Lembro bem de cada segundo do que aconteceu naquela madrugada de janeiro de 1993. Entrei como um homem comum na maternidade do hospital e, meia hora depois, não era mais o mesmo. Felizmente para todos, em especial a mãe e o bebê, o parto foi natural e muito rápido. Pronto: eu agora era pai. Pude acompanhar tudo de perto, com a única advertência de que, se desmaiasse por exemplo, não seria atendido por ninguém, porque a prioridade ali não era eu. Risco zero. Eu jamais me permitiria perder a consciência justo na hora de ver uma das maravilhas da existência, que é um nascimento. Ainda mais de uma filha minha. Há anos eu esperava pela Bibiana. Sempre soube que ela viria e agora chegara o momento, me oferecido pela vida e pela Olinda.

Depois chegaram os familiares e eu, como nunca fumei, nem sequer pensei em oferecer charutos, como nos filmes. Não teria mesmo onde comprar, naquela hora. O que sei é que meu sorriso estava congelado. E que tinha um pouco de medo misturado com toda aquela alegria. Esse um tempero necessário, diante do desconhecido que estava por vir. Uma criança fragiliza a gente, justo no momento em que precisamos ser mais fortes. Mas asseguro para todos vocês: nunca mais meu coração bateu como batia antes. Mudou o compasso, a frequência, a razão de bater.

Sei que isso é bem lugar comum, que vão falar que é clichê. Mas foi quando me tornei pai que compreendi melhor o meu. Antes não dava para entendê-lo, porque a racionalidade sozinha não resolve nada, e ser pai é pura emoção. Porque não tem teoria que nos mostre de fato como é essa prática. Só se aprende sendo, nunca previamente. O seu Walter sempre tentou fazer o melhor por mim, reconheço isso agora, mesmo ele não tendo conseguido que fosse assim sempre. Acho que também tem acontecido desta forma, na minha relação com minha filha. Não é perfeita devido à nossa imperfeita humanidade, mas eu sempre me esforcei para ao menos atender às expectativas. Pelas ocasiões que não alcancei isso, peço desculpas. Se algumas vezes superei, estou no lucro.

Ser pai é ficar feliz por se tornar um abobado. E ficar chuleando por cada gesto novo, pelas palavras que vão sendo aprendidas, pelos primeiros passos. Ser pai é aprender a trocar fraldas, acordar para aquecer a mamadeira, dividir cama em noites de sonhos ruins. É ir até o hospital para uma sutura necessária, sentindo ele o corte na própria alma. E tirar centenas de fotos para mostrar para os amigos. É ensinar a andar de bicicleta, levar e buscar na escola, ficar esperando pelos cartões feitos com carinho em datas como a de hoje. Ser pai é levar para conhecer o mar, engolir em seco quando afinal dorme na casa de uma colega e é não dormir, nas primeiras viagens feitas sozinha. É negociar mesada, ir em reuniões de pais – e até de mães, quando a dela não podia -, assistir o talento teatral, levar tantas vezes ao Olímpico compartilhando paixão, comer junto alguma porcaria, fazer guerra de travesseiros, jogar bola no pátio de casa. No meu caso, foi comprar o primeiro soutien e dar uma Beagle contra a vontade da mãe. Foi ir liberando aos poucos horários para retorno mais tarde das festas. Pai compra e assiste junto todos os DVDs de série adolescente. Torce pelo sucesso no vestibular e fica feliz mesmo quando essa vitória leva a filha para longe de casa. É tempos depois se emocionar outra vez, ao subir no palco e entregar ele mesmo o diploma, em deferência por ser na mesma faculdade na qual se formou, tantos anos antes. Ser pai é conhecer o namorado da filha e ficar um pouco mais tranquilo, mesmo sabendo que ela foi educada bem o suficiente para fazer escolhas certas. É ver ela ir para mais longe ainda, por razões profissionais, e abafar a saudade usando o orgulho pelo sucesso dela.

O Dia dos Pais foi instituído no Brasil bem depois que ele estava consolidado como data comemorativa nos EUA. Por lá começou em 1910, por sugestão de uma menina chamada Sonora Louise Dodd, para tornar público seu reconhecimento ao pai John Bruce Dodd. Ele perdera a esposa no parto do sexto filho, em 1898. Sozinho, criou todos com carinho e responsabilidade, algo difícil de acontecer naquela época, quando os papéis de pai e mãe eram bem mais distintos do que atualmente. Mas para mim o segundo domingo de agosto jamais terá o mesmo peso do que o 17 de janeiro. Esse sempre será o verdadeiro dia a comemorar.

09.08.2020

A formatura da Bibiana também foi num dia 9 de agosto, exatos seis anos atrás.

Bônus duplo hoje, com duas músicas que falam da relação entre pais e filhos. O primeiro é Meu Pai Chorou, de Celso Viáfora, faixa do CD “Batuque de Tudo”, lançado em abril de 2010.

O segundo é Muito Orgulho, Meu Pai, música de Gabriel o Pensador, clip gravado em agosto de 2013, no Rio de Janeiro.

8 Comentários

  1. Solon! Emocionada com o teu texto. Li e reli a história de um pai que oxalá fosse a história de todos os pais. Uma história de realização, parceria e amor grandioso. Tua escrita é expressão de tua alma. Que lindo é vê-la liberta para se revelar nas mais diversas formas de expressão. Parabéns pelo dia dos pais. Um abraço

  2. Sensibilidade expressa em palavras que nos tocam o coração. Parabéns por este dia é pelo texto tão bem escrito.

  3. Cheguei hoje aqui para duplo parabéns: por seres pai e por seres esse pai da crônica (que quem te conhece sabe que ainda és muito mais).
    Todos os momentos vividos estão vívidos pelo lado mais humano, junto da pequena ou depois, longe da menina diplomada por seu pai.

    Ele que ficava na vigília das noites ou que com ela vibrava nas arquibancadas é hoje o mesmo pai a postos no umbral, na torcida sempre.
    Que lindo, Solon, tua sinceridade e transparência de pai de mãos dadas com a clareza dos teus textos, escritor!

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