SOBRE EROTISMO E LITERATURA

O escritor peruano Mario Vargas Llosa afirmou, certa feita, que sem o erotismo seria impossível haver uma grande literatura. Provavelmente tivesse razão mais uma vez, esse brilhante ganhador do Prêmio Nobel de Literatura. Mas essa relação não pode ser vista de modo banal, raso. Ela tem tanta qualidade quanto a sua sutileza, a sua insinuação. Aquela que nos acompanha com maior ou menor desenvoltura, desde o início dos tempos. Aquela que faz homens e mulheres sucumbirem, do mesmo modo que ocorreu com Eros, o deus do amor, da luxúria e da fertilidade, diante de Psiquê, a divindade que na mitologia representa a personificação da alma. Ou seja, o erotismo não se limita à expressão física, sendo algo que vai muito além dela.

Existe inclusive uma associação do termo com a expressão artística, que o liga com a exaltação. O entendimento de que ele representa uma profunda liberação da essência humana. E essas representações do erotismo como arte são muito antigas, com registros ainda da época do Paleolítico Superior (entre 50.000 a.C. e 10.000 a.C.), quando imagens foram capturadas como signos e pinturas no interior de cavernas. No que se refere à literatura, se pode citar ter sido encontrada em papiros muito antigos, no Egito. Entretanto, a classificação pode ser feita com maior propriedade a partir da Grécia Antiga. Isso com os poemas de Safo de Lesbos ou ainda na obra Lisístrata, de Aristófanes. Essa é uma peça com relato cômico na qual mulheres gregas, fartas da interminável guerra entre Esparta e Atenas, trancam-se num templo e decidem, através de votação, deflagrar uma greve sexual para forçar os homens a uma negociação de paz.

Pulando para a Idade Média, temos O Livro do Bom Amor, de Juan Ruiz, que era Arcipreste de Hita – localidade próxima de Guadalajara, na Espanha. A obra é composta por um prólogo formado por várias estrofes, seguindo-se de uma autobiografia falsa na qual o autor relata fracassos amorosos que havia vivido. Existem ainda, no seu corpo, 33 contos que se intercalam com a narrativa. Outro exemplo da mesma época é La Celestina, de Fernando de Rojas. Este no tempo de transição para com a Renascença, tendo sido primeiro classificado como uma comédia e depois como tragicomédia. Há quem diga que se constitui em uma das bases que permitiram o nascimento do romance e também do teatro moderno.

Mas seria impossível escrever sobre o tema sem que uma das citações mais importantes recaísse sobre as obras do escritor Donatien Alphonse François de Sade, o Marquês de Sade. Como os seus escritos são ainda exemplos fortes hoje em dia, imaginem então o que significaram na sua própria época. Além de ser um nobre francês, ele foi também filósofo e um político revolucionário. Escreveu contos, romances, peças teatrais, diálogos e tratados políticos. Quem faz companhia ao Marquês, como citação obrigatória, é Leopold Ritter von Sacher-Masoch, outro nobre que também foi jornalista e escritor. Nascido em cidade que hoje faz parte do território da Ucrânia, ganhou notoriedade pelas histórias românticas e seu livro mais conhecido é A Vênus das Peles. O termo masoquismo é derivado do seu nome, tendo sido proposto pela primeira vez por um austríaco, o psiquiatra Richard von Krafft-Ebing.

Ainda no Século XX, mesmo que isso pareça um tanto estranho, foi grande a luta da literatura erótica para enfrentar e superar a censura. Do mesmo modo em que havia uma crescente liberação sexual, por outro o comportamento conservador, em termos de costumes, reagia a isso com vigor semelhante. Mesmo assim, é grande o número de autores que se consagraram produzindo nesse gênero. Anaïs Nin e Georges Bataille (franceses), Henry Miller (norte-americano), Vladimir Nabokov (russo) e DH Lawrence (inglês) são bons exemplos. Todos eles têm obras suas traduzidas para o português. E nem o refluxo conservador pelo qual a sociedade passou, nos últimos anos, impede que a comercialização dos livros seja mantida em níveis elevados.

Importante salientar que existe uma diferença nada sutil, entre erotismo e pornografia. O primeiro representa, no seu aspecto físico, o estímulo de ordem sexual sem mostrar o sexo de forma explícita, o que o diferencia dela. Mesmo assim, erroneamente, muitas vezes termina sendo alvo do mesmo tipo de preconceito e censura.

18.11.2022

O bônus musical de hoje é Bésame Mucho, canção escrita em 1940 pela mexicana Consuelo Velásquez, que na época tinha apenas 16 anos. Neste clipe está interpretada por Arpi Alto, uma cantora, compositora e musicista armênia, filha de mãe alemã. Em seu repertório existem ainda canções brasileiras, que ela canta com desenvoltura e um sotaque muito suave e encantador.

DICAS DE LEITURA

DELTA DE VÊNUS: Histórias eróticas, de Anaïs Nin

(Livro de bolso – 304 páginas – R$ 29,17)

Prostitutas que satisfazem os mais estranhos desejos de seus clientes. Mulheres que se aventuram com desconhecidos para descobrir sua própria sexualidade. Triângulos amorosos e orgias. Modelos e artistas que se envolvem num misto de culto ao sexo e à beleza. Aristocratas excêntricos e homens que enlouquecem as mulheres. Estes são alguns dos personagens que habitam os contos – eróticos – de ‘Delta de Vênus’, de Anaïs Nin.
Escritas no início da década de 40 sob a encomenda de um cliente misterioso, estas histórias se passam num mundo europeu-aristocrático decadente, no qual as crenças de alguns personagens são corrompidas por novas experiências sexuais e emocionais. Discípula das descobertas freudianas, Anaïs Nin aplicou nestes textos a delicadeza de estilo que lhe era característica e a pungência sexual que experimentou na sua própria vida. Mais do que contos eróticos, o livro oferece ao leitor histórias de libertação e superação.

LOLITA, de Vladimir Nabokov

(392 páginas – R$ 46,99)

Polêmico, irônico e tocante, este romance narra o amor obsessivo de Humbert Humbert, um cínico intelectual de meia-idade, por Dolores Haze, Lolita, 12 anos, uma ninfeta que inflama suas loucuras e seus desejos mais agudos. Através da voz de Humbert Humbert, o leitor nunca sabe ao certo quem é a caça, quem é o caçador. A obra-prima de Nabokov, agora em nova tradução, não é apenas uma assombrosa história de paixão e ruína. É também uma viagem de redescoberta pela América; é a exploração da linguagem e de seus matizes; é uma mostra da arte narrativa em seu auge. Na literatura contemporânea, não existe romance como Lolita.

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SOPHIA LOREN NASCEU EM PALMEIRA DAS MISSÕES

O ano era 1939. Seu pai um alemão e a mãe, esta era uma brasileira. Veio ao mundo no noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, na cidade de Palmeiras das Missões, sendo Ektor von Hoffmeister o nome de batismo. Mas, na capital carioca, onde passou boa parte da vida, ficou conhecida como Sophia Loren, em função de semelhança física com a atriz italiana. E terminou sendo Irajá, um terceiro e aparentemente definitivo nome, quando atuou e alcançou reconhecimento no mundo da moda. Conheci essa história recentemente, graças a um texto excelente de Jandiro Koch (*), o que tento reproduzir agora, com menor precisão e menos detalhes.

Como Ektor, teve que ir embora da terra natal, motivado pelo fato de não poder ser nela aquilo que entendia como sua verdade. E consta ter sido aluno da Escola Militar de Três Corações. Como Sofia, foram tempos difíceis os primeiros passados no Rio de Janeiro. Houve inclusive envolvimento com roubo de joias, que teria sido praticado ao lado de Raulina (Raul Ambrósio), Nádia (Nei) e Marisa (Lourival), em residência no bairro do Leblon. Rendeu cadeia e muita matéria nos jornais, que os apresentava como “A Gang dos Pederastas”. Interessante é que elas descreviam o gaúcho de uma forma que servia para aumentar e muito a curiosidade de todos sobre ele. “Moço de constrangedora beleza”, ou ainda “Rapaz de boca recortada, olhos verdes e agudos”, em dois textos do Última Hora, para servir de exemplo.

Com a repercussão do fato e a reação prevista e horrorizada do pessoal “de bem”, das famílias tradicionais e de outras hostes conservadoras, a polícia deflagrou uma operação que deteve dezenas de homossexuais na Zona Sul. Acontece que muitos deles tinham contato com pessoas de grande influência, gente da política e empresários. Um deles, por acaso também gaúcho e conhecido como Elvis Presley, conseguiu que nada menos do que um senador da República intercedesse pelo grupo. Assim, acabaram sendo soltos.

Ektor/Sophia trabalhou como vitrinista e decoradora depois de solto(a). E, algum tempo depois, conseguiu espaço para se apresentar em boates, como cantora. Um desses endereços era a Favela, em Copacabana. Chegou a ser marcado um teste seu pela gravadora RCA, que nunca se soube ter ou não acontecido. Também esteve atuando no Teatro Recreio e na casa Night and Day, na Cinelândia. E trabalhou com Grande Otelo e Consuelo Leandro. Com a fama que angariou, partiu para apresentações em Paris e Roma. E voltou para o Rio Grande do Sul para o casamento de sua irmã Maria Elaine Hoffmeister. No total eram cinco os filhos do casal Homero e Etelvina. Aliás, um dos irmãos foi nome de destaque no futebol, não tanto por ter defendido as cores do Esporte Clube Cruzeiro – então sediado em Porto Alegre, recentemente mudado para o município de Cachoeirinha –, mas porque mais tarde se tornou presidente da Federação Gaúcha de Futebol. 

Não muito depois disso, foram-se Ektor e Sophia. Isso porque estava na hora de surgir Irajá. Porque desde que conhecera a capital da Itália, conheceu também um novo amor: pela alta costura. Foi então aprimorando o pouco de desenho e pintura que trouxera da adolescência. Ao mesmo tempo, conseguiu trabalhar como manequim masculino para as marcas Brioni e Pierre Cardin. Com seis anos passados em função desse sonho, naquele país, superou desconfianças e conseguiu reconhecimento. Dois financistas ingleses então o levaram para Paris. Em 1970 veio apresentar suas coleções em São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro. Nas três cidades foi aplaudido.

Na Europa, seguia sendo badalado e tendo muita gente famosa como cliente. Consta, por exemplo, que Grace Kelly, a atriz que virou princesa de Mônaco, era figura constante. Assim como também Bessie Wallis, a Duquesa de Windsor. Aquela mesma norte-americana que levou Eduardo VIII a abdicar no Reino Unido, para se tornar seu terceiro marido. Com isso seu irmão assumiu o trono que, com sua morte, passou para a rainha Elizabeth, a quase eterna. O que nunca se conseguiu confirmar com absoluta certeza é se, em Palmeira das Missões, sua fama e o dinheiro conseguiram superar o ranço bastante preconceituoso, transformando o sentimento em algum orgulho. Mesmo que constrangido.

14.11.2022

Ektor von Hoffmeister, a Sophia Loren gaúcha

(*) Jandiro Adriano Koch é um escritor e historiador, natural de Estrela, no Rio Grande do Sul. Especialista em gênero e sexualidade, foi o vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura 2021. O texto original no qual foi baseada a crônica de hoje pode ser encontrado no Grafia Drag, um blog cultural de ensaios e entrevistas.

O bônus musical de hoje é Preconceito, composição de Fernando Lobo e Antônio Maria, na voz de Cazuza.