24 HORAS

Tivemos, alguns anos atrás, um seriado na televisão com o nome de 24 Horas. Esse era o tempo que o protagonista tinha para resolver alguma grave crise que ameaçava o seu país. Os EUA, lógico. Mas Jack Bauer era implacável e conseguia vencer sempre os inimigos da democracia. Pois nós, aqui no Brasil, estamos agora diante do mesmo prazo, para resolver um drama igual. Dentro de 24 horas vamos estar diante das urnas eletrônicas tendo que digitar dois algarismos que, depois, irão indicar se nossa nação voltará à normalidade democrática ou seguirá por mais quatro anos de desatino e autodestruição.

A série norte-americana produzida pela Fox teve sua estreia apenas oito semanas depois do incidente de 11 de setembro de 2001. E recebeu, ao longo de todo o tempo em que foi exibida – até 2014 –, nada menos do que 20 Emmys e dois Globos de Ouro. O que não é nada pouco. Seus criadores partiram da premissa de que os episódios de cada temporada eram, na imensa maioria das séries, 24. E que esse, sendo exatamente o mesmo número de horas de um dia, iria permitir uma espécie de “história em tempo real”. Essa correlação foi aproveitada pelos criadores Robert Cochran e Joel Surnow de tal forma que cada episódio equivalia a uma hora do dia no qual a trama toda se desenvolvia. Em alguns momentos a tela era dividida mostrando a quem assistia dois acontecimentos que eram de fato simultâneos. E um relógio ia mostrando o passar do tempo, inclusive com o som do tic-tac servindo para aumentar a angústia e o suspense.

Se eu consegui ser claro o suficiente, quem está lendo e não viu esses episódios na época em que também estiveram em canais de TV aqui em nosso país, uma temporada inteira mostrava uma única história. Tudo surgia e era resolvido em 24 horas, mas uma hora em cada semana. E, como nas melhores novelas, o suspense era sempre enorme entre um e outro dos episódios. A frase que anunciava o programa pode ser usada com perfeição para identificar esse 30 de outubro aqui no Brasil: Muitas coisas podem acontecer em um dia; e esse é um dia como nenhum outro. Kiefer Sutherland era o ator que dava vida ao agente da unidade antiterrorismo que precisava sempre desativar bombas, retirar reféns de situações limite e eliminar inimigos hostis.

A bomba fascista está pronta para explodir por aqui, depois de quatro anos sendo fortalecida, arregimentando fanáticos, armando a população, espalhando mentiras, cooptando segmentos cristãos e militares, criando uma realidade paralela. Os reféns são os cidadãos que preferem ver o país vivendo uma democracia plena, com real enfrentamento de nossos sérios problemas, como a desigualdade social e a precariedade evidente nos serviços públicos prestados aos que deles necessitam. E os inimigos hostis são aqueles que se locupletam com o sistema vigente, sem sequer uma gota de empatia e humanidade. Permitindo, por exemplo, que faltem vacinas e oxigênio necessários para salvar vidas; destruindo o sistema de saúde; aniquilando a educação e a pesquisa; incentivando o garimpo ilegal, o desmatamento, o maior empoderamento de milícias; insuflando o ódio; se apossando dos símbolos da pátria; e dividindo as famílias e a nação como um todo em dois grupos.

A diferença entre a nossa realidade e a ficção daquele seriado é que por aqui as horas serão em um só dia. Por enquanto, horas de expectativa. Amanhã, entre 8 e 17 horas na maior parte do território nacional, com a necessidade que os habitantes de regiões que têm fuso horário diferente do oficial de Brasília terão que se ajustar, começando e terminando uma ou duas horas antes. Outro detalhe que diferencia é que não teremos um único herói, um salvador da pátria: a tarefa de resolver isso de uma vez está distribuída entre milhões de brasileiros. Será uma espécie de mutirão que busca justamente afastar um falso messias. Fosse qual fosse aquele que contra ele estivesse nesse segundo turno, precisaria ser ungido – o termo está sendo usado de propósito – pelas urnas. Quem se apresenta para cumprir esse papel é Luiz Inácio Lula da Silva, então é nele que toda a esperança, na verdade toda a certeza, precisa ser depositada.

Chega de incompetência, basta de descaso com a vida das pessoas, chega de sigilo de cem anos protegendo a corrupção endêmica, não se aceita mais que “pinte um clima” entre um chefe do Executivo e meninas menores de idade, não concordamos com projetos como o preparado para o ano que vem, com o objetivo de reduzir o salário mínimo e os reajustes das aposentadorias. Ou ainda aquele anteriormente gestado e que está “em banho maria”, que pretende cobrar do povo o atendimento prestado pelo SUS. Queremos de volta um Brasil respeitado no cenário internacional. Que as universidades públicas voltem a ter reitores reais e não interventores. Que o poder aquisitivo das classes menos favorecidas aumente ao invés de minguar. Que o orçamento não tenha nenhum tostão com destinação secreta. Que diretores e delegados da Polícia Federal não sejam afastados ou exonerados, por estarem fazendo o seu trabalho. Que voltem a ser fortalecidos o IBAMA e o ICMBio, para a defesa e fiscalização do meio ambiente. Que todo e qualquer gabinete do Palácio do Planalto seja um local de trabalho e não de fomentação do ódio. Queremos um governo que governe para a maioria do povo e não para seu compadrio, para membros da família, para parceiros chegados pelas benesses oferecidas. Queremos maior controle da inflação e dos preços dos alimentos. Queremos trabalho sério pela erradicação da fome em nosso país. Queremos respeito e a restituição da dignidade.

No primeiro turno o candidato à reeleição, Jair Bolsonaro, obteve 43,20% dos votos válidos. Isso equivale a dizer que 56,80% dos brasileiros que compareceram às urnas disseram NÃO para ele, disseram NÃO para a possibilidade de haver continuidade. Então, prestemos atenção nisso, a diferença entre a aprovação e a desaprovação de seu governo é bem maior do que a verificada entre ele e Lula, que chegou em primeiro lugar, com 48,43% dos votos válidos. Os 57.259.504 votos dados ao candidato do Partido dos Trabalhadores e da Coligação Brasil da Esperança, no dia 02 de outubro, é o maior número já alcançado por quaisquer postulantes à presidência do Brasil em primeiro turno, na história.

Quando foi eleito pela primeira vez, em 2002, Lula teve 39.455.233 votos no primeiro turno (46,44%). E quando de sua reeleição, no ano de 2006, foram 46.662.365 (48,61%). Nos dois segundos turnos nos quais ele confirmou a escolha da maioria do eleitorado, recebeu em 2002 um total de 52.793.364 (61,27%); em 2006 foi reeleito com 58.295.042 (60,27%). Claro que existe aumento do número de votantes, a cada ano. E aconteceram também variações no número de abstenções. Mas foi sempre muito expressiva a sua aceitação, tanto em termos absolutos como em termos percentuais. E esse recorde de segundo turno tem tudo para ser batido amanhã. Para tanto, cada um de nós ainda tem essas poucas horas restantes para ser um Jack Bauer. Para conquistar um votinho a mais que seja e ir lá confirmar o seu. Para poder dizer depois, com todo o justo e merecido orgulho: “Eu ajudei a recolocar o Brasil nos trilhos. Eu contribuí para que terminasse o pesadelo e voltasse o sonho. E agora vou trabalhar para que o desejo de justiça e paz dessa nação se torne também realidade”.

29.10.2022

O bônus de hoje é múltiplo. Temos a reprodução de duas das peças da campanha eleitoral da Coligação Brasil da Esperança: a primeira intitulada Amanhã e a segunda com o jingle A Esperança Agora é Lula. Depois, o Coletivo Consciente de Orquestra e Coro, interpretando a música O Povo Unido Jamais Será Vencido, de Sergio Ortega e Grupo Quilapavún.

A GRAMA É AZUL

Um tigre e um burro estavam conversando, enquanto caminhavam lado a lado por uma área aberta. A primeira conclusão à qual se chega é que o tigre não estava com fome. A segunda, óbvia como a primeira, é que se trata de uma fábula. Num determinado momento, ao olhar para baixo, o burro comenta como a grama estava especialmente azul, naquele dia. O que deixa o tigre perplexo.

“Mas a grama é verde”, afirma ele. “Claro que não: ela sempre foi e será azul”, afirma o burro. E a partir de então a discussão prossegue, sem que nenhum dos dois abrisse mão de suas convicções relativas às cores. Na impossibilidade de um consenso, resolveram recorrer a uma terceira opinião. Mais do que isso: buscaram no Rei das Selvas – e não era o Tarzan, nessa história – a resposta para qual dos dois estaria com a razão.

O tigre pergunta então para o imponente leão: “Alteza, existe alguma chance remota na afirmação desse burro, de que a grama é azul, ser verdadeira?”. E é surpreendido pela resposta: “Claro que sim. A grama de fato é azul”. O burro exulta com a sua verdade sendo confirmada. E exige uma punição ao tigre, por sua ignorância e teimosia. Com essa reivindicação também concorda o Rei, que determina seu silêncio pelo período de um ano inteiro.

Saltitante e feliz com a aceitação da sua verdade, vai embora o burro. Sozinho com o leão, tenta o tigre entender o que houve. “Majestade, não é possível. O senhor sabe que a grama é verde.” E o leão desta feita concorda com ele: “De fato, a cor correta da grama é o verde”. Surpreso, o tigre volta a se manifestar. “Sendo assim, porque o senhor me puniu?” E a inteligência do líder foi confirmada na lição: “O castigo é porque um ser corajoso e inteligente como você não deveria perder tempo algum discutindo com um burro”.

Eu conheço muitos tigres. Muitas vezes, nos últimos quatro anos, tenho também eu próprio me sentido como um. Não pelo rugido, pela beleza da pelagem, nem pelo porte de um dos maiores felinos do mundo, carnívoro que habita o continente asiático. Mas pela perda de tempo ao discutir com fanáticos. A estes pouco importa a verdade, a realidade e os outros. O que tem valor é sua crença e suas ilusões, assim como o desejo da vitória, como algo permanente. Nem que seja uma vitória falsa, como a cor azul da grama. Para um burro nem a evidência mais extrema, sendo contrária à sua visão de mundo, tem valor. Não teria nem mesmo a palavra do leão, se em sua manifestação mediadora ele tivesse confirmado ser verde a relva. O asno iria permanecer com a certeza do azul, porque este não estaria captado pelos olhos e sim por uma convicção distorcida.

A cegueira pode também ser fruto do ódio, do ego ou do ressentimento. Isso quando não do interesse mais rasteiro. Essa não se curva diante da luz, porque a luz não lhe atinge as retinas – nem ponto algum do cérebro. Nesses casos, o grave é que não se trata de algo inconsequente. Nessas ocasiões e circunstâncias o resultado pode vir a atingir muita gente. Como por exemplo insistir que tudo está cor-de-rosa, não vendo o cinza da fome e da morte; jurar que o vermelho é pecado, sem perceber que pode ser paixão e amor; sentir-se dono do amarelo não vendo que, sendo ele símbolo da alegria, deve ser distribuído igualmente para todo ser humano.

Se a falta de racionalidade faz com que a ignorância grite, exigindo que se veja o que não existe, razão e inteligência não podem se calar. Com toda a tranquilidade e a persistência necessárias, quem acredita no poder da empatia, no respeito à vida, na verdade e na justiça social, precisa seguir trabalhando para que as coisas voltem para seu rumo. Afinal, não se pode permitir que se desbote a cor da esperança.

23.08.2022

O burro e o tigre discordam com relação a cor da grama

O bônus de hoje é o clipe oficial da música De Toda Cor, de Renato Luciano. Ela já foi colocada nesse espaço do blog, no ano passado. Está sendo aberta uma exceção, com sua volta, o que até então nunca tinha sido feito. São duas as razões disso: a extrema qualidade do trabalho e a oportunidade do tema. Uma conclamação ao respeito por todas as cores, as nuances e as escolhas. Pluralidade, empatia e respeito. Justo aquilo que estamos precisando tanto hoje em dia, em nosso país. São várias as participações especialíssimas no clipe: Paulinho Moska, Emílio Dantas, Oswaldo Montenegro, Elisa Lucinda, Ney Matogrosso, Pedro Luís, Laila Garin e Léo Pinheiro.

DICA DE LEITURA

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