SACO DE RISADAS E OUTRAS ALEGRIAS

Talvez os mais jovens nem saibam do que eu estou falando. Quem tem um pouco mais de idade, no entanto, deve lembrar dos inacreditáveis “sacos de risadas”, que em determinada época assolavam salas de aula, infernizando os professores e disseminando o riso entre quem os ouvia. Ele foi um das tantas febres que de tempos em tempos arrebatavam crianças e jovens, percorrendo escolas e outros grupos de convívio como se fosse o rastilho de uma daquelas doenças infectocontagiosas – não por acaso se chama ou chamava de “coqueluche” algo que era alvo do desejo de um grande número de pessoas. Coisas como ioiô, bilboquê, cubo mágico, bambolê e até mesmo aquele absurdo animalzinho virtual chamado de tamagotchi. Hoje elas ainda devem estar ocorrendo, mas eu tenho menor condição de saber, justo porque não tenho mais o convívio diário com ninguém dessa idade.

Também posso citar outros brinquedos que não são daqueles “sazonais”, que vão e voltam com pequenas modernizações. Tivemos, por exemplo,  os pinos mágicos, que foi uma espécie de antepassado do atual Lego. E houve o Genius, um bolachão colorido com teclas que acendiam luzes e emitiam sons em determinada ordem, que precisava ser reproduzida depois com exatidão. No interior do Estado eram comuns o carrinho de rolimã, o taco, a bolinha de gude e as pandorgas. Em termos de jogos de tabuleiro, o “Devagar se Vai ao Longe” e, para quem tinha mais grana, o Banco Imobiliário.

Há quem diga que os brinquedos surgiram em função de estudos que eram feitos para estratégia militar. Miniaturas de soldados, cavalos e de armamentos como canhões eram criadas para, sobre um tabuleiro, ser estudado posicionamento e movimentação de tropas próprias e dos inimigos. E que isso terminava sendo depois manipulado por crianças, que tinham acesso a elas. Acho que não pode ser essa uma origem genérica, mas explicaria a de alguns tipos de brinquedos. Lembrei com essa explicação do Forte Apache. A gente comprava índios, soldados ianques, cavalos, carroças e, esse o maior dos sonhos, a estrutura do forte em si. Nunca consegui ter os que desejava, porque eram caros demais para nosso poder aquisitivo na época. Mas tive alguns poucos, que já ajudavam muito na criatividade, na imaginação de confrontos mirabolantes. Não sei explicar bem a razão, mas já naquela época eu torcia pelos índios.

No seu livro A História do Brinquedo, a paulistana Cristina Von relata que as bonecas surgiram entre 4.500 e 3.000 anos antes de Cristo. Outras fontes estimam que na mesma época as crianças já brincavam com bolas, que eram feitas de vegetais, penas de aves e outros materiais, envoltos e presos, talvez com cordas rudimentares. Não existem provas de que as meninas ficavam com as bonecas e os meninos com as bolas. Nem tampouco que uns se vestiam de azul e outros de rosa.

Brincar é algo essencial. A criança com isso aprende a se comunicar, desenvolve habilidades específicas, socializa com as demais, passa a compreender a importância de dividir, de respeitar regras sem que isso necessariamente a tolha em termos de inventividade. Brincar é uma porta de entrada para novos períodos da vida, para o conhecimento e a capacidade de entender sensações e sentimentos. É algo tão importante que os adultos não deveriam abandonar por completo. Paulo Freire dizia isso, afirmando que quando se brinca se constrói. E que é construindo que se aprende e aprendendo que se vive. Ainda tenho meus jogadores e times do futebol de botão. Me recuso a vender meu autorama. E guardo uns poucos brinquedos que eram dos meus filhos, como que tentando mantê-los sempre por perto e um tanto crianças. Época de risos bem mais autênticos do que aqueles mecanizados, dos sacos de risadas.

13.05.2022

Saco de risadas: ao ser apertado, disparava a gravação de um riso contagiante

O bônus de hoje é a música Rindo à Toa, com o grupo Fala Mansa, formado por Tato, Dezinho, Alemão e Valdir. Fundado em São Paulo, ainda em 1998, trabalhavam primeiro em casas noturnas, onde contagiavam o público com seu forró.

DICA DE LEITURA

BRINQUEDOS DO CHÃO: a natureza, o imaginário e o brincar

(Gandhy Piorski – 156 páginas – R$ 40,46)

Este livro inaugura uma série que explora a imaginação do brincar e sua intimidade com os quatro elementos da natureza: terra, fogo, água e ar, e revela a voz livre e fluente da criança em sua trajetória de moldar a si própria, tão esquecida nos estudos sobre a infância. Assim como o brinquedo, interessam ao autor, artista plástico, teólogo, pesquisador da infância e do imaginário, a brincadeira e seu universo simbólico; a experiência da criança quando, em comunhão com a natureza e em sua vivência transcendente, brinca e significa o mundo. O primeiro volume é dedicado aos brinquedos da terra, que caracterizam, na produção material, gestual e narrativa da infância, a investigação da matéria e as operações da imaginação no forjar a elaboração e o enraizamento dos papéis sociais na casa, na família e no mundo. O estudo desdobrou-se também em várias exposições de brinquedos colecionados ao longo dos anos, e seu corpo teórico vem repercutindo em diferentes espaços em que a criança é tema de interesse.

Basta clicar sobre a imagem da capa do livro para ter acesso à possibilidade de aquisição.

ZIQUIZIRA E BALACOBACO

Tem algumas palavras que a gente gosta sem nem ao menos saber o seu significado. Pelo menos comigo é assim. Sou pego pela sonoridade, como se algo mágico entrasse pelos meus ouvidos e sensibilizasse determinados neurônios. Sei lá se é isso, mas poderia ser. Ziquizira é um bom exemplo. A palavra me parece quase dançante, muito alegre, festiva. Daí fui pesquisar a sua origem e o único idioma no qual encontrei sua presença, além do português, foi no urdu, uma língua indo-europeia da família indo-ariana, bastante antiga, surgida a partir das influências turca, persa e árabe, no sul da Ásia. Veio de longe, portanto.

Em urdu ziquizira é simplesmente “desfazer”. Aqui, fizeram uma injustiça com ela. Trata-se de um substantivo feminino que designa má sorte, azar, urucubaca – essa última, outra que sempre me foi agradável. Tem uma variação, na qual se troca a letra Q pelo G, ficando ziguizira. Mas não troca de significado. Melhor seria se fosse mesmo uma dança, como sempre me pareceu. Mas, como não há nada que não possa ser piorado, esse também é o nome popularmente atribuído a uma doença de pele, em algumas regiões do Brasil.

E balacobaco, então. Como não gostar de balacobaco? Dessa vez me dei bem, pois ela designa momento de alegria, diversão animada com bebida. Veio de Zimbábue, um país africano, onde significa “meu amigo” ou “meu velho”. Agora, para obter sucesso de fato num balacobaco, melhor mesmo é ter borogodó. Esse é um atrativo pessoal irresistível, que pode ser físico ou de outra origem, como carisma. Ou seja, como não tenho nenhuma chance, em quaisquer das duas hipóteses, saio de fininho desta palavra e procuro outra.

Sarcófago, por exemplo. Para mim não parece fúnebre, mas é bastante solene. E anacrônico, então. Poderia ser um elogio para um(a) cronista talentoso(a), se não significasse “aquilo ou aquele que está em desacordo com os usos e costumes de uma época”. Ou seja, o dicionário sempre esclarece, mas tira toda a possibilidade de criatividade. Também não existe poesia nos dicionários, exceto a palavra em si, que é um dos verbetes bem procurados na letra “P”. Com essa mesma inicial tem peremptório, que é muito bom. Tão bom que significa algo definitivo, decisivo.

Quando eu era pequeno, tanto tempo atrás que ainda existia o que chamavam de Curso Primário, todos ficávamos impressionados com a palavra da língua portuguesa que se imaginava ter o número de letras. São 27, em inconstitucionalissimamente. Essa, evidente, não merece estar entre as prediletas. Lembrei dela pela excentricidade. Depois inclusive descobri que tem 46, aquela que de fato é a maior dicionarizada em Português: pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico. Então, tratei de buscar as também muito longas em outros idiomas. Pasmem! Em alemão tem uma com 80, em sueco outra com 130. E a recordista mundial é em grego, com 182 letras. Esse desperdício todo, lá na Grécia, identifica uma comida. Haja apetite! Mais uma vez o português ficou para trás.

Tem ainda muitas que parecem ser uma coisa e são outra. Equidade não é a certidão de nascimento de um equino, mas tem a garbosidade de um puro sangue. Patavinas não refere a ave fêmea da família Anatidae (cuidado para não confundir com marreco, que hoje isso é politicamente perigoso). Justaposição não é o lugar que você acha que merece ocupar, na vida em sociedade. E acabo de me dar conta da possível razão dos pentecostais seguirem Bolsonaro cegamente: eles devem achar que democracia é um sistema de governo liderado pelo demônio, sendo importante combater isso. Deu exatamente o contrário, mas quem sabe um dia eles abrem os olhos?

Voltando para as palavras que podem ser cativantes por si: arapuca parece ser muito mais do que uma armadilha indígena para pegar pequenas aves e roedores. Sugere uma exclamação, denotando surpresa. Talvez seja uma antepassada da interjeição bem gaúcha a la pucha? Em uma publicidade antiga na televisão, uma criança brasileira falava “almôndegas” para um italiano, que dizia ficar com medo da expressão. Por lá esse prato é chamado de polpetas, algo mais simples. Minha lista seria quase interminável, mas me deixem acrescentar mais umas poucas: saracotear, bambolê, sincrônico, hipotenusa, simetria, lambisgóia, prelúdio, quitanda e songa monga – essa na verdade foi reduzida hoje em dia para apenas a primeira parte, sem perder o sentido completo.

De outras tantas palavras gosto pelo que elas significam de fato. Como liberdade, amor, gratidão, reconhecimento… Veja que essa última forma de fato uma base sólida, feita com a liga entre o respeito e a humildade. Aliás, a base de qualquer cultura é a língua, o idioma. Razão pela qual eu fico muito indignado quando vejo o anglicanismo invadindo nosso território, não como um acréscimo normal, que sempre ocorreu e ocorre em todos os lugares, por assimilação. Mas sendo uma ação pensada, domesticadora, colonialista. “Os limites da minha língua são os limites do meu mundo”, afirmou o filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein. Eu adoro expandir os meus.

10.12.2021

No bônus musical de hoje, a muito apropriada Palavras ao Vento, uma composição de Marisa Monte e Moraes Moreira, na voz de Cássia Eller.