BOA SORTE, ÓTIMO FILME

Me dei ao luxo, semana passada, de fazer algo que não fazia desde bem antes da pandemia. Fui ao cinema, numa sessão do meio da tarde de um dia útil – nunca entendi isso, porque não existem dias inúteis. E o filme escolhido foi Boa Sorte, Leo Grande. Acreditem: valeu muito a pena e eu o recomendo.

Quase toda a narrativa acontece em um único ambiente, um quarto de hotel onde a protagonista Nancy Stokes, uma viúva de 55 anos de idade, professora recém aposentada, tem encontros com um garoto de programa que contrata através de um serviço especializado. Seu objetivo inicial era o de ao menos uma vez na vida ter o prazer que não tivera em 31 anos de um casamento totalmente sem graça. Mas o rumo que os acontecimentos tomam, com os diálogos travados – foram escritos pela humorista Katy Brand –, faz com que aconteça uma verdadeira terapia, com um autoconhecimento gradual e engrandecedor. O que vale para ambos.

Trata-se de uma comédia dramática, que explora com um texto ágil e muito apropriado toda a dificuldade que boa parte das pessoas adultas ainda têm para tratar do tema sexo. A mesma que nos foi imposta por uma educação demasiado centrada em temas religiosos e na qual preponderam, em geral, inúmeros tabus e vergonhas. A personagem Nancy encarna esse conservadorismo que vem misturado com uma dose de ignorância, a tal ponto que aceitou sem reação uma vida inteira sem se dar ao direito de ter sentido satisfação uma única vez sequer. O jovem contratado, Leo Grande, ao contrário dela e pelas circunstâncias do seu trabalho, encara com naturalidade o assunto e considera normais todos os pedidos da sua cliente.

O que valoriza o filme é que mesmo sendo o sexo o ponto de partida de toda a situação, ele não é no fundo sua razão principal. A narração vai muito além do aspecto físico, abordando afetos, traumas da juventude, amores, carências, relações familiares e ligadas às atividades de ambos. No início todo o esforço de Leo se concentra na necessidade de acalmar a mulher que o contrata, uma vez que ela põe em dúvida sua própria sanidade ao se dar conta do que estava fazendo. Depois tudo passa por uma transformação e, em encontros sucessivos, eles vão se revelando na complexidade do que significa ser humano. E as abordagens então passeiam por questões de gênero, idade, perspectivas de vida e também de dignidade.

O investimento para a realização do filme certamente foi baixíssimo. Quase todo o tempo se passa dentro de um único cenário, um quarto de hotel. Mas a diretora Sophie Hyde consegue nos fazer cúmplices de uma história cheia de verdade, não meros voyeurs que espiassem por um buraco de fechadura. A atriz veterana Emma Thompson desfila com segurança no papel de insegura; o ator novato Daryl McCormack não deixa a desejar vivendo a figura que aparenta segurança, mas vai se transformando. E isso também está carregado de simbolismo, como se suas faixas etárias estivessem invertidas.

Boa parte da projeção nos mostra uma mulher dividida ao meio, entre a obstinação de se permitir o até então não permitido e o temor de estar deixando de ser o que sempre foi e parecia certo. Mas aos poucos vai vencendo o desejo não de sexo, mas de enfrentar o fato de nunca ter feito algo sequer interessante na sua vida. Afinal ela, como todos nós, tem o direito de acessar sonhos, fetiches e desejos, uma vez que não há anormalidade alguma nisso. E não se tornará a personagem impura, promíscua ou sequer fútil em virtude disso.

Na linguagem cinematográfica mais sutil, o filme começa cuidadoso e aparenta algum pudor no início. De tal sorte que quando o primeiro contato sexual acontece, ainda longe de ser pleno, a câmera se desvia na direção da janela e sua paisagem externa. Literalmente, desvia seu olhar. Depois, quando os véus vão caindo e há naturalidade entre os protagonistas, ela se permite manter o foco e evidenciar uma nudez, sem qualquer exagero e longe de ser apenas física, havendo afeto evidente. Enfim, Boa Sorte, Leo Grande cumpre o que promete. Não vá assistir pensando em uma obra prima do cinema. Mas ele é ótimo mesmo e o custo do ingresso será investimento que valerá a pena.

09.08.2022

Daryl McCormack e Emma Thompson

O bônus musical oferece um clipe da música Boa Sorte, com Vanessa da Mata e Ben Harper. Isso logo depois do trailer legendado do filme comentado no texto de hoje.

A MULHER PERFEITA É UMA VACA

Por favor, não joguem as pedras antes do texto ser lido. Quero começar dizendo que o título dessa crônica sequer foi criado por mim, mas por duas mulheres que o deram a um livro que escreveram. A Mulher Perfeita é Uma Vaca é apresentado como “um guia de sobrevivência para mulheres normais”, sendo de autoria de Anne-Sophie Girard e Marie-Aldine Girard, irmãs gêmeas que nasceram em Montpellier, na França. Uma delas é humorista e a outra jornalista, o que talvez já sirva para explicar um pouco as coisas. Na sua própria apresentação elas fazem questão de dizer que são “imperfeitas assumidas”. E relatam que já viram Dirty Dancing – um filme que pode ser classificado como drama romântico-musical – umas 47 vezes, adoram criar coreografias para músicas bregas e já conseguiram confundir manjericão com arruda. Fico aqui imaginando o gosto que deve ter restado do prato que estavam fazendo.

Com um texto mais do que objetivo elas colocam verdades que com certeza toda mulher gostaria de ouvir – ou ler, nesse caso. E explicam que ser perfeita é uma ilusão inatingível, apenas servindo para tornar infeliz quem ainda acredita que pode conseguir isso. O pior, colocam as autoras, é que essa ilusão não impede flacidez nem celulite, mas causa depressão e outros males para a saúde física e mental. Elas vão adiante e afirmam que uma mulher de modos requintados, corpo esbelto, ativa, culta, sem olheiras é alguém absolutamente insuportável. E se dirigem a quem passa a vida toda lutando contra a balança, tentando em vão evitar os chocolates e os doces; numa luta contra a preguiça e a favor da academia; fazendo malabarismos para administrar o tempo; e suportando inúmeros planos que terminam não dando certo.

O livro tem uma estrutura semelhante àqueles de auto ajuda. Mas não se iludam com as aparências: ele vai muito além disso. Ele foi feito com uma série de capítulos curtos, que elas preferem chamar de “regras”. Em cada um deles as autoras abusam da ironia e do humor ácido que visa apenas derrubar muitos complexos que atormentam as mulheres, devido à estrutura machista e ainda conservadora que tem a sociedade. Tentam fazer com que as “imperfeitas”, que são todas as normais e aquelas não idealizadas, possam desfrutar a vida.

O prefácio é assinado por Christine Berrou, também francesa, uma atriz e escritora – recomendo Em Busca do Tempo Perdido na Internet – que é bastante conhecida em seu país, onde além de ser muito atuante no teatro mantém programa de TV. Nesse texto de apresentação ela destaca que “apesar da aparente falta de seriedade do sumário, elas falam de coisas essenciais”. Também confessa que foi convidada para a tarefa por ter manifestado inveja por não ter pensado ela própria em escrever esse livro. E resume tudo ao dizer que “aceitar-se imperfeita é se aproximar da plenitude”.

Quanto a mim, a confissão que faço é que fui atraído pelo título do livro, tão absurdo quanto improvável. Comprei – ele é bem baratinho – e li com bastante interesse. Mesmo havendo um suposto direcionamento da obra para um público leitor feminino, fazer isso não me causou nenhuma espécie de constrangimento. Até porque está mais do que na hora de homens também dedicarem atenção a temas e assuntos que parecem ser apenas de mulheres. Parafraseando alguns anúncios de um dos grandes bancos brasileiros, “isso muda(ria) o mundo”.

23.04.2022

O bônus de hoje é Desconstruindo Amélia, de Priscilla Novaes Leone, uma compositora, cantora, multi-instrumentista e apresentadora de TV natural de Salvador, Bahia. Se você ainda não sabe quem é ela, deixo aqui também o apelido pelo qual ficou muito conhecida: Pitty.

DICA DE COMPRA

Clicando sobre a imagem da capa acima, você adquire o livro que foi assunto na crônica de hoje, pagando a bagatela de R$ 9,90. Pode até comprar mais de um, reservando exemplares para dar de presente para amigas ou no Dias das Mães, que se aproxima. Mas faça isso logo, porque o preço pode sofrer alteração sem aviso prévio. Se você usar esse link, o blog é comissionado e tem a sua continuidade assegurada.