A primeira série de TV que assisti completa, todos os episódios (218 no total) de todas as temporadas, foi Arquivo X. Primeiro foram nove anos em sequência, com a estreia ocorrendo em setembro de 1993 e o término sendo em maio de 2002. Neste mesmo período foi feito um filme Fight the Future, no título original não reproduzido no Brasil, em 1998, que revi ontem matando a saudade do suspense e até da marcante trilha sonora, sucesso de vendas. Para alegria dos fãs incondicionais, como eu sou, ocorreram duas voltas pontuais: curtas temporadas, com menos episódios, em 2016 e 2018. Antes também havia sido feito um segundo filme, em 2008 (Eu Quero Acreditar).

O criador e roteirista da série era Chris Carter, que antes dela passara anos dirigindo comédias, mas foi aposta certeira da direção da Fox. Ele trouxe a ideia de realizar uma produção sombria, juntando presença de alienígenas, conspiração governamental, eventos sobrenaturais e muito suspense. Conduzindo isso tudo estaria um agente do FBI – Fox Mulder, vivido pelo ator David Duchovny – tido como esquisito pelos seus próprios companheiros de trabalho, que chegavam a duvidar de sua sanidade mental. Ele fora posto numa sala isolada, no subsolo da sede do departamento. Mas alguns resultados das suas investigações levaram seus superiores a lotar como sua parceira a agente Dana Scully (Gillian Anderson), que era ainda médica e cientista. No início, apenas para investigar o investigador. A junção desta dupla improvável, um crente incondicional que busca apenas comprovar as coisas nas quais sempre acreditou e uma cética absoluta, forma o molho especial que dá sabor à série. Dois convictos que sempre olham para as cenas com olhares opostos, mas que vão conquistando o respeito e a admiração um do outro. Este relacionamento se torna íntimo, no final da série.

A busca de Mulder tem como pano de fundo um episódio traumático que ocorreu na sua infância. Quando ele tinha 12 anos de idade e sua irmã Samantha estava com oito, ela foi raptada e nunca mais apareceu. Os dois estavam sozinhos em casa e ele se culpava por ter ficado paralisado e não ter conseguido impedir a ação. Formado em psicologia em Oxford, antes de ingressar no FBI ele se submeteu a uma regressão, tentando lembrar o que realmente acontecera. O que acabou causando situação pior do que o sentimento de culpa, uma vez que ele viu ter ela sido na verdade abduzida por seres extraterrestres, que lhe apagaram a memória. Assim, o especialista em traçar perfis de criminosos parte para outra espécie de busca, essa muito mais difícil e de sucesso improvável. E outros dramas se sucedem na sua trajetória. Seu pai, que trabalhara no Departamento de Defesa, é assassinado por tentar lhe passar informações confidenciais, sendo o assassino protegido por membros do governo, envolvidos nas conspirações que o agente investigava.

Scully surpreendeu, no início da série, por ser uma mulher com cérebro. Isso porque a que mais fazia sucesso na época era Pamela Anderson, com SOS Malibu, não tanto pela sua interpretação mas porque possuía peitos grandes e cérebro pequeno. Um lamentável estereótipo que quase foi buscado também para Arquivo X. Nos testes para o papel Gillian Anderson apareceu com “um terno mal ajustado, sapatos baratos e cabelo sem vida”, como contou mais tarde um dos responsáveis pelo elenco. E ainda teve que mentir estar com 27 anos, quando na realidade tinha 24. Só que ficou evidente a química que rolou com David, que já havia sido escolhido, ficando com ela a responsabilidade de viver a agente cética. A personagem era uma mulher empoderada, racional, muito corajosa e autônoma, inspirando uma geração de garotas que a acompanharam a cada episódio. Pesquisas comprovaram um aumento significativo no número de mulheres buscando áreas da ciência, tecnologia, engenharia e medicina – sigla STEM em inglês – nos Estados Unidos, em função do que foi chamado “Efeito Scully”.

Arquivo X foi a série televisiva de ficção científica de maior audiência nos anos 1990. Venceu três vezes o Golden Globe Award for Best Television Series, na categoria Drama: 1994, 1996 e 1997, sendo ainda indicada em 1998, quando a vitoriosa foi The Practice. Algumas das frases usadas pelo protagonista ou escritas em posters afixados na sua sala de trabalho viraram mantras para uma legião de fãs, estamparam camisetas e estiveram em portas e paredes mundo afora. I Want to Believe (Eu quero acreditar), Trust No One (Não confie em ninguém), assim como a que dá título a esse texto. Se a verdade está mesmo lá fora, por favor mandem entrar. Aqui dentro está insuportável o clima recente, também de conspiração, desde que as fake news fizeram morada. A sensação que se tem é que os alienígenas já estão infiltrados entre nós, exercendo um poder que jamais poderiam ter alcançado. E a gente sem Mulder e Scully para resolver tudo por nós.

20.04.2020

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