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OS VÁRIOS SÍTIOS DE LOBATO

Pedrinho e Narizinho foram meus amigos de infância. Participei de todas as aventuras deles – ao lado de Emília, uma boneca de retalhos de pano e personalidade forte, do Visconde de Sabugosa e do Marquês de Rabicó, esse último um porquinho simpático que vivia ameaçado de ir para a panela. Também ouvi as histórias da avó dos dois, Dona Benta, e convivi com outros personagens naturais e convidados, no Sítio do Pica Pau Amarelo. Tudo descrito nas páginas de 23 livros escritos por Monteiro Lobato, na primeira metade do século passado. Meus olhos percorrerem página por página, todos eles. E com certeza a leitura serviu de combustível para muitas viagens imaginárias.

Foi em Taubaté, interior de São Paulo, que nasceu José Bento Monteiro Lobato, num 18 de abril, como hoje. Isso em 1882. Advogado e empresário, morou quatro anos nos EUA e um na Argentina. Trabalhou em revistas e editoras mas a fama, sem dúvida alguma, alcançou foi com a obra que o colocou como o mais relevante escritor da literatura infanto-juvenil brasileira. Criativo e profícuo, teve toda ela reproduzida em edições sucessivas, antes e depois de adaptações para a televisão – mas essas, obviamente, não chegou a ver. Emília e Sabugosa viraram bonecos, na indústria de brinquedos. E agora, tornado de domínio público em 2019, seu trabalho será também transformado em filme.

Monteiro Lobato era reencarnacionista, acreditava na doutrina kardecista. Demonstra isso nas histórias da turma do Sítio, através de Sabugosa. O boneco morria e voltava à vida, constituído por outra espiga de milho, outro corpo, mas sendo o mesmo de antes. Disso eu já sabia e surpresa mesmo tive foi ao descobrir que o escritor conseguia, ao mesmo tempo, defender também ideias como a eugenia – a purificação da raça branca. Tivesse eu descoberto isso antes de 2018 e não acreditaria. Porque até então me parecia que a incompatibilidade entre o espiritismo e quaisquer ideologias que preguem segregação e violência forçaria afastamento, assim como água e óleo, que não se misturam. O que deveria valer para todas as correntes religiosas e filosóficas espiritualistas, diga-se de passagem. Depois, revi meus conceitos.

O que também deveria ser revista é a exaltação sem crítica da qualidade do que ele escreveu. Se não no todo, inquestionável em importância, certamente em detalhes, em minúcias que eu não tinha capacidade de compreender na sua profundidade, quando li. Uma providência que não tem nada de inédita, uma vez que – e também isso só descobri recentemente – muita gente sugeriu que fosse feito. Nos textos ele chamava Anastácia, a empregada de Dona Benta, de preta beiçuda, dizia que o nariz dela era uma sina, a mostrava sempre como ingênua e ignorante. Fazia o mesmo com seu marido, o Tio Barnabé – aliás, o nome dele é o mesmo usado como sinônimo pejorativo, para funcionário público de baixo nível hierárquico, preguiçoso e indolente -, sempre reduzindo ambos e indicando “o seu lugar” na história.

Uma ironia, que não tenho como saber se proposital ou fruto do acaso, é que Anastácia é o nome de uma escrava negra de origem dos Bantus trazidos do Congo, cultuada por seu povo como santa e heroína. Foi um misto de bravura e resistência, uma mulher que se recusou a servir sexualmente seu proprietário branco e que, por isso, acabou estuprada como sua mãe já fora – razão dos seus olhos azuis. Com um rosto que relatos afirmam que era lindo, também foi obrigada a usar uma máscara de ferro pelo resto da vida, só tirada nos momentos que precisava se alimentar. A maneira como suportou sua dor incentivou outros negros escravizados.

Monteiro Lobato escreveu um único livro de temática adulta: O Presidente Negro, em 1926. Narra a eleição de um homem negro para presidir os Estados Unidos – isso muito antes de sequer se imaginar que Obama teria essa chance real -, que acaba assassinado. A história, que se passa também no Brasil, descreve o suposto enfrentamento que um e outro dos países daria à questão racial. A solução eugênica adotada aqui seria a divisão do território em dois. As regiões sul e sudeste se unem ao Uruguai e à Argentina, criando uma inacreditável República Branca do Paraná, enquanto norte e nordeste passariam a abrigar apenas índios, negros e mestiços. Já o “grande irmão do norte”, que não aceitava ser dividido e nem desacreditar mundialmente uma Constituição que tanto orgulha seu povo, expulsando os negros de volta para a África, escolhe outro caminho. Exige que todos os não brancos alisem seus cabelos com o uso de raios ômega. Sem contar para eles, evidentemente, que tal processo visava na verdade tornar todos estéreis. Ou seja, Lobato sugere a segregação num caso e o genocídio no outro.

Quem ainda não acredita no racismo do escritor, deveria ler trecho da carta que ele escreveu para o médico baiano Arthur Neiva, exaltando a existência de uma organização que eliminava negros nos EUA: “Um país de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Ku Klux Klan é país perdido para altos destinos”. Ou outro da que escreveu para o psiquiatra Renato Kehl, homem que inspirou a criação da Sociedade Eugênica de São Paulo (Sesp), a primeira a surgir em toda a América Latina. Nesta também é explícito: “Precisamos lançar, vulgarizar estas ideias. A humanidade precisa de uma coisa só: poda. É como a vinha”. Felizmente a leitura dos seus livros não podou meu senso crítico – sigo até mesmo recomendando acesso dos jovens ao mundo do Sítio, desde que com a devida orientação e o contraponto que a vida atual exige. E a criação que eu tive me manteve acreditando que a inclusão e o respeito à diversidade ainda são o melhor caminho. Mesmo parecendo algo tão utópico e ficcional.

18.04.2020

O PARAÍSO É UM INFERNO

O filme Paraíso, do russo Andrei Konchalovsky, esteve na lista de concorrentes ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, em 2017. Ganhara o Leão de Prata de Melhor Diretor, no Festival de Cinema de Veneza, Itália, no ano anterior. Rodado em preto e branco, não tinha mesmo como usar cor alguma. Porque é sombrio como a época e local onde se passa a história narrada: a França invadida e um campo de concentração para onde são levados judeus e outros acusados de integrar resistência ao nazismo. A bela atriz e apresentadora de TV russa Julia Vysotskaya faz o papel da protagonista Olga. Entre os demais, destaques para o policial Zhyul (Philippe Duquesne) e o militar Khelmut (Christian Clauss).

O título do filme é quase um deboche, porque identifica aquilo que a pretensão alemã se achava capaz de criar e não o ambiente que a guerra terminou produzindo. “Você sonha com o paraíso na Terra. Mas não existe paraíso sem inferno”, afirma o oficial alemão corrupto ao membro da SS que investiga abusos no campo de concentração. O investigador vai ao local para impedir saques aos pertences dos presos e desvios dos mantimentos enviados por seu próprio exército, mas não considera absurdas as atrocidades praticadas no dia-a-dia e nem o uso da câmara de gás e a cremação indistinta. O campo estava de tal forma lotado que os ocupantes dos novos trens que chegavam, em especial vindos da Hungria, já eram eliminados direto após o desembarque.

A pouca alegria que é vista vem de um filme que Khelmut assiste, mostrando férias com amigos aristocratas em tempo anterior à guerra. Nele, por força do destino, estão algoz e vítima de agora, ambos bem nascidos, em contato breve. E mesmo essa felicidade soa pouco verdadeira, mais fruto da embriaguez do que de um prazer legítimo. “O mal cresce sozinho, sem precisar de ajuda”, filosofa em certo momento uma Olga agora presidiária, que vai aos poucos perdendo-se de si mesma. Ela, que ao ser detida pela polícia francesa, acusada de estar acobertando e protegendo judeus, se oferece ao policial colaboracionista para tentar escapar de destino pior. Corpo, confiança e temperamento vão se dissolvendo com a desesperança. E se alternam momentos cada vez mais raros nos quais vê alguma saída, com outros em que resta a certeza de um fim sem consolo algum.

Desta vez se tem uma narrativa não baseada no “heroísmo”, na “libertação” que os filmes norte-americanos adoram mostrar, quando usam a Segunda Guerra Mundial como tema. Não existem os mocinhos e também ninguém é inocente. A infâmia é distribuída entre todos. “Eu não preciso pedir desculpas por nada. Perdemos a guerra mas fomos pioneiros em algo maior. O mundo ainda não está pronto para a perfeição”, afirma o convicto Khelmut, que não se afasta um milimetro da certeza da superioridade ariana, nem diante da derrocada. O mesmo que sorve goles do seu schnapps, aparentando tranquilidade, enquanto bombas lançadas pelos inimigos explodem cada vez mais perto.

Terrível é a cena em que uma detenta cai morta e suas colegas se jogam sobre o corpo, lutando pela posse de botas gastas e vestes sujas. A degradação humana, onde impera selvageria entre iguais, no desespero por um cigarro, ou por um prato de sopa rala e um naco de pão duro, se repete ao longo de dias sempre iguais. Ratos presos que devoram uns aos outros, no melhor estilo das pesquisas do psicólogo norte-americano Burrhus Frederic Skinner, professor em Harvard. Ele acreditava que a ação humana é consequência de ações anteriores, sendo o livre arbítrio uma imensa ilusão. O comportamento, segundo ele, sempre é moldado pelo meio. A banalização da violência e da morte também é mostrada em outra cena, na qual dois meninos caminham por uma estrada, brincando e rindo, alheios aos corpos que estão estirados à margem do percurso. Me fazendo companhia em mais um dia de confinamento, o filme mostrou que minha casa definitivamente não é uma prisão. E que as máscaras de pano que eventualmente se precisa usar estão longe das moldadas em faces fanatizadas por uma ideologia ultraconservadora e totalitária.

15.04.2020