ARMAS QUÍMICAS

Pouco mais de um século atrás o uso de armas químicas já era condenado, com seu emprego sendo considerado crime de guerra. Uma coisa que é bastante estranha de se entender, isso dos conflitos bélicos terem essa espécie de “código de honra”, estabelecendo que formas são aceitáveis para matar os inimigos e que formas não podem ser usadas. De qualquer maneira esse critério, que foi estabelecido como uma espécie de “graduação da crueldade”, de fato existe. Mesmo que, como todos nós sabemos, nem sempre ele seja respeitado. A decisão fora tomada em 1907, durante a Convenção de Haia. Ficavam proibidos a partir de então o uso de venenos ou armas tóxicas de qualquer natureza, que atingissem água ou solo. O documento citava ainda o pueril uso de flechas envenenadas. Gases não eram contemplados no texto porque simplesmente ainda não existia nenhum que tivesse esse fim. Pois bem: voltando à informação inicial, esse tipo de recurso nunca havia sido utilizado quando, numa batalha ocorrida em 1915, na Bélgica, os alemães recorreram a ele.

Foi durante a Primeira Guerra Mundial, na noite de 22 de abril. Soldados franceses e alemães disputavam território nas proximidades de Ypres, no noroeste da Bélgica. A luta pela posse da cidade se prolongava, sem perspectivas de vitória, quando um gás tóxico foi empregado. Centenas de recipientes de metal contendo cloro líquido haviam sido enterrados pelos alemães. Quando surgiu uma oportunidade, com a direção favorável do vento, eles abriram as válvulas e dispersaram 180 toneladas do produto. Liberado, esse líquido pressurizado se transforma rapidamente em um gás, que se espalha próximo ao solo, justo onde ficam as trincheiras.

Uma nuvem de cor amarela flutuou na direção dos inimigos, causando horror e desespero. Cegos e sufocados, rostos vermelhos e em brasa, tossindo desesperadamente, os franceses tentavam em vão recuar para posições mais seguras. Três mil deles morreram e outros sete mil sobreviveram, mas com corrosões graves. Segundo o historiador Ernst Peter Fischer, foi este o instante que marcou a perda da inocência da ciência. Essa, que deveria ser sempre usada para melhorar as condições de vida das pessoas, acabara de extinguir propositalmente milhares delas.

Foi o químico alemão Fritz Haber quem descobriu que o gás de cloro poderia ser usado como uma arma estratégica. Ele sabia que o produto ataca as mucosas, causa forte secreção de líquido e muco, dispneia e termina levando à morte. Tudo com a vantagem de ser barato, uma vez que se tratava, na época, de um resíduo industrial. Este foi o primeiro entre todos os cientistas conhecidos a colocar o seu conhecimento a serviço das Forças Armadas. Pelo sucesso alcançado nessa “batalha experimental”, recebeu a patente de capitão – esse gosto doentio pelo sofrimento e morte dos outros está me lembrando de outro capitão agora. Foi ele também quem descobriu a possibilidade de se produzir amônia com a combinação de hidrogênio e nitrogênio. Um bom método para fabricação de certos fertilizantes, por exemplo, mas também para que com ele se façam explosivos. Essa descoberta lhe rendeu o Prêmio Nobel de Química em 1918.

Esse novo produto surgido do saber de Haber recebera o nome de Zyklon A. Em setembro de 1941, já na Segunda Guerra Mundial, uma variedade dele, o Zyklon B, que era usado para fumigação, foi aplicado para dizimar 600 prisioneiros de guerra soviéticos e 250 pessoas enfermas, no Campo de Concentração de Auschwitz. Em forma de um granulado, quando em contato com o ar ele se transforma em um gás letal. No total, aproximadamente 1,1 milhão de vidas foram tiradas com esse método pelos nazistas, até o final dos conflitos, em 1945. Um detalhe que soa ainda mais sinistro está no fato do inventor ser judeu. O que o levou a ter que fugir da Alemanha durante o regime liderado por Hitler, indo para a Inglaterra.

Entretanto, se faz necessário explicar que essa conduta não ficou restrita aos alemães, nas duas guerras. Outros países acabaram fazendo o mesmo. O fosgênio e o gás de mostarda foram largamente aplicados. O requinte da técnica permitiu inclusive o uso combinado de mais de uma dessas substâncias. Os militares da época apelidaram essa receita de “tiro colorido”. E as indústrias produtoras alcançaram lucros exorbitantes com isso. O grupo BASF, por exemplo, foi um deles. Em termos de baixas, na Primeira Guerra Mundial foram 90 mil os soldados que tombaram vitimados por gases tóxicos. Em função disso foi assinado um documento chamado de Protocolo de Genebra, ao seu término, tentando alcançar seu banimento. Mas as pesquisas e o seu aprimoramento continuaram disfarçados, como sendo estudos para o combate de pragas agrícolas.

Durante a Guerra do Vietnã os EUA aplicaram largamente um herbicida e desfolhante químico, o “agente laranja”. A vegetação era praticamente dissolvida, expondo os soldados vietcongs que se tornavam alvos muito fáceis. O solo ficou envenenado, causando deformidades por muitos anos. Em agosto de 2013 houve um ataque com armas químicas na Síria, com governo e rebeldes até hoje se acusando mutuamente, no tocante à autoria. E esses recursos de destruição em massa já foram inclusive usados como pretexto para outros conflitos. Como quando os EUA atacaram o Iraque, supostamente porque ele as possuía, o que depois foi comprovado ser uma mentira plantada pelo governo Bush. E assim caminha a humanidade. Sabe-se lá até quando.

01.09.2021

O uso de máscaras contra gases passou a integrar a lista de equipamentos militares

No bônus de hoje a cantora e compositora norueguesa Sigrid, com a música Everybody Knows (Todo Mundo Sabe), do cananense Leonard Cohen. O clip está legendado com a tradução da letra em português. E, ao final, está a explicação de que a intenção de Cohen,  com essa composição de 1988, era demonstrar que, no fundo, não estamos no controle dos nossos destinos, mas “apenas navegando em um barco comandado por outros, que está afundando”.

PROEZAS DA MARINHA DO BRASIL

Podem acreditar: a maior vergonha que já passou a Marinha do Brasil não foi o desfile patético protagonizado pela Esplanada dos Ministérios, no caminho até o Palácio do Planalto, dia 10 de agosto. Pouco mais de um século antes, algo muito pior aconteceu, fazendo com que a armada se transformasse numa piada internacional. Era novembro de 1918 e a Primeira Guerra Mundial se aproximava do fim. Nossos navios, que compunham a Divisão Naval em Operações de Guerra, receberam ordens do almirantado inglês, que comandava as operações, para que seguissem para o Estreito de Gibraltar. Se fazia necessária sua presença, mas um cuidado especial tinha que ser tomado no percurso. Isso porque o encouraçado de nome HMS Britannia, que havia sido designado para acompanhar a flotilha brasileira, fora afundado por um submarino alemão enquanto aguardava por ela.

Nosso país havia ingressado na guerra contra a aliança germânica em 26 de outubro de 1917. Seguiram os EUA, que haviam feito o mesmo em 06 de abril daquele ano, tendo ambos se associado aos esforços da Tríplice Entente, que era encabeçada por Rússia, França e Reino Unido e combatia desde 1914. Com a ordem anteriormente citada, o comandante do cruzador Bahia, Pedro Max Fernando de Frontin, navegou junto com outras embarcações brasileiras desde o norte de Dacar, no Senegal, para adentrar rumo à orla do Mar Mediterrâneo. Também compunham nossa Divisão Naval em Operações de Guerra (DNOG) o cruzador Rio Grande do Sul, os contratorpedeiros Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba e Santa Catarina, o cruzador-auxiliar Belmonte e o rebocador Laurindo Pitta.

Com a certeza de que não apenas aquele que havia torpedeado o Britannia, mas outros submarinos da Alemanha se escondiam sob as águas, nas proximidades do destino, a atenção deveria ser redobrada. A qualquer momento, novos ataques poderiam acontecer. Em uma das noites, vigias deram o alerta: garantiram ter avistado um periscópio na água. Foi imediata a reação, com os brasileiros abrindo fogo impiedosamente, mesmo que às cegas, contra o ponto em questão. E conseguiram, com pontaria certeira, fazer vítimas. Só que se tratava de uma família de toninhas, uma espécie de golfinho, que foi dizimada. Não se usa o termo cardume e sim família para seu coletivo, porque esse animal faz parte da ordem dos mamíferos, um dos menores existentes nos oceanos, sendo um cetáceo e não um peixe.

A guerra terminou poucos dias depois dessa que ficou conhecida como a Batalha das Toninhas, vencida por nossa brava Marinha. Parece não ter existindo sequer uma sobrevivente. Consta terem sido abatidas 46 delas – não sei como chegaram a esse número, mas é o que está nos registros consultados –, com seu sangue subindo à superfície antes de se dissolver na água salgada. Depois do ruído dos canhões, houve um silêncio constrangedor ao ser constatado o enorme erro cometido. Os animais apenas haviam rodeado os navios, inocentemente. O Bahia saiu ileso da guerra e foi destruído apenas em 1945, quando a Segunda Guerra Mundial estava se aproximando do final. Mas não foi em batalha: houve um acidente interno com a munição e o cruzador conseguiu a proeza de afundar a si mesmo.

A Marinha do Brasil segue se auto infringindo danos de difícil explicação, agora ao se associar à tentativa de intimidação protagonizada por Jair Bolsonaro. Veio passear com seus velhos blindados, que mais pareciam aquelas antigas locomotivas poluidoras que se conhecia como “Maria Fumaça”, em ato que pretendia ser uma demonstração de força do presidente – no mesmo dia estava sendo votada a Proposta de Emenda à Constituição que poderia ocasionar o retrocesso do uso do voto impresso nas eleições de 2022. Ela apenas evidenciou uma verdadeira comprovação de fraqueza. Pobre do Brasil, se precisar ser defendido por aquilo.

Em tempo: os parentes mais próximos das toninhas são os botos-cor-de-rosa, existentes no Brasil. E esses estão ameaçados de extinção. Por favor, evitem atirar contra eles.

18.08.2021

Cruzador Bahia, da Marinha do Brasil

O bônus de hoje é uma música composta por Dorival Caymmi e Jorge Amado: É Doce Morrer no Mar. Cantam Marisa Monte e Cesária Évora.