Sem grandes eventos esportivos acontecendo, em lugar nenhum do planeta, as emissoras especializadas estão tendo que se virar, para preenchimento das grades de programação. Nos canais que assino foram criadas faixas especiais, nas quais se assiste jogos de antigamente. É possível até mesmo votar para decidir, de modo interativo, que jogo se assistirá no dia seguinte entre os que estão previamente ofertados. O que tem deliciado muitas torcidas, que conseguem rever goleadas históricas aplicadas nos principais rivais e a conquista de títulos importantes. Em outros horários estão reprisando todos os jogos da Seleção Brasileira, em cada uma das Copas do Mundo em que houve transmissão regular. E esses têm sido os meus prediletos.

As Copas que mais me interessavam rever eram as de 1970, disputada no México; e de 1982, que foi jogada na Espanha. Na primeira eu era um menino que nem tinha televisão em casa, mas me reunia com colegas do colégio – o Henrique Emílio Meyer, em Caxias do Sul – para torcermos juntos. O local predileto era o apartamento dos irmãos Luiz Francisco e José Luiz, que ficava bem na praça central da cidade, onde depois se comemoravam as vitórias. Na segunda eu já estava na universidade e me incluí na legião dos que sofreram com o que foi considerada uma imensa injustiça – perder jogo por 3×2 para a Itália, quando bastava um empate para chegarmos às semifinais. No dia seguinte o saudoso Jornal da Tarde, de São Paulo, publicou uma capa sem manchete, verdadeira raridade no jornalismo. Toda ela era ocupada pela foto de um menino, com a camiseta da CBF e chorando.

Consegui o que queria. E revi também os jogos de 1994, disputados nos Estados Unidos, quando o Brasil chegou ao tetra com incríveis goleadas por 1×0 e uma decisão nos pênaltis. Aquele futebol pragmático e medíocre proposto pelo Zagallo ao Parreira, numa equipe que se notabilizou pela virilidade de Dunga e foi salva pelo oportunismo de Bebeto e a técnica de Romário. Essa seleção era a antítese das duas anteriormente citadas, mas acabou vitoriosa como apenas uma das outras foi. Coisas do futebol, onde nem sempre o melhor vence, ao contrário do basquete por exemplo. Nesse a zebra é uma raridade e também não existe placar em branco.

Chato nisso tudo são as locuções feitas agora, sobre as imagens originais. Ficam narradores e comentaristas sendo os críticos da obra pronta, tudo certinho e no lugar, tendo inclusive em alguns momentos que fingir certa surpresa, em especial na hora dos gols. Entretanto, rever tudo com o distanciamento da emoção original, para os torcedores, se por um lado elimina a tensão pela expectativa da vitória desejada mas incerta, permite uma visão mais racional sobre como o jogo foi jogado. O que pode desmentir certas memórias e derrubar alguns mitos. Minha filha Bibiana, companheira fiel na frequência de estádios e na frente da TV, me advertiu certa vez que não se pode comparar jogos de épocas diferentes. Fez isso com certeza diante de algum arrombo saudosista meu. E agora tive a prova de que ela estava certa.

A seleção de 1970, forjada por João Saldanha, era exuberante. Não cabe adjetivo menor a um time com tantos jogadores de alta técnica reunidos. Pelé, Tostão, Gerson, Rivelino e Jairzinho são lendas. O sistema defensivo já não tinha tanta qualidade, tanto isso é verdade que nos seis jogos disputados, com seis vitórias, apenas uma vez o time não sofreu gol. Justo no 1×0 contra a Inglaterra, que ostentava na ocasião o título anterior, de 1966, o único que venceu na história. O grupo criava oportunidades em profusão, perdendo sempre várias chances de gol na partida. Se todas tivessem entrado, teriam acontecido goleadas homéricas, mas as maiores foram dois 4×1, na abertura e no encerramento da competição. Por outro lado, o jogo era mais lento do que o praticado atualmente. Eles sofreriam um pouco se enfrentassem uma partida estilo Premier League de hoje em dia, a velocidade de um Liverpool, a correria de todos os demais. Me chamou atenção, entretanto, que o jogo não parava: não havia necessidade de acréscimos e o tempo jogado era muito superior ao que se vê no Brasileirão de hoje em dia. E que nenhum jogador fingia lesão. Paulo César Caju levou uma pancada violentíssima em contra-ataque frente à Romênia: caiu, levantou com cara de dor e a falta foi cobrada. Neymar estaria rolando no chão até hoje, 50 anos depois.

A seleção de 1982, de Telê Santana, talvez tenha sido mesmo a que maior número de jogadores inquestionáveis reuniu, depois daquela de 1970. Por isso eu queria tanto rever a ambas. Júnior, Cerezo, Falcão, Sócrates, Zico, Paulo Isidoro e Éder jogavam muito. Mas revendo as partidas agora não se pode, ao contrário do que havia ficado registrado na minha memória, considerar uma surpresa inacreditável sua eliminação frente à Itália. Nossos adversários vinham de uma primeira fase horrorosa, com três empates em três partidas – Polônia, Peru e Camarões -, obtendo a vaga apenas pelo número de gols marcados. Nós vínhamos de três vitórias, com saldo oito. Mas tínhamos sido auxiliados pela arbitragem, contra a União Soviética, e fragilidades às quais não se prestou a devida atenção: só não tomamos gol da fraca Nova Zelândia. O time era técnico como eu lembrava, mas não era compacto nem tão organizado. A fase seguinte foi um triangular com argentinos e italianos, na luta por vaga única. A Argentina perdeu para a Itália por 2×1 e para o Brasil por 3×1 – com Maradona expulso. Estava fora e nós não precisávamos nem vencer o último jogo. Conseguimos perder, por incompetência. Ou no mínimo por soberba, por duvidar da força de um adversário com camisa tão respeitável quanto a nossa.

De qualquer forma, esse período de quarentena serviu para se matar a saudade de um tempo em que as cores verde e amarela eram de todos os brasileiros. Antes delas terem sido indevidamente apropriadas por um grupo, como se apenas a torcida de um dos tantos times do país tivesse o direito de usar a camiseta do escrete nacional. E serviu também para que sinta uma vontade ainda maior de ver outra vez a bola rolar ao vivo. Em arenas, pela TV e nos nossos corações.

22.04.2020

4 Comentários

  1. Parabéns meu amigo…o texto está cativante e envolvente…são muitas das lembranças que nós, torcedores mais”antigos” carregamos sen saber expressar de forma tão simples e brilhante. Se não te importares vou compartilhar com os meus filhos e amigos…vai gerar um bom debate nesses tempos minguados sem futebol. Grande abraço colorado!

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