Página 144 de 155

BIER, MEU BRUXO

Enquanto esperava que um inquilino reticente desocupasse o apartamento onde pretendia morar, em Porto Alegre, Augusto Franke Bier ficou hospedado no meu, em Nova Prata. Me ajudava no jornal que eu mantinha, escrevendo e ilustrando boa parte das matérias. Não se ganhava dinheiro com isso, mas era divertido. Na pequena redação nasceram obras primas que extrapolaram o território onde circulava a publicação – mas esse é um assunto para outra ocasião. Natural de Santa Maria e criado em Santo Ângelo, ele é um dos cartunistas mais talentosos do RS. Publicou seus primeiros cartuns aos 15 anos e de imediato foi levado para uma conversa na Delegacia de Polícia, porque era proibido tocar em temas como a fome, durante a ditadura militar. Aos 18, quando colaborava no jornal Denúncia, do jornalista Tau Golin, foi recolhido ao xilindró por alguma ousadia semelhante. Mas sobreviveu e concluiu o curso de jornalismo, na PUC.

Nas manhãs geladas da serra gaúcha, bater na porta do quarto dele era insuficiente. Espiando para dentro, difícil era acreditar que ele estivesse vivo debaixo de uma quantidade inenarrável de cobertores, que não se moviam com a respiração dele. Mas terminava saindo da hibernação, resmungando rumo ao café e ao trabalho. Por algum tempo nos alimentamos comprando vianda num restaurante que fora aberto no Automóvel Clube. Depois nos revezávamos na limpeza dos recipientes, removendo a gordura que se acumulava no fundo, com muita água quente, paciência, detergente e algum talher fazendo a função de espátula. Sobrevivemos porque éramos jovens o suficiente para a circulação sanguínea suportar alguns abusos. Vez por outra íamos na Cantina Itália, do amigo Bocchi. Nessas oportunidades consumíamos um honesto bife à parmegiana, bebendo cerveja ou vinho e jogando muita conversa fora.

O Bier também conseguiu nesse período me ensinar uma série de palavrões que eu nem sabia que existiam. Certa manhã o alemão estava tomando banho quando uma vespa entrou pela janela e depositou seu ferrão com vontade em região que, se não fosse por ele estar no chuveiro, estaria devidamente coberta. Nunca vi o cara tão bravo. Foi quando ele desfiou um rosário de expressões que fariam corar cafetão na zona. Mancando um pouco e ainda molhado ele tratou de colocar fogo no vespeiro que se formara na varanda, usando um cabo de vassoura com pano embebido em álcool, devidamente aceso. E resmungava vingado para cada inseto que abatia. Teria saído pela cidade fazendo o mesmo – pelo mundo todo, se pudesse. Trabalharia sem nenhum pudor pela extinção da espécie. Teve dificuldades para sentar, nos dias seguintes. E cada vez que tentava pronunciava baixinho alguma coisa indecifrável, talvez em dialeto vindo lá das terras dos seus antepassados europeus. Quanto a essas palavras, achei prudente não perguntar o que significavam.

Muito do que se fez por lá vai permanecer na conta do esquecimento conveniente, para todo o sempre. Coisa assim tipo arquivos secretos da CIA. Mas que foram tempos felizes, isso foram mesmo. Depois, seguimos nossos caminhos distantes um do outro, mas sem que a amizade e o respeito fossem abalados. Ele trabalhou por anos no Sindicato dos Bancários e chegou a dirigir duas vezes o Museu da Comunicação Social Hipólito José da Costa, com competência que deveria ter ficado como exemplo. Foi premiado no Salão Internacional de Humor de Piracicaba e também no Salão de Duisburg, na Alemanha, com trabalhos ricos no traço e na ironia, uma das suas maiores e melhores características. Contribuiu nas redações de O Pasquim e Tchê! – jornais alternativos que marcaram época –, e publicou alguns livros que merecem recomendação de leitura. A série sobre Blau, um personagem inspirado nos imigrantes alemães que colonizaram o interior do nosso Estado, marcou época. Seu passeio pelo terreno da poesia rendeu Serenata para uma Janela Fechada. E recém lançou o excelente Rio Grosso do Sul, mostrando em preto e branco muito do que é a vida dos habitantes deste território tão peculiar abaixo do Mampituba.

Tenho todos e com dedicatórias. Mas não empresto de jeito nenhum: quem empresta um livro a um amigo corre o risco de perder ambos. Para que ninguém morra de inveja, deixo aqui o contato do autor (afbier@cpovo.net). Vá que além de obter seus exemplares vocês também consigam que ele conte outras histórias, daquelas que preferi deixar de fora.

13.05.2020

FOI A MÃO DE DEUS

Aquela deve ter sido uma das maiores atuações de Maradona, com a camiseta da Seleção Argentina. O jogo era eliminatório e valia uma vaga nas semifinais da Copa do Mundo de 1986. Aos cinco minutos do segundo tempo ele partiu conduzindo a bola na direção da área inglesa, em jogada pessoal. Três adversários não o detiveram. Quase na linha de entrada, tentou tabela com Valdano e um defensor interceptou a bola. Mas pegou mal nela, que acabou alçada na direção de seu goleiro. O camisa dez argentino prosseguiu na corrida e pulou, dividindo. Não alcançou com a cabeça, mas deu um sutil toque com a mão e abriu o placar. O gol irregular foi validado, mesmo diante de protestos, com os sul-americanos saindo na frente. Ao final do confronto, que terminou com vitória da Argentina por 2×1 sobre a Inglaterra – o segundo gol também foi dele, um dos mais lindos de toda a história das Copas –, a pergunta que não poderia deixar de ser feita: – Foi com a mão? E a resposta sublime aos jornalistas e ao mundo: – A mão foi de Deus!

Estava perpetrada uma pequena vingança contra a seleção do país com quem estiveram em guerra até quatro anos antes. O conflito começou quando a Argentina, cansada de esperar pela devolução das Ilhas Malvinas, ocupadas pelos europeus desde 1833, resolveu retomar militarmente a área. Isso interessava à ditadura militar argentina, já ameaçada pela exaustão do povo diante da falta de liberdade e crises econômicas sucessivas. O arquipélago fica bem próximo à província mais meridional do nosso vizinho, chamada oficialmente de Terra do Fogo, Antártida e Ilhas do Atlântico Sul, na região da Patagônia. E dista cerca de 13 mil quilômetros de Londres. A reação britânica foi imediata, com o deslocamento de tropas, o que resultou em confronto armado que durou três meses e meio, custando a vida de 649 argentinos e 255 britânicos, em números estimados, uma vez que jamais houve de parte à parte a confirmação oficial.

Em 2005 foi revelado que a primeira-ministra Margaret Thatcher exigira do presidente francês François Mitterrand que fornecesse os códigos de desativação dos mísseis Exocet que a França havia vendido para a Argentina. Isso os tornaria inoperantes, incapazes de visualizar e atingir os alvos. Ela teria ameaçado que, sem os códigos para defender seus soldados, atacaria no continente sul-americano, usando armas nucleares. Queria reduzir as perdas, que já estavam incomodando a opinião pública em seu país. Os argentinos conseguiram abater 34 aviões inimigos e afundaram oito navios, entre eles dois destróiers e duas fragatas, além de avariar outros 11. Esses são os números oficiais admitidos pela Armada Britânica, que nunca puderam ser confirmados, sendo razoável acreditar que propositalmente diminuídos. Acesso aos documentos oficiais serão permitidos apenas no ano de 2082.

Foi o possível, diante da disparidade de forças. A diferença de equipamentos também era gritante. Os soldados argentinos congelavam, com roupas inapropriadas, enquanto os ingleses tinham fardamentos aquecidos, óculos para visão noturna, armas mais precisas. A autonomia de voo de alguns modelos de aviões argentinos era pequena, permitindo que fizessem exatamente o percurso até o arquipélago, rente ao mar na ida e na volta, para escapar dos radares. Descarregavam seus mísseis e voltavam. Qualquer demora nisso fazia com que não conseguissem mais retornar até a costa: vários caíram no mar, por falta de combustível e não pela pontaria da artilharia antiaérea. Existe relato impressionante de um piloto que foi voando e voltou a nado, merecendo a condecoração recebida.

Maradona foi bicampeão mundial, com sua seleção vencendo a Alemanha por 3×2 na final. Fez cinco gols na competição, ficando um atrás do artilheiro Gary Lineker. A ditadura argentina chegou ao fim e tem, atualmente, menos chance de renascer do que a brasileira. As Malvinas continuam ocupadas pelos britânicos, mas os dois países mantêm relações diplomáticas, mesmo sem muita cordialidade. Margaret Thatcher morreu em 2013, deixando muita saudade aos neoliberais. E provavelmente ao cabelereiro responsável por armar todos os dias aquela estrutura que a deixou famosa, sendo sua marca registrada junto com a incapacidade de sorrir.

11.05.2020

A caricatura foi feita pelo argentino Gonza Rodrigues.