Ele recebe em torno de R$ 46 mil por mês de salário bruto. Com os devidos descontos previdenciários e de Imposto de Renda, não passa de R$ 33 mil líquidos. Mas seu patrimônio vem crescendo em média quase R$ 100 mil a cada 30 dias, nos últimos quatro anos – que correspondem ao tempo em que está como deputado federal. Nikolas Ferreira (PL/MG) informou, para a disputa do pleito de 2022, possuir R$ 36.820,46 em bens; agora, na declaração apresentada para tentar a reeleição, o montante chega a R$ 3.898.456,67.

A diferença corresponde a um aumento de exatos 10.487,75%, uma vez que os bens declarados estão 105,88 vezes maiores. A evolução chamou atenção nas redes sociais e colocou em debate as fontes de renda obtidas pelo deputado. Ele atribui o espantoso crescimento patrimonial como fruto não somente da remuneração como parlamentar, mas também de atividades privadas desenvolvidas paralelamente. Entre as fontes mencionadas estão uma escola de inglês “direcionada ao público cristão” e palestras. Mas não existem documentos comprovando isso.

O salário parlamentar, isoladamente, não consegue explicar de modo algum uma evolução dessa dimensão. Nem que ele não gastasse um tostão sequer, poupando a totalidade do que recebe, conseguiria essa proeza. E as desculpas dele, que não sei como estão sendo aceitas pela Receita Federal, se assemelham àquelas de Flávio Bolsonaro e sua loja de chocolates. Se bem que o aprendiz ainda está longe de poder adquirir dezenas de imóveis de luxo, pagando com dinheiro vivo. Mas garanto que ele ainda chega lá.

Nikolas, depois de se tornar deputado, também passou a exibir uma rotina que inclui viagens internacionais, como a presença em finais da Liga dos Campeões da Europa, além de deslocamentos em aeronaves particulares. Esses episódios contribuíram para ampliar a repercussão sobre a transformação de sua vida financeira desde a última eleição. E a discussão ganhou outro componente porque o próprio parlamentar já relacionou capacidade de acumulação financeira à competência política. Ao criticar Erika Hilton (PSOL-SP), afirmou que a deputada, por não ter conseguido juntar dinheiro durante o seu mandato, não demonstra ter capacidade para administrar nada em nosso país.

O argumento permite uma leitura inversa: enriquecer durante o exercício de uma função pública também não constitui, por si só, demonstração de eficiência administrativa. Agora, parlamentares podem possuir negócios, receber por atividades permitidas pela legislação e ampliar legalmente seu patrimônio. Isso de modo algum é proibido e muito menos ilegal. Entretanto, a dimensão dessa evolução específica torna legítimo o interesse público sobre sua origem.

O caso de Nikolas evidencia ainda uma outra característica da política contemporânea: a possibilidade de converter projeção eleitoral, audiência digital e notoriedade pública em negócios privados. Quando um mandato amplia extraordinariamente a capacidade de monetização da imagem de um político, a transparência sobre a origem dos rendimentos passa a ser elemento essencial para separar sucesso empresarial de um eventual “conflito entre interesses públicos e particulares”. 

Outra ligação relevante de Nikolas Ferreira é com os pentecostais, em especial com a Igreja Batista da Lagoinha – apesar de ele ser oficialmente membro da Comunidade Evangélica Graça e Paz, em Belo Horizonte, que é de sua família e onde seu pai é pastor. E também é muito forte seu vínculo com o banqueiro preso Daniel Vorcaro, do Banco Master. Através da Lagoinha é que ele projeta seu nome para além das fronteiras de Minas Gerais. A instituição tem centenas de templos espalhados pelo Brasil, 14 deles apenas no Rio Grande do Sul. Estão em Porto Alegre, Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Pelotas, Lajeado e alguns municípios menores, como Nova Prata, Teutônia e Carlos Barbosa. Ele inclusive já fez algumas incursões ao Sul, visitando tais lugares. A questão é saber se ele ensinou aos fiéis a forma como vem “multiplicando os pães” ou se está, como parece, mais preocupado com assuntos mundanos, tais como dízimos e notoriedade que um dia repercuta em votos.

31.08.2026

P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial. 

O bônus de hoje é A Pedra do Gênesis, de Raul Seixas. A música trabalha os temas religião, pecado, poder e contradições humanas, embora não seja diretamente sobre falsos profetas. Se fosse, viria a calhar ainda melhor.


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