No início de maio faleceu, no Rio de Janeiro e aos 77 anos, o paraibano Genival Cassiano dos Santos. Ele foi um talentoso compositor, cantor e guitarrista, responsável por sucessos como Primavera e Eu Amo Você, ambos imortalizados na voz inconfundível de Tim Maia. Também de sua autoria, mas popularizadas em interpretações dele próprio, podem ser citadas A Lua e Eu, assim como Coleção, canções que integraram as trilhas de duas novelas da Rede Globo: O Grito e Locomotivas. Mais do que isso, ele foi um dos precursores em nosso país da black music, que surgiu influenciada em especial pelo soul dos EUA, mas também pelo funk. Ao seu lado, com papel relevante nesse movimento cultural e estilo musical, ganhou destaque outro compositor: o baiano Hyldon de Souza Silva, que ainda era baixista e produtor. A maioria dos apreciadores da música popular brasileira, mesmo entre os das gerações mais novas, ao menos conhecem Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda, canção que dava nome ao seu primeiro álbum e que atingiu sucesso instantâneo.

Cassiano começou sua carreira no grupo Os Diagonais. E seu primeiro disco solo veio após ficar conhecido pela já citada Primavera, no início dos anos 1970. Nele, além de músicas autorais, como Não Fique Triste, Uma Lágrima e Lenda, cantou duas que foram compostas por Marcos Valle e por Zil Rosendo. Hyldon, quando colocou à venda um LP – nome dado aos bolachões de vinil de antigamente, que recentemente voltaram à moda – saiu logo com As Dores do Mundo e Na Sombra de Uma Árvore. Mais tarde veio Velho Camarada, essa última feita em parceria com Tim Maia. Além de talento e gosto musical parecido, esses dois compositores que hoje homenageio tiveram em comum também o fato de enfrentarem brigas com suas gravadoras. Isso foi decisivo para que tivessem uma significativa queda de popularidade e vendas, caindo ambos quase que no ostracismo. Cassiano chegou a optar pela voluntária reclusão total, por esse fato e também pelo problema respiratório que enfrentou, tendo perdido parte dos pulmões, o que dificultava atuar como cantor. Acabou ficando distante de tudo nas últimas três décadas de sua vida.

Hyldon chegou a se interessar bastante pelo iê-iê-iê, muito devido ao seu primo Pedrinho da Luz, que era guitarrista do The Fevers. Isso fez com que fundasse a banda Os Abelhas, que animava bailes em Niterói e outras cidades, quando sua família veio morar no Rio de Janeiro. Tinha apenas 17 anos nessa época e já começava a ficar conhecido. Também vieram do Nordeste para a capital carioca os familiares de Cassiano. Se na sua terra natal ele havia conhecido Jackson do Pandeiro, que era amigo do seu pai, foi entre os cariocas que começou a tocar bandolim e violão, no tempo que tinha de folga do trabalho como pedreiro. Chegou a atuar no Bossa Trio, que tocava samba, jazz e bossa nova.

O termo black music é considerado hoje como segregativo. Não se deve mais nominar assim, até porque qualquer pessoa pode apreciar qualquer tipo de música. O gosto musical é muito mais uma questão de sensibilidade pessoal, mesmo que seja influenciado de modo inegável por aspectos culturais e intelectuais. A expressão surgiu nos EUA para identificar gêneros que brotaram influenciados por descendentes de africanos. A presença é muito forte, decisiva mesmo, no jazz, soul, blues e mais recentemente no rap. Para essa população a música servia – e ainda serve, em muitas ocasiões – como forma de expressão e protesto. Mas é muito grande o número de artistas brancos que também ganharam notoriedade ao interpretar tais canções.

O último álbum gravado por Cassiano foi lançado em 1991. Levou o nome de Cedo ou Tarde e teve participações de Ed Motta, Sandra de Sá, Djavan, Luiz Melodia e Marisa Monte. Trouxe versões de sucessos antigos e algumas canções inéditas. Hyldon foi “redescoberto” pelo cinema nacional, com filmes como Cidade de Deus e Carandiru usando suas músicas como trilha. Em 2009 lançou disco com trabalho totalmente novo, Soul Brasileiro, com participações de Carlinhos Brown, Chico Buarque, Zeca Baleiro e Roberto Frejat, entre outros. Em 2016 veio com As Coisas Simples da Vida, que a revista Rolling Stone Brasil elegeu como o 14º melhor disco do ano. E em 2020 foi a vez de SoulSambaRock, assim mesmo, com as palavras coladas, o modo como ele vê esses gêneros. Enfim, desses dois, Cassiano e Hyldon, há muito o que ouvir.

03.06.2021

Tim Maia, Cassiano e Hyldon

No bônus duplo de hoje, uma canção de cada um dos compositores homenageados, escolhidas entre seus muitos sucessos: A Lua e Eu (Cassiano) e Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda (Hyldon).

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