PÁSSAROS SAGRADOS

Desde os primórdios da humanidade, os pássaros desempenham um papel importante. Talvez a primeira das conexões tenha sido estabelecida pela simples inveja da sua capacidade de voar, da liberdade aparente, de ver tudo do alto como que pairando sobre as demais existências. Depois disso foram integrando lendas, fábulas e mitos nos mais diversos lugares de todo o mundo. Alguns aparecem estampados em bandeiras nacionais; outros são símbolos de povos e integram sua mitologia própria; havendo ainda os sagrados. Vejamos alguns deles.

No Chile temos o Alcanto, que é tão estranho e misterioso quanto o lugar que habita: o Deserto de Atacama. Ele também pode ser encontrado em outras partes, não apenas daquele país como em outros vizinhos seus aqui na América do Sul. Mas é lá onde mais se concentra e onde surgiram as histórias que o diferenciam de qualquer outro. Dizem que ele se alimenta de alguns minerais que existem em abundância nas proximidades, o que lhe daria a característica de brilhar à noite, em especial suas asas. O brilho e a cor dependeriam do alimento consumido: dourado, sendo ouro o “prato” principal; prateado, quando prata; ou avermelhado, na hipótese de cobre. Outro detalhe é que ele não teria sombra. E também ficaria mais tempo no solo do que voando, devido à dieta pesada. Seus ovos seriam também de metal.

Segundo o folclore, os garimpeiros tentavam seguir o pássaro, durante as noites, com a esperança de serem levados a algum veio ainda não conhecido ou a algum tesouro lendário. Mas o Alcanto percebia essa situação e então “apagava” suas luzes, deixando os seguidores na mais completa escuridão. Ou, ainda pior: se percebesse que era alguém mau caráter que estava tentando fazer isso, o guiava para algum penhasco e a consequente morte. Quem teria tido sucesso nessa empreitada foi um mineiro chamado Juan Godoy. Uma lenda local assegura que foi graças a ele e a um pássaro que foi desencadeada, em maio de 1832, a Corrida da Prata do Chile, que enriqueceu muita gente.

Na Europa há o Pássaro de Fogo, que povoa contos populares tanto russos quanto eslavos. Por lá ele é tido como mágico e desejado, mas tendo uma dupla reputação, podendo ser presságio de desgraça ou de bênção para quem consegue encontrar uma das suas penas. O nome viria de sua plumagem, que mistura as cores laranja e vermelha com um amarelo brilhante, dando ao conjunto uma aparência de chama. A pena essa, que é cobiçada, brilharia mesmo quando separada do corpo da ave, conseguindo emitir luz suficiente para iluminar uma grande sala. E, mesmo não sendo nem cruel nem agressivo, o Pássaro de Fogo leva consigo uma associação ao perigo.

Na mitologia, isso é associado ao herói que encontra a primeira dessas penas soltas e perdidas. Depois disso, mesmo satisfeito por tê-la encontrado, ele começa a associar sua presença com uma série de dissabores que passa a enfrentar. Mesmo assim, ao final de suas aventuras, casa com uma bela princesa e se torna o governante do lugar, a partir da morte do rei. Disso tudo se conclui que se trata de uma forma de estabelecer uma espécie de ritual de passagem. Os problemas que a pena não evitou seriam a forma de serem atingidas a sabedoria e a maturidade necessárias para tornar seu dono forte e capaz. Inclusive para poder governar um povo.

Entre os árabes existe a Anga, uma ave fêmea muito grande e misteriosa. Dizem que ela voa grandes distâncias e retorna ao seu lugar de origem apenas uma única vez, em muitas eras, sendo vista no momento do sol poente. Seu nome para muitos é Mughrib, que significa estranho ou estrangeiro. No livro As Maravilhas de Criação, Zakariva al-Qazwini a descreve como um ser lindíssimo, que ostenta quatro asas e um longo pescoço branco. Na mitologia local ela tem pequenas semelhanças com toda e qualquer criatura viva, sendo uma espécie de síntese da existência. Seriam também sábios disfarçados para ganhar experiência e sabedoria, vivendo cerca de 1.700 anos nessa situação. As Angas acasalariam com 500 anos, produzindo um único ovo. Após eclodir, o filhote permanece no ninho por 125 anos antes de partir. Imenso, sua dieta consistiria em quantidades significativas de peixes e até mesmo elefantes pequenos. Talvez por isso vivessem tanto: para ter tempo de digerir essas suas últimas presas.

Ainda existem o Boobrie, que é escocês e muda de forma; o Basan, da mitologia japonesa; o Benu, precursor da criação, segundo os egípcios; o Garuda, que tinha feições humanas e pertencia ao deus Vishnu, na cultura hindu; o Stringe, criatura da mitologia grega depois adaptada para a romana, que era um de dois irmãos que foram transformados depois de cometerem um crime hediondo, matando e devorando uma pessoa; o Hoopoe, um dos mais sinistros entre todos, sendo uma ave sobrenatural que tinha tanto poderes de cura quanto era associada à morte, por habitar cemitérios, tendo a estranha capacidade de prever acontecimentos – essa é muito semelhante ao corvo e existe em crenças que se espalham por muitos países diferentes. Enfim, é bom parar por aqui, mesmo existindo outros pássaros que poderiam ser ainda listados. É que a minha imaginação já está voando alto demais e temo pelas consequências.

19.05.2022

O estranho e misterioso Alcalante habitaria as proximidades do Deserto de Atacama, no Chile

O bônus de hoje é Pavão Mysteriozo, de Ednardo, nome artístico do cantor e compositor cearense José Ednardo Soares Costa Sousa. A música teve uma enorme repercussão no Brasil, por ter sido utilizada na trilha sonora da telenovela Saramandaia (1976), da Rede Globo. Era o tema do personagem João Gibão. Depois disso ela teve cerca de 20 regravações, feitas por diversos artistas. 

RECOMENDAÇÃO DE LEITURA

O PESO DO PÁSSARO MORTO, de Aline Bei

(168 páginas – R$ 34,77)

A vida de uma mulher, dos 8 aos 52, desde as singelezas cotidianas até as tragédias que persistem, uma geração após a outra. Um livro denso e leve, violento e poético. É assim O Peso do Pássaro Morto, romance de estreia de Aline Bei, onde acompanhamos uma mulher que, com todas as forças, tenta não coincidir apenas com a dor de que é feita.

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MAMÃE FALEI BESTEIRA

O nome verdadeiro do idiota conhecido como “Mamãe Falei” é Arthur Moledo do Val, um paulistano de 35 anos que se diz empresário e que é youtuber. Ele ficou mais conhecido ao integrar o Movimento Brasil Livre (MBL), que foi relevante nas orquestradas manifestações de rua que contribuíram para o impeachment da presidente Dilma, em 2016. Dois anos depois, em 2018, foi eleito deputado estadual em São Paulo, pelo Democratas (DEM), apoiando e sendo apoiado por Jair Bolsonaro, com 478.280 votos. Perdeu apenas para Janaína Paschoal.

Em seu canal no Youtube Arthur se autodeclara pertencente à direita conservadora, defendendo ideias liberais para impressionantes mais de 2,7 milhões de inscritos. É crítico das cotas raciais, contra a reforma agrária, favorável à pena de morte, ao armamento da população e às privatizações indiscriminadas, por exemplo. Nos últimos tempos, se dedicou a realizar campanha difamatória contra o Padre Lancelotti, que realiza trabalho social com moradores de rua. Em 2020 foi candidato a prefeito da cidade de São Paulo, pelo Patriota, terminando o primeiro turno em quinto lugar, com 522.210 votos. Depois disso se transferiu para o Podemos, partido do ex-juiz Sérgio Moro, pretendendo ser o nome do partido para disputar o governo de São Paulo, em outubro deste ano.

Essa semana, retornando de uma suspeita “ajuda humanitária” que fizera ao território ucraniano – o termo ele fez questão de usar –, foi surpreendido ao descobrir que haviam se tornado públicos áudios seus, em rede social, nos quais dizia verdadeiros absurdos contra mulheres daquele país. E admitiu a autoria. Isso já está rendendo a abertura de um procedimento interno disciplinar no partido. Mas não deve parar aí: pedidos para análise do seu comportamento pela comissão de ética e posterior cassação, estão sendo encaminhados. Isso porque as coisas mais leves que ele disse foram que as ucranianas eram mulheres fáceis por serem pobres, recomendando a seus amigos que fizessem “turismo sexual” naquele país, o que ele próprio garantiu que iria fazer, tão logo pudesse retornar. Outras declarações, prefiro nem reproduzir aqui, pelo baixo nível, pela postura rasa, machista e misógina. Quem tiver estômago, que procure na internet. Estão todas lá.

Mas outro fato precisa ser investigado: a verdadeira razão de sua visita ao país. Grupos neonazistas brasileiros, que estão se multiplicando em especial nas regiões sul e sudeste, estão envolvidos com milícias ultranacionalistas ucranianas, desde 2016. Matérias publicadas no início de dezembro daquele ano, por diversos órgãos de imprensa, dão conta de investigação da polícia gaúcha contra um grupo que estaria recrutando simpatizantes da causa para que fossem lutar na Ucrânia. Isso acontecia na região das províncias de Donetsk e Luhansk, que concentra historicamente população ligada à Rússia, por adoção do mesmo idioma, costumes e posições políticas. Em função dessa diferença ideológica, esses grupos cometiam uma série de crimes, como sequestros, estupros e morte de mulheres e crianças. Na ONU se acumularam centenas de denúncias, até que os russos perderam a paciência, reagiram e auxiliaram com armas e apoio logístico. Então toda essa área, que é conhecida como Donbass, foi dominada pelos separatistas. Mesmo assim as milícias continuaram agindo na clandestinidade, claro que com muito menor audácia e muito maior risco.

Em manifestações bolsonaristas a quarta bandeira que mais aparecia era uma usada pela ultra direita ucraniana. Perdia para a brasileira, óbvio; depois para a dos EUA, aquela para a qual o presidente eleito bateu continência, no caso mais vergonhoso de submissão da nossa história; e para a de Israel. Depois vinha essa, em função das ligações e apoio mútuo entre neonazistas dos dois países. Ao invés das cores tradicionais azul e amarela, ela é rubro-negra com um tridente no seu centro. Era usada pelos cossacos nas lutas que travaram no Século XVI, segundo informou a embaixada ucraniana em Brasília. Agora ela foi adotada pelo Pravyi Sektor (Setor Direito), organização paramilitar que virou partido político de extrema-direita na Ucrânia, a partir de 2013. O grupo tem raízes antigas e apoiou Hitler quando ele invadiu seu próprio país.

Ao que se saiba, Arthur Mamãe Falei não levou recurso algum para auxiliar a nação em guerra. Também não buscou nenhum brasileiro que estivesse tentando retornar, nem prestou sequer solidariedade para com quaisquer refugiados. Teria ido com recursos próprios ou públicos? E fazer exatamente o quê? Isso precisa ser respondido, sendo obrigação das nossas autoridades o esclarecimento. Porque é hora de se dar um basta para tanta vergonha que estamos passando, também no exterior, nos últimos anos. O Brasil não merece isso, nós brasileiros não merecemos isso. E as mulheres ucranianas precisam receber um pedido formal de desculpas, com todos nós torcendo para que fique claro que essa pessoa desprezível não representa nosso país e nossa gente.

06.03.2022

A bandeira do Pravyi Sektor (Setor Direito), partido político da extrema-direita e organização paramilitar ucraniana,
era presença constante nas manifestações promovidas por bolsonaristas.
O homem que está com a bandeira do Pravyi Sektor nas costas em ato pró Bolsonaro é um
brasileiro que treina milicianos e paramilitares.

O bônus de hoje é a música ucraniana Kukushka (Cuco), em versão de Daria Volosevich. Ela foi produzida em função dos conflitos ocorridos em Donbass. A crise política vinha desde 2013, com centenas de assassinatos de pessoas que discordavam das decisões do governo central de Kiev, a imensa maioria morta por milicianos de extrema-direita, boa parte deles estrangeiros. Em 2014 o conflito se generalizou, transformado em guerra civil. Cerca de 10.500 pessoas foram mortas na região, que terminou recebendo apoio da Rússia para se tornar independente.