Hoje vou completar minha sugestão inicial de leitura para esse ano, que eu havia começado duas postagens atrás, com quatro livros de escritores brasileiros. Os quatro de agora são estrangeiros. Evidente que ninguém deve ficar restrito nem a esse número total de oito, nem à listagem que estou apresentando. As “metas literárias” devem ser estabelecidas de modo individual, conforme critérios de interesse, conhecimento prévio, tempo que se tem para destinar à leitura e outras tantas variáveis. Mas sigo dizendo que ler resenhas e se informar sobre lançamentos das editoras podem ser duas providências auxiliares importantes. Assim como amplia o resultado da leitura ter uma hora do dia para dedicar-se apenas a isso, bem como levar consigo um livro quando sai de casa, para aproveitar momentos que surjam, como em consultórios, por exemplo. E fazer anotações, muitas anotações.

Começo recomendando uma obra do escritor nigeriano Chinua Achebe: O Mundo se Despedaça. Ela está sendo considerada como fundadora da moderna literatura da Nigéria e narra a história de Okonkwo, que é guerreiro da etnia ibo e pertence a um clã que se desintegra a partir do contato com o homem branco e suas instituições. Seus valores são aos poucos colocados em cheque pelos colonizadores britânicos e pelo seu cristianismo. Mudam relacionamentos sociais e a forma de governo; surge a escola e a polícia; e a crença nas forças anímicas e na sabedoria dos antepassados vai sendo trocada à força pelos ensinamentos da nova religião. Contra isso reage o protagonista, que tenta enfrentar a ação dos missionários para manter as tradições locais. A trama é muito envolvente e quem começa a leitura deseja continuar em um fôlego só. A publicação original da obra, que depois foi relançada, remete a dois anos antes da independência do país. E seu autor recebeu por ela o Man Booker International de 2007. O livro tem forte teor político e remete aos dias atuais, de forma indireta.

Outra excelente escolha pode recair sobre A Biblioteca da Meia-Noite, do inglês Matt Haig. O romance aborda os muitos rumos que nossas vidas podem tomar, enquanto se busca por aquele que nos parece o certo. Conta a história de uma mulher que, aos 35 anos de idade, enfrenta uma crise pessoal e se arrepende de decisões que tomou ao longo do tempo. Sem ver sentido na sua existência, ela se pergunta como poderia estar agora se no passado tivesse escolhido outras opções. É então que ela se depara com os livros de uma determinada biblioteca, um lugar entre a vida e a morte. Através deles ela pode enfim vivenciar experiências com mudança de país, se tornar uma estrela do rock, uma nadadora olímpica, reatar relacionamentos que se perderam no caminho. Diante de opções infinitas, resta saber se qualquer uma delas seria de fato melhor do que a vida que levou. Na realidade, a obra é uma referência extraordinária sobre a influência e o poder que os livros podem exercer sobre as pessoas.

Recomendo também Casta – As Origens de Nosso Mal-Estar, livro da jornalista estadunidense Isabel Wilkerson. Um dos lançamentos recentes mais importantes, tem a narrativa traçando um paralelo entre a divisão da sociedade na Índia, o regime da Alemanha nazista e o racismo de sempre, nos EUA. Segundo a autora, esses três exemplos se baseiam no mesmo sistema de castas, estrutura que impede os que são considerados “inferiores” de alcançarem direitos fundamentais. No caso do seu país, esses seriam os afrodescendentes – talvez ela devesse conhecer o Brasil e seu racismo estrutural, estendendo ainda mais a sua teoria. Essa divisão seria responsável direta pela violência que sofrem os negros. A obra, traduzida e publicada em português agora em 2021, se tornou um best-seller em vários países.

Minha quarta sugestão é A Casa do Silêncio, um romance escrito pelo turco Orhan Pamuk. Nele é contada a história de uma pacata avó de nome Fatma, que recebe em seu antigo casarão a visita de três netos. Acontece que eles têm problemas e posicionamentos políticos bastante diversos, fazendo com que se torne complicado para a anfitriã esse convívio. Além da pacata senhora, também vive no local um filho bastardo do seu falecido esposo, que na verdade é para ela como um empregado sempre disponível a atender seus pedidos. Essa não parece, num primeiro momento, premissa suficiente para resultar num grande texto. Só que no decorrer da leitura tudo vai tomando uma dimensão que extrapola as expectativas, trazendo ainda uma final que surpreende e emociona. Pamuk é o escritor de maior sucesso comercial em seu país, tendo também vencido o Prêmio Nobel de Literatura, em 2006.

25.01.2022

Quanto mais a pessoa lê, mais amplia seus horizontes
Ler é fundamental

O bônus de hoje é a música Sound of Silence (O Som do Silêncio), que foi composta por Paul Simon e tornada mundialmente famosa com a interpretação da dupla ele que mantinha com Grafunkel. Segundo o autor, a letra foi inspirada no livro Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, uma distopia sobre o autoritarismo, a narrativa de um futuro onde as pessoas não têm mais acesso à leitura e a televisão controla tudo – talvez hoje Bradbury optasse por alguma rede social no papel de “vilã”. O clip escolhido é bem mais sombrio e foi gravado pela banda de metal de Chicago chamada Disturbed (Perturbada), que tem David Draiman como vocalista. Tendo lançado sete álbuns, eles conseguiram com cinco deles o primeiro lugar na Billboard 200.

Clicando em cada uma das capas acima você tem acesso a um link que permite adquirir exemplares. Caso opte por fazer alguma compra, se seguir por esse acesso o blog é comissionado.

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