninguém. E na Coréia do Sul decidiram recentemente reduzir, mas por um motivo mais surpreendente. Eles querem que aumente o índice de natalidade do país. Ou seja, estão sugerindo o que os trabalhadores façam nas horas ociosas que lhes oferecem a mais.

27.07.2021

No bônus de hoje, a música Trabalhador, de Seu Jorge. Esse é o nome artístico de Jorge Mário da Silva, cantor e compositor nascido em Belford Roxo, no Rio de Janeiro. Multi-instrumentista, tem carreira ligada ao Samba, Soul e MPB.