AS OBSTRUÇÕES DE BOLSONARO

O verbo obstruir parece, desde sempre, acompanhar Jair Bolsonaro. Seja o próprio ou algum dos seus vários sinônimos, basta se prestar um pouco de atenção e se constata a presença do verbo. Ou dos verbos. O presidente se tornou vitorioso em 2018 apenas porque as ações de Sergio Moro foram decisivas para barrar o caminho de Lula, que rumava certo para seu terceiro mandato ainda quatro anos atrás. Durante a campanha, usou um papel toalha de fato milagroso para tamponar o corte do suposto atentado que sofreu em Juiz de Fora, Minas Gerais. A folha era tão poderosa que absorveu todo o sangue sem sequer deixar aparecer seu tom avermelhado. Talvez para não chocar nem o público presente, nem os pobres seguranças que foram incapazes de impedir a ação vil.

Depois da posse, em inúmeras vezes ele tratou de obstaculizar a ação da Polícia Federal e da Justiça, especialmente quando se aproximavam de um dos seus filhos ou dos vários “afilhados”, tipo Fabrício Queiroz, o administrador das rachadinhas. No dia-a-dia foi eficiente em inibir o trabalho de fiscais, como os que precisavam atuar em desmatamentos e garimpos ilegais. Ainda fez de tudo para atravancar pesquisas científicas e para bloquear os recursos públicos que deveriam ser destinados para universidades federais, por exemplo. Ele tratou ainda de dificultar a compra de vacinas contra a Covid 19, fator que foi decisivo para frustrar o combate à pandemia.

Bolsonaro foi mestre em cortar muitos dos investimentos em programas sociais. Foi decisão dele também fechar boa parte das Farmácias Populares, que ofertavam remédios por preço menor e distribuíam muitos medicamentos de graça. Era seu hábito diário interditar o trabalho de profissionais de imprensa ou, no mínimo, interdizer interlocutores que ousavam tocar em temas que não eram do seu agrado. Não raras vezes tratava de interromper entrevistas, com saídas abruptas ou optando por respostas coléricas. Fazia parte da sua estratégia, desde sempre, com a repetição sistemática de discursos, obstar o uso de urnas eletrônicas no processo eleitoral, com descabidas suspeitas de risco de fraudes.

Ele gosta tanto dessa possibilidade, de empecer ou desaviar, que até seu próprio intestino tem repetidas vezes seguido o mesmo padrão. Uma obstrução intestinal, obviamente, é um fechamento mecânico que impede a passagem das fezes, sendo causada por patologias como aderências, hérnias e tumores. Com ela surge dor em cólica, interrupção inclusive da eliminação de gases e até vômitos. Nesses casos, ao contrário dos outros que relatei nos parágrafos anteriores, ele termina aceitando ações externas que possam resolver o problema, até por não aguentar os sintomas. E existem várias formas de enfrentamento da questão. Não sei qual foi ou quais foram adotadas, nas ocasiões nas quais ele esteve hospitalizado para que fosse resolvido. Talvez um “roto rooter”. Seja qual tenha sido o processo, parece ter dado certo, pelos seus posteriores e rotineiros pronunciamentos, que continuaram com o mesmo teor.

Quanto ao nosso país, esse ainda vai estar internado até o último dia desse ano. Mas o paciente acordou do estado de coma e já está com sua alta marcada. Depois que ela se confirmar, Bolsonaro não poderá mais estorvar ninguém. Pelo menos não com a força com a qual fez isso, por quase quatro anos. Vai é estar nos dando uma imensa alegria, ao nos privar da sua presença constante. Até lá, precisamos manter a calma e encontrar um modo de deter seus seguidores alucinados, que seguem tentando impedir que o país volte à normalidade democrática. Depois, se a Justiça achar assim necessário, ao examinar o contingente robusto de provas já existentes, que se possa impossibilitar sua volta futura ao poder. Para tanto basta que decidam vedar seus direitos políticos. O que seria uma ótima iniciativa, até para que se tenha certeza de que ele não retorne, para embargar o nosso desenvolvimento político e social.

Enquanto isso, fico aqui brincando um pouco com o uso de sinônimos. Até porque agora o Brasil tem tudo para voltar a ser sinônimo de paz, de convívio civilizado. Que se possa, para aprimorar isso, agora enfrentar um segundo e persistente problema: a gritante desigualdade social.

12.11.2022

O bônus musical de hoje é Sinônimos, com Zé Ramalho.

UMA CARTA HISTÓRICA

Hoje está sendo um dia muito especial para a história política do Brasil. Isso porque ocorreu a leitura pública da Carta às Brasileiras e aos Brasileiros em Defesa do Estado Democrático de Direito, documento que foi elaborado por iniciativa de um grupo de ex-alunos da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, sendo depois por ela encampado. Eles decidiram repetir o ato ocorrido 45 anos atrás, quando em plena ditadura o professor Goffredo da Silva Telles Júnior escreveu uma semelhante, com ela denunciando a ilegitimidade do governo militar e contestando o estado de exceção que então se vivia. Convém salientar que a decisão de agora não se trata apenas de uma alusão àquela, como também existe uma similaridade relativa entre os dois momentos.

A carta original foi um ato de extrema coragem, porque não era nada fácil externar opinião naquela época. O grupo liderado por Goffredo teve que superar inclusive a proibição do diretor da faculdade e o fato de mais da metade dos professores não terem participado. Isso sem contar com o maior dos obstáculos, que era a existência de repressão violenta pelas forças policiais. Era usual a prisão de opositores, sua tortura e mesmo o sumário desaparecimento.

O objetivo da atual é reafirmar valores estabelecidos pela Constituição Cidadã de 1988. Ou seja, defende a igualdade de oportunidades, o respeito à diversidade, à democracia racial e a à liberdade religiosa, entre outros tantos valores. E, acima de tudo, prega a necessidade imperiosa de ser garantido o direito do povo brasileiro, através do voto, escolher seus representantes em eleições livres. Se a primeira desejava o fim da ditadura, a de agora quer evitar que se tenha uma nova ditadura; aquela queria o fim do golpe, a de agora se antecipa e deseja evitar mais um golpe.

Em 1977 o documento tinha um significado de protesto e recebeu pouco mais de 200 assinaturas. A carta de 2022 já havia superado, no início do dia de hoje, 900 mil assinaturas – todas elas únicas e auditáveis, para usar um termo tão ao gosto de Jair Bolsonaro –, incluindo as de oito candidatos à presidência da República: Lula, Ciro Gomes, Simone Tebet, Felipe D’Ávila, Soraya Thronicke, Sofia Manzano, Leonardo Péricles e Eymael. Nela estão ainda empresários e trabalhadores, profissionais liberais de todas as categorias, intelectuais, religiosos, artistas, políticos, professores e esportistas. Um vídeo com atores e atrizes, cantoras e cantores foi divulgado ontem, com todos eles fazendo a leitura da carta, como se fosse um jogral.

A leitura presencial, marcada de modo simbólico para o mesmo Largo São Francisco, teve mais de 200 veículos de comunicação de todo o mundo fazendo a cobertura. Mas não aconteceu apenas lá, uma vez que dezenas de outras universidades em todo o país decidiram repetir o que acontecia na cidade de São Paulo, repercutindo o fato. Com o mote de “Estado Democrático de Direito Sempre!”, esses atos convergentes todos realçaram que o autoritarismo está diante de fronteiras, que a imensa maioria dos brasileiros não permitirá que sejam ultrapassadas. Que existe confiabilidade do sistema eleitoral, com suas urnas eletrônicas. E que o foco do debate público está de vez substituído: se nos últimos anos as manifestações acuavam a democracia, a de agora, muito mais representativa e numerosa, vem em sua defesa intransigente.

A Carta encurralou o governo, tanto que sua reação foi ao mesmo tempo intempestiva e desarticulada. Bolsonaro repetiu sua retórica pobre e chamou o documento de “cartinha”, assim como chamara a Covid-19 de “gripezinha”. Cães de guarda virtuais mostraram seus dentes e saíram, sem sucesso, tentando lançar assinaturas falsas no documento, com nomes de pessoas inexistentes e de figuras históricas falecidas. Napoleão Bonaparte tentou isso, inutilmente. O sistema que colhia adesões exigia que as pessoas se identificassem e conferia tudo. Então, essa tentativa de desacreditar o esforço, não deu certo. Um desconhecido Movimento de Advogados de Direita, o MAD – piada pronta: em inglês a sigla forma palavra que identifica louco ou louca – surgiu do nada e se propôs a lançar uma outra carta, paralela. Ninguém levou a sério.

O desespero exigiu reuniões extraordinárias no Gabinete do Ódio. Isso porque o mais sentido foi o fato de antigos apoiadores terem comparecido na lista que crescia sem parar, esquecendo os pruridos que sempre afastam os ricos dos mais pobres, aquela carinha de nojo. De sua sala no Palácio do Planalto viram membros da elite financeira nacional somando-se ao esforço da sociedade civil organizada. Diretores do Itaú, por exemplo, assinaram a carta; assim como o dono da Natura. Gente desconhecida e gente famosa dividindo espaço e momento histórico. As televisões dando cobertura, tanto as abertas quanto as por assinatura. E o assunto sendo o mais comentado em todas as redes sociais. Acreditem: se tem algo que Bolsonaro não suporta é deixar de pautar os debates, o que vem fazendo com maestria. Hoje ele ficou de fora. O que se espera é que em outubro também fique. O Brasil precisa disso. Nós merecemos essa graça.

11.08.2022

Grupo de estudantes se dirigindo para a Faculdade de Direito da UFRGS, em Porto Alegre, onde a Carta também foi lida

No bônus de hoje, uma lembrança musical da época da ditadura militar e que cabe em algumas tristezas mais recentes e atuais. Como Nossos Pais, do excelente Belchior, na voz de Elis Regina.