A RAZÃO DE AS MOSCAS ESCAPAREM

Meu irmão tinha uma habilidade extrema para aprisionar moscas com as mãos. Ele se aproximava muito cuidadosamente de alguma descuidada, que estava pousada sobre a toalha da mesa, por exemplo. Então se mantinha imóvel por um tempo e daí disparava o movimento com muita rapidez. A gente ficava olhando e nem percebia se ela estava ou não na mão dele. Abrindo dedo por dedo ele chegava no último e nos mostrava o inseto preso, ainda vivo. Ele não as esmagava, apenas detinha antes que voassem para longe.

Não é todo mundo que consegue fazer isso. Aliás, a imensa maioria das pessoas não consegue nem chegar perto, porque as moscas parecem ser sempre mais velozes, na hora de empreender a fuga. Mas, o quanto elas seriam de fato rápidas? Fui pesquisar e descobri que não é muito não: seu deslocamento se dá no máximo a 8km/hora. Então, fica difícil entender porque em geral não se consegue apanhá-las antes que se afastem. Afinal de contas, somos muito mais inteligentes, sabemos como estabelecer estratégias – como aquela do meu irmão – e essa velocidade pode muito bem ser alcançada e superada também por um movimento nosso, uma vez que é para apenas alguns centímetros e não para longas distâncias.

A verdadeira razão dela se esquivar, com movimentos muito perfeitos e apropriados para a sua sobrevivência, pode ser bem outra. Estudos sérios demonstram que, para as moscas, o tempo pode passar de forma diferente. Vamos tentar explicar: quando a gente movimenta bem rápido o mouse do nosso computador, por exemplo, se vê na tela do monitor uma série de imagens do cursor e não apenas uma imagem, realizando movimento contínuo. Cada imagem que surge desaparece apenas após outras terem surgido. O mesmo pode ser visto se a gente abana nossa mão rapidamente na frente dos olhos. Parece que não temos mais cinco dedos apenas, mas alguns outros extras. Pode deixar de ler um instante e fazer a experiência. Eu espero.

Isso que acontece nas telas ou na simples observação dos nossos dedos sendo movidos se deve ao fato de que aquilo que a gente enxerga de fato é uma sequência de imagens estáticas, nunca um movimento. Os nossos cérebros estão programados para registrar todas essas imagens sequenciais e estabelecer uma relação entre elas. Este mesmo princípio fica claramente evidenciado com o cinema e com vídeos. Não existe o contínuo, mas apenas sua sensação, com a repetição de vários quadros estáticos. O ritmo das imagens que são expostas é de 24 frames por segundo, sendo o mesmo desde que foi inventado o som sincronizado, em 1927.

Voltando às moscas, enquanto a espécie humana tem comprovado que sua capacidade de captação de imagens por segundo fica em 60, esses insetos conseguem chegar a 250. Assim, eles enxergam quatro vezes mais do que nós humanos, além de terem olhos maiores e mais móveis. E essa capacidade de enxergar mais movimentos estáticos equivale a dizer que o tempo para elas sofre uma distorção e se torna bem mais lento, passa mais devagar. Elas conseguem com isso antecipar nossos movimentos, porque percebem esses frames antes e reagem a eles com muito maior eficiência. Porque para as moscas é como se nós, humanos, nos movêssemos em câmera lenta. E fica barbada fugir.

Pegando agora tartarugas para fortalecer essa tese e sua explicação, elas conseguem ver apenas 15 imagens por segundo. Assim como as moscas têm capacidade quatro vezes maior do que a nossa, nós temos capacidade quatro vezes maior do que as tartarugas. E vejam como seria fácil escaparmos de um suposto movimento delas em nossa direção. As limitações desse réptil – sim, as tartarugas são répteis, assim como as serpentes, lagartos e crocodilos – não se limitam a questões musculares, de peso ou de forma. Elas enxergam tudo muito lento, o que também implica na lentidão dos seus movimentos.

O sistema nervoso das moscas é compacto, o que permite reagir facilmente a quaisquer estímulos externos. Como o de nossas mãos se movendo na direção delas. Se meu irmão ainda estivesse aqui entre nós, seria de se avaliar a possibilidade de ter alguma capacidade visual fora do normal. E olha que ele usava óculos desde menino.

26.07.2022

O bônus de hoje é a música Mosca na Sopa, de Raul Seixas.

DICA DE LEITURA

O SENHOR DAS MOSCAS

William Golding – 216 páginas – R$ 31,90

Um romance indispensável de William Golding, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura, sobre a natureza do mal e a tênue linha que separa a civilidade da barbárie. Considerado um dos 100 melhores romances do Século XX pela Modern Library.

Senhor das Moscas é um dos romances essenciais da literatura mundial. Adaptado duas vezes para o cinema e traduzido para 35 idiomas, o clássico de William Golding já foi visto como uma alegoria, uma parábola, um tratado político e até mesmo uma visão do apocalipse.

Durante a Segunda Guerra Mundial, um avião cai numa ilha deserta e os únicos sobreviventes são um grupo de meninos. Liderados por Ralph, eles procuram se organizar enquanto esperam um possível resgate. Mas aos poucos esses garotos aparentemente inocentes transformam a ilha numa visceral disputa pelo poder, e sua selvageria rasga a fina superfície da civilidade.

Ao narrar essa história sobre meninos perdidos numa ilha, aos poucos se deixando levar pela barbárie, Golding constrói uma reflexão sobre o limite entre o poder e a violência desmedida. Senhor das Moscas mantém o mesmo impacto desde seu lançamento: um clássico moderno que retrata de maneira inigualável as áreas de sombra e escuridão da essência do ser humano.

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A FORÇA QUE PODE TER O CANTO

Duvido que você nunca tenha ouvido o ditado popular “quem canta seus males espanta”. O que talvez não tenha acontecido é ter recebido a informação de que isso é muito mais do que uma frase feita: se trata da mais pura realidade, com a ciência estando aí para comprovar. Estudos acadêmicos asseguram que a música e o cantar são capazes de auxiliar na liberação da dopamina, um tipo de neurotransmissor que, atuando em nosso sistema nervoso, estimula prazer e bom humor. Ocorre ainda a liberação de outro hormônio, que é a endorfina, essa uma espécie de calmante natural. Outra peculiaridade que assombra um pouco: quando se canta em grupo há o incentivo da produção de oxitocina, que seria o “hormônio da socialização”. Tudo isso contribuindo para a redução da ansiedade e do estresse.

Quem apenas ouve música também tem benefícios inquestionáveis, mesmo que menores do que aqueles que seriam alcançados com a sua participação ativa. Pensando nisso, uma caixa de música pode ser muito melhor do que uma caixa de remédio. Termina inclusive sendo muito mais barata, porque se compra apenas uma vez e ela, sendo bem cuidada, não tem prazo de validade. Então, uma maneira bem interessante de ficarmos de bem com a vida é ouvirmos nossa playlist preferida, arriscando acompanhar, por mais desafinado que a gente seja. Se a vergonha for grande, o negócio é cantar em momentos só nossos, distante dos outros. Há quem faça isso no chuveiro, por exemplo.

E os benefícios não são alcançados apenas por humanos. Sabe-se que muitos criadores de animais passaram a mantê-los com som tocando nas proximidades. Há quem assegure que vacas leiteiras aumentaram sua produção, devido à introdução de música clássica nos estábulos, junto aos cuidados habituais. Dias atrás, na Feira Ecológica do Bom Fim, aqui em Porto Alegre, um dos feirantes me vendeu belos tomates e contou que nas estufas ele e sua família mantêm música suave o tempo todo. Segundo ele, a fruta fica muito mais saudável e até mesmo o risco da presença de pragas diminui. Foi além e assegurou que algumas músicas têm efeito melhor do que outros, caindo mais no agrado da plantação.

O som, como tudo no universo, no fundo é apenas energia e vibração. Precisamos entender que nossa realidade não se limita apenas ao que chamamos de mundo físico. Mesmo que assim fosse, a própria matéria nada mais é do que energia densa. Então, tudo pode de fato interferir em tudo. Nossos corpos, por exemplo, nossa estrutura física, resultam de um número absurdo de pequenas partículas. E essas também são pura energia. O que muda mesmo é a frequência e a faixa vibratória de cada objeto, de cada ser. Isso vale inclusive para os nossos pensamentos e para o que emanamos com nossas emoções.

Essas afirmações não são religiosas nem filosóficas. São científicas. Então, não é absurdo considerar que o leite que bebo, o tomate que consumo, podem representar para mim alimento diferente, conforme tenham sido produzidos. Budistas que conheci elaboravam o “Suco de Luz”, feito com brotos de plantas que passam por um processo de interferência vibracional. Provei a asseguro que saciam de um modo surpreendente, como se nutrissem corpo e espírito simultaneamente. Do mesmo modo que a música pode fazer. Estou em dívida apenas com o cantar: temo espantar os vizinhos, com a tentativa de espantar os meus males.

02.06.2022

Cantar faz bem para o corpo e a alma

O bônus de hoje tem primeiro Enquanto Engoma a Calça, com Ednardo. A música é de autoria dele, em parceria com Climério Filho. Depois temos o poema Desiderata, que foi escrito pelo filósofo, poeta e advogado norte-americano Max Ehrmann, na voz do ator Sílvio Matos. A palavra desiderata vem do latim e significa “coisas que são desejadas”. E o poema foi publicado postumamente, pela esposa do autor.