Podem acreditar: a maior vergonha que já passou a Marinha do Brasil não foi o desfile patético protagonizado pela Esplanada dos Ministérios, no caminho até o Palácio do Planalto, dia 10 de agosto. Pouco mais de um século antes, algo muito pior aconteceu, fazendo com que a armada se transformasse numa piada internacional. Era novembro de 1918 e a Primeira Guerra Mundial se aproximava do fim. Nossos navios, que compunham a Divisão Naval em Operações de Guerra, receberam ordens do almirantado inglês, que comandava as operações, para que seguissem para o Estreito de Gibraltar. Se fazia necessária sua presença, mas um cuidado especial tinha que ser tomado no percurso. Isso porque o encouraçado de nome HMS Britannia, que havia sido designado para acompanhar a flotilha brasileira, fora afundado por um submarino alemão enquanto aguardava por ela.

Nosso país havia ingressado na guerra contra a aliança germânica em 26 de outubro de 1917. Seguiram os EUA, que haviam feito o mesmo em 06 de abril daquele ano, tendo ambos se associado aos esforços da Tríplice Entente, que era encabeçada por Rússia, França e Reino Unido e combatia desde 1914. Com a ordem anteriormente citada, o comandante do cruzador Bahia, Pedro Max Fernando de Frontin, navegou junto com outras embarcações brasileiras desde o norte de Dacar, no Senegal, para adentrar rumo à orla do Mar Mediterrâneo. Também compunham nossa Divisão Naval em Operações de Guerra (DNOG) o cruzador Rio Grande do Sul, os contratorpedeiros Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba e Santa Catarina, o cruzador-auxiliar Belmonte e o rebocador Laurindo Pitta.

Com a certeza de que não apenas aquele que havia torpedeado o Britannia, mas outros submarinos da Alemanha se escondiam sob as águas, nas proximidades do destino, a atenção deveria ser redobrada. A qualquer momento, novos ataques poderiam acontecer. Em uma das noites, vigias deram o alerta: garantiram ter avistado um periscópio na água. Foi imediata a reação, com os brasileiros abrindo fogo impiedosamente, mesmo que às cegas, contra o ponto em questão. E conseguiram, com pontaria certeira, fazer vítimas. Só que se tratava de uma família de toninhas, uma espécie de golfinho, que foi dizimada. Não se usa o termo cardume e sim família para seu coletivo, porque esse animal faz parte da ordem dos mamíferos, um dos menores existentes nos oceanos, sendo um cetáceo e não um peixe.

A guerra terminou poucos dias depois dessa que ficou conhecida como a Batalha das Toninhas, vencida por nossa brava Marinha. Parece não ter existindo sequer uma sobrevivente. Consta terem sido abatidas 46 delas – não sei como chegaram a esse número, mas é o que está nos registros consultados –, com seu sangue subindo à superfície antes de se dissolver na água salgada. Depois do ruído dos canhões, houve um silêncio constrangedor ao ser constatado o enorme erro cometido. Os animais apenas haviam rodeado os navios, inocentemente. O Bahia saiu ileso da guerra e foi destruído apenas em 1945, quando a Segunda Guerra Mundial estava se aproximando do final. Mas não foi em batalha: houve um acidente interno com a munição e o cruzador conseguiu a proeza de afundar a si mesmo.

A Marinha do Brasil segue se auto infringindo danos de difícil explicação, agora ao se associar à tentativa de intimidação protagonizada por Jair Bolsonaro. Veio passear com seus velhos blindados, que mais pareciam aquelas antigas locomotivas poluidoras que se conhecia como “Maria Fumaça”, em ato que pretendia ser uma demonstração de força do presidente – no mesmo dia estava sendo votada a Proposta de Emenda à Constituição que poderia ocasionar o retrocesso do uso do voto impresso nas eleições de 2022. Ela apenas evidenciou uma verdadeira comprovação de fraqueza. Pobre do Brasil, se precisar ser defendido por aquilo.

Em tempo: os parentes mais próximos das toninhas são os botos-cor-de-rosa, existentes no Brasil. E esses estão ameaçados de extinção. Por favor, evitem atirar contra eles.

18.08.2021

Cruzador Bahia, da Marinha do Brasil

O bônus de hoje é uma música composta por Dorival Caymmi e Jorge Amado: É Doce Morrer no Mar. Cantam Marisa Monte e Cesária Évora.

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