SIM, EU ESTOU ENVELHECENDO

Minha barba e meu cabelo ficaram brancos. Esses eram encaracolados e ficaram mais lisos e ralos. O abdômen também não é o mesmo: ganhou personalidade, presença. A coluna insiste em se fazer notar e basta eu esquecer dela por alguns poucos dias e ela grita. Ou melhor, quem grita sou eu, por causa dela. Jogar futebol, nem pensar. Na verdade, nem quando jovem eu jogava. A diferença é que naquela época eu tentava enganar e até conseguia, vez por outra. Agora, se passo uma noite em claro, me sinto como se fosse uma semana inteira. Nada de competição entre amigos adolescentes, daquelas tolas como quem consegue comer mais pedaços de pizza num rodízio. Cerveja já não me cai bem, quando à noite. E nunca caminhei tanto em esteira quanto agora, algo simbólico porque com todo o esforço não se sai do lugar. Do mesmo modo que a gente luta para segurar o tempo e a elasticidade da pele, também sem sucesso.

Entrei na terceira idade sem me dar conta do quanto as duas primeiras passavam rápido. Aliás, esse termo foi criado na França, em 1962 – eu nem na escola estava ainda naquela época –, pelo gerontologista Jean-Auguste Huet, em virtude de estarem estabelecendo por lá uma política de integração social. Buscavam transformar a imagem que tinham naquele país das pessoas envelhecidas. Por definição, coincide com o início cronológico da média da faixa etária com que as pessoas se aposentavam, entre 60 e 65 anos. Isso porque eles nem sequer tinham motivo para imaginar o que aconteceria no futuro – nosso tempo atual –, aqui no Brasil, com as sucessivas reformas que estão aproximando aposentadoria e morte.

Mesmo com as pessoas em nosso país sendo em geral mal tratadas, quando atingem a idade na qual deixam de ser produtivas, como exige sempre o capitalismo, algumas coisas nos são destinadas. Como por exemplo, uma data especialmente dedicada para que se comemore isso, que não é assim tão bom de comemorar. Exceto se a gente vê a questão pelo lado da sobrevivência, lógico. Afinal, chegamos até aqui, o que nem todos conseguem. O Dia do Idoso já existia em outros países, em 1º de outubro, quando aqui foi adotado. No Brasil a data marcou a entrada em vigência da Lei 10.741, o Estatuto do Idoso, em 2003. O dispositivo legal foi criado para reforçar a importância que deve ser dada à proteção desse público. Mas eu só lembro da data, todos os anos, depois que ela passa. O que pode ser incluído no rol das características que apontam a chegada da senilidade: a inconfiabilidade da memória. Por causa disso, apenas hoje, dois dias depois, estou citando o fato aqui no meu blog.

Brincadeiras à parte, sem dúvida é importante esse trabalho que também é de “inclusão”. Ainda estamos vivos, o que é muito bom, pelo menos para quem tem a felicidade de gozar de saúde. Outra coisa que precisa ser citada é o aspecto sócio cultural. O modo de vida ocidental, ao contrário do que historicamente sempre foi visto nos países do oriente, afasta o velho. Por aqui somos elefantes que precisam morrer longe da manada, em solidão: o velho que envergonha seu grupo. Isso é diferente dos honoráveis, do sinal de sabedoria, da alegria do convívio, muito mais valorizado entre eles. Pelo menos até a recente ocidentalização dos hábitos e costumes, que vem ocorrendo por lá.

Por outro lado, se a vida tem muito de circular, confundindo nossa percepção do tempo, o fim nos aproxima do começo. E não apenas na dependência de terceiros, mas na desimportância de nossa relação com o mundo, no que vá além da curiosidade. A criança quer descobrir; nós redescobrimos. A criança não nota o perigo; nós não damos mais a ele tanta relevância. Pequenas coisas chamam nossa atenção na infância; na velhice reparamos em detalhes que antes não se via. E se o relógio jamais anda no sentido inverso, sempre haverá algum neto para que se tenha essa sensação, mesmo que falsa. Talvez por isso apenas 11 dias separem o Dia do Idoso do Dia da Criança.

03.10.2021

A população de idosos está aumentando

Hoje voltamos a ter bônus duplo. Primeiro, Arnaldo Antunes canta Envelhecer. A música integra o álbum Iê Iê Iê, de 2009, tendo esse clip sido gravado ao vivo em setembro de 2013. Depois temos uma apresentação coletiva gravada pelo projeto Playing for Change, da música Don’t Worry Be Happy (Não Se Preocupe, Seja Feliz), de Bobby McFerrin. Lançada em 1988, no álbum Simple Pleasures, ela conquistou o Grammy Award como Canção do Ano.

O ETARISMO

Quando se fala em preconceito, lugar comum é as pessoas sensíveis ao assunto associarem de imediato a palavra com questões de etnia, raça, gênero ou orientação sexual. Afinal, são sem dúvida essas as mais comuns manifestações dessa postura odiosa. Entretanto, existem outros tipos, que mais dificilmente são percebidos. Um deles é o etarismo. Mas, antes de falarmos sobre esse conceito, vamos tentar esclarecer a diferença que existe entre dois dos anteriormente citados, que não raras vezes são confundidos. O preconceito contra raça, o racismo, refere aversão a determinadas características fenotípicas dos tipos humanos, em especial cor da pele. O racista discrimina negros, sem uma única razão plausível para isso – como se fosse possível existir uma sequer. Já o preconceito contra etnias se refere a fatores culturais, como nacionalidade, religião, língua e tradições de grupos humanos. Um outro tipo de intolerância, de falta de respeito e capacidade de entender o que não é semelhante a si mesmo.

Voltando ao etarismo, esse se baseia na crença irracional de que todas as pessoas, sem exceção alguma, são limitadas em função da sua idade. É subestimar a capacidade de jovens, apenas porque se entende que eles ainda não têm condições para determinadas ações, pelo fato de que, na maioria das vezes, essas são atribuídas a adultos. Ou ainda, no extremo oposto, achar que a pessoa que envelhece perde todas as suas capacidades, irremediavelmente. É, por exemplo, não dar trabalho aos jovens alegando apenas falta de experiência. Ou negar colocação aos que têm mais idade, acreditando que jamais teriam a produtividade que é esperada. Assim, o etarismo – também chamado de ageísmo – é toda a forma de estereotipia fundada numa discriminação de idade. Pode afetar a vida das pessoas de diversas formas, mas como citei acima é cruel especialmente no ambiente de trabalho.

Em 2015 o japonês Hidekichi Miyazaki, com 105 anos de idade, bateu o recorde mundial para a categoria sênior, fazendo no atletismo 100 metros rasos em 42 segundos. Tudo bem que atletas mais jovens fazem isso em tempo quatro vezes menor, mas aposto que a grande maioria das pessoas sedentárias com metade da sua idade não conseguiria. Na época ele brincou, desafiando Usain Bolt para um “pega”. Um ano antes, sua compatriota Mieko Nagaoka, de 100 anos, foi a primeira pessoa com essa idade que nadou 1.500 metros livres em piscina de 25. Eu, que não sei nadar, só poderia aplaudir. Com uma habilidade impressionante, aos 81 anos a jogadora Doris Self bateu o recorde no jogo eletrônico Twin Galaxies, acumulando 1.112.300 pontos no modo Tournament, que é a mais difícil configuração do tal jogo. Dorothy Davenhill Hirsch, de 89 anos, foi uma desbravadora do Polo Norte, a bordo do navio russo Yamal, um quebrador de gelo. O professor doutor alemão chamado Heinz Wenderoth conquistou esse título acadêmico com 97 anos. Fez isso apresentando um trabalho instigante sobre aspectos biológicos de células na morfologia e fisiologia da vida marinha primitiva.

Eu concordo que estou ilustrando o texto aqui com exceções, não com a regra. Mas não se precisa ir ao limite para entender que afirmações “definitivas” têm enorme probabilidade de não encontrarem eco em todas as pessoas. Por que não confiar, ao menos no ambiente de trabalho, naqueles que são os improváveis? Tem muita gente jovem que pode surpreender com uma visão nova, inovadora mesmo, acelerando processos “consolidados”. Tem muita gente madura que pode mostrar um jeito esquecido, de tratar pessoas e resolver problemas, que anda sepultado sob o manto da necessidade compulsiva da tecnologia. A pressa de hoje em dia, mesmo não sendo inimiga da perfeição, pode se tornar avessa ao capricho, afetando resultados.

A comédia norte-americana Um Senhor Estagiário, com Robert De Niro, Anne Hathaway e Rene Russo, conta a história de um viúvo de 70 anos, aposentado, que aproveita a oportunidade de trabalhar como estagiário sênior em uma empresa de moda. Recebido com enorme desconfiança, ele termina conquistando os colegas mais jovens, incluindo sua chefe direta que não o desejava lá, graças à sabedoria e ao senso de humor que a idade o ajudou a desenvolver. Merece ser visto. O dinamismo e a serenidade não são excludentes. E velho de verdade é o preconceito.

30.08.2021

No bônus duplo de hoje, primeiro o trailer oficial da comédia Um Senhor Estagiário. Depois, a música Orgulho e Preconceito, de Lulu Santos. Essa se refere à outra forma de desrespeito, fazendo referência ao julgamento alheio quanto ao direito das pessoas amarem quem bem lhes entende. Mas ele ilustra bem nossa necessidade de rever conceitos.