AGORA A DIREITA PRECISA DO IMPEACHMENT

O quadro está mudando e Bolsonaro não tem mais apenas gravata ao redor do seu pescoço. A corda está posta, o nó vem sendo apertado e ser dependurado é uma questão de tempo. Mas a vitória maior, quando do seu empurrãozinho final, não será da esquerda, mesmo com essa denunciando sua incompetência, despreparo, envolvimento com milícias e corrupção desde quando era ainda um candidato pouco acreditado. Quem também deseja seu afastamento agora e certamente lucrará muito com isso, se vier a ocorrer, é a direita. E justamente em função dela estar “aderindo à causa”, se torna cada vez mais provável que o Palácio do Planalto seja desocupado pelo atual inquilino bem antes do que ele gostaria e esperava – nunca escondeu sua quase certeza de reeleição.

A receita que permitiu a improvável vitória de um candidato totalmente inexpressivo no panorama político, em 2018, teve como ingredientes principais o antipetismo gestado com forte apoio da imprensa e o engajamento de grupos que encontraram em Bolsonaro afinal uma chance real de terem voz: o “baixo clero”, na Câmara dos Deputados; evangélicos que já trabalhavam duro tentando ocupar o lugar até então cativo dos católicos, nos corações e mentes dos brasileiros; setores das Forças Armadas, saudosistas da ditadura militar instaurada em 1964; e empresários periféricos que precisavam de benesses do poder público para que seus negócios pudessem se expandir. Isso tudo, evidentemente, depois de terem tirado de forma arbitrária a possibilidade de Lula concorrer.

Nesse caldeirão estava servido o caldo para proliferarem sentimentos, posturas e preconceitos como homofobia, racismo, xenofobia e outras podridões fascistas que antes estavam escondidas. Com o mau cheiro, os ratos saíram do porão. Vieram famintos e prontos para roer e devorar as empresas estatais, a educação básica, a cultura, os serviços públicos, universidades, meio ambiente, centros de pesquisa, programas sociais e tudo mais que havia sido construído em anos de lento progresso, com conquistas da população que levaram a melhores condições de vida. Um preço muito alto, portanto, para uma nação que começava a se acostumar a ter identidade e autoestima, esperança e futuro. Mesmo assim, setores não extremistas da direita acreditavam que até poderia ser pago – não seria por eles –, se fosse para “recolocar as coisas no devido lugar”. Estava sendo insuportável para a elite, por exemplo, ver seus filhos convivendo com pobres no ensino superior; dividir lugares nos aviões; ter mais dificuldade para conseguir serviçais; e ver a desigualdade social reduzida, mesmo que nem tanto assim. Isso era intolerável para a sua índole, sua visão egoísta de mundo. Era preciso tirar a esquerda, apesar dela ser light, do comando do país. O primeiro passo para tanto já havia sido dado com o afastamento de Dilma, em 2016. Mas isso precisava ser consolidado dois anos depois, com uma eleição que tivesse a melhor aparência possível de democrática.

Bancos, grandes empresas, agronegócio e mineradoras, entre outros setores, ampliariam ainda mais seus ganhos quase pornográficos e, acreditavam eles, Bolsonaro era um “inocente útil”. Entretanto, mesmo tardiamente, estão se dando conta de que não existe a inocência que acreditavam. Que o seu “boneco de ventríloquo” nunca pretendeu sair do colo, exceto se fosse para ocupar a cadeira do seu dono. Notaram que o número cada vez maior de militares em funções civis no governo federal não era um indício muito bom; que a facilidade para aquisição e porte de armas estava favorecendo fortemente os grupos milicianos desde sempre íntimos da “famíglia”; que a postura proposta para as nossas relações internacionais estava reduzindo o mercado externo; que a suposta corrupção antes denunciada era fichinha perto da atual; que incêndios e desmatamento estavam superando índices tolerados; que as fake news usadas como arma na eleição passada prosseguiram ameaçando todos, agora indistintamente.

Como se tudo isso não bastasse, a condução intencionalmente desastrosa da saúde pública no combate à pandemia está deixando um rastro de mortos que cresce sem parar. O peso dos corpos de mais de meio milhão de brasileiros que perderam a vida, um número que segue crescendo todos os dias em níveis alarmantes, situação agora agravada pela descoberta da tentativa de membros do governo lucrarem ilegalmente com a compra de vacinas, parece ser a gota d’água. Isso foi ainda pior do que a teimosia anterior de indicar o uso de medicação ineficaz. Portanto, chega a hora de parar e pensar um pouco.

A Globo começou a bater em Bolsonaro quase como fazia com Lula, anteriormente. Cresce o número de pessoas nas manifestações de rua contra o governo, que vão sendo feitas com frequência maior, em cada vez mais cidades. E a justiça, sem ter mais como sustentar a farsa levada a termo pelo ex-juiz Sérgio Moro e pelo procurador Deltan Dallagnol, inocentou o líder maior da oposição, que está crescendo sem parar em todas as pesquisas de intenções de voto para o pleito do ano que vem, muito antes de começar a fazer campanha. Já existem indicativos concretos de vitória ainda no primeiro turno. Isso soou o último alarme.

Uma “terceira via” precisaria ser estabelecida de imediato, para ser oferecida como alternativa à polarização Bolsonaro/Lula. Mas não parece haver mais tempo de ser tirado da cartola um coelho suficientemente gordo e forte. Dória, Ciro, Mandetta, o recém-incensado Leite, assim como o midiático Hulk, nenhum desses têm peso o suficiente para subir no ringue com chances mínimas de vitória. Então, a saída seria quebrar uma das pernas de quem está na frente. Como não existem mais argumentos jurídicos para deter Lula, mas sobram para parar Bolsonaro, a saída parece estar se desenhando. Não que seja fácil fazer isso, uma vez que sua base ainda é consideravelmente grande, violenta e armada, pouco afeita a luzes e cega por um fanatismo nutrido pelo WhatsApp, o SBT e a Record. Mas, com ele fora da disputa, seria mais fácil fazer campanha contra o “radicalismo” da esquerda, soprar as brasas do antipetismo para ver se volta o fogo e, depois, correr para o abraço. Tirando o bode da sala, a volta dos privatizadores entreguistas do PSDB ou dos fisiológicos do MDB pode parecer algo perfeito, aos olhos desatentos de boa parte do povo. Para os proponentes seria a troca do gado bovino por ovelhas. E isso pode colar, ainda mais se os candidatos forem elegantes, tiverem todos os dedos em ambas as mãos, algum diploma pendurado na parede, usarem bons perfumes e raramente passarem por destemperos verbais como os que caracterizam esse atual acidente da nossa história.

07.07.2021

Manifestações em São Paulo, 19 de junho de 2021. Foto de Paulo Pinto / AFP

No bônus de hoje, nada melhor do que a genialidade de Chico Buarque e sua facilidade com as palavras. Vai Passar nos conforta, com seu duplo sentido: a escola na avenida e também lembrando que não há mal que dure para sempre. Ele, um compositor atacado pelo ódio reinante, em samba anterior ao momento atual sendo mesmo assim muito pertinente. Um gênero alegre como os brasileiros vão voltar a ser, seja com as eleições do ano que vem ou, quem sabe, antes delas.

O MÉDICO E O MONSTRO

Um livro publicado no início de 1886, escrito pelo escocês Robert Louis Stevenson e que foi “classificado” como sendo uma novela gótica, repleta de elementos de terror e ficção científica, atingiu sucesso praticamente instantâneo e é conhecido no mundo todo. Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde, que no Brasil teve seu título simplificado para O Médico e o Monstro, foi considerado algum tempo atrás pelo mestre da literatura de suspense, Stephen King, como um dos maiores clássicos do gênero, ao lado de Frankenstein e de Drácula. Na história, que se passa em Londres, um advogado investiga estranhas coincidências que vão aos poucos ligando um médico amigo seu, Dr. Henry Jekyll, com um monstruoso psicopata identificado como Edward Hyde.

Essa obra literária abordou, na realidade, o fenômeno das múltiplas personalidades. A possibilidade de “habitarem” no mesmo corpo pelo menos duas facetas totalmente distintas, no que se refere à moralidade e à conduta, que afloram dependendo da ocasião e do interesse. Convém destacar que nem todos os profissionais da área concordam que isso de fato exista. Muitos preferem dizer que ocorre é um distúrbio que leva o indivíduo a ter comportamentos distintos, opostos mesmo, sendo uma única personalidade doentia. Em geral, devido à vida em sociedade, a face “demoníaca” tende a ser no mínimo mantida em segredo, escondida como uma perigosa vida paralela, havendo manipulação. Isso pode vir a se tornar uma bomba relógio, pronta para explodir a qualquer momento.

Essa semana foram presos, no Rio de Janeiro, o médico e vereador Jairo Souza Santos Jr., conhecido como Dr. Jairinho, e sua atual companheira, Monique Medeiros. São acusados, após investigação policial, que resultou em robusta prova documental e testemunhal, pela morte de Henry Borel, um menino de quatro anos filho dela com seu ex-marido. O crime ocorrera cerca de 30 dias antes, com requintes de crueldade. A perícia aponta que a criança foi torturada e depois espancada, o que causou uma série de lesões na cabeça e em órgãos, resultando em hemorragia interna. Levada a um hospital, chegou sem vida, com explicações como mal súbito e até mesmo uma singela queda da cama – que para ser plausível, deveria estar suspensa uns três andares acima do chão. Constatada a morte, o padrasto fez de tudo para obter uma certidão de óbito e liberação do corpo sem encaminhamento para o Instituto Médico Legal (IML). Mas não teve sucesso, mesmo com as inúmeras ligações feitas, inclusive para o governador do estado.

Jairinho é filho único de Jairo Souza Santos, o Coronel Jairo, que foi policial militar e coordenador de campanhas eleitorais de Flávio Bolsonaro. Investigado pela Operação Furna da Onça e com enorme poder de influência dentro do Detran daquele estado, chegou a ser preso por envolvimento numa série de crimes, sendo líder de milícia que estava sendo investigada pela socióloga e vereadora Marielle Franco, quando foi assassinada. Da área de influência do pai saíram quase a totalidade dos votos que conduziram o filho para a Câmara de Vereadores. No Legislativo, Júnior foi líder do governo em duas oportunidades, tendo ainda presidido as comissões de Educação e do Plano Diretor. Quatro dias após o assassinato de Henry, Jairinho foi empossado no Conselho de Ética da Câmara.

O menino morto tinha o mesmo nome do personagem “sadio” do livro de Stevenson. Mas não condições de lutar contra o psicopata, ao contrário do ocorrido na literatura. Teve ainda o azar de vir ao mundo via útero de uma mulher que, mesmo sabendo da tortura e do espancamento, sempre ocultou tudo e defendeu o criminoso. Talvez por dividir com ele a mesma doentia falta de empatia, de sentimento de culpa, de remorso. Ela trabalhava no Tribunal de Contas do Município, tendo conseguido a vaga por indicação de Jairinho. Ganhava pouco mais de R$ 14 mil brutos a cada mês, mas esse valor e o status pareciam ter mais importância do que a vida do filho. Ao sair do enterro do garoto, foi direto ao cabelereiro e fazer as unhas. Quando compareceu à delegacia pela primeira vez, recolheu as pernas sobre uma cadeira na sala de espera e caprichou na aparência, para fazer uma selfie. Presa, não esboçou qualquer reação, mas demorou um pouco para ser conduzida porque pediu para escolher a roupa certa.

Estão na internet para quem quiser ver cópias dos “santinhos” impressos por Jairinho, na última campanha. Em todos está escrito “Defensor da família. Contra a ideologia de gênero. A favor da Escola Sem Partido. Fechado com Bolsonaro”. Também se encontram vídeos com pastores evangélicos sugerindo votação nele, um “homem de bem”. Aliás, tanto o vereador como Monique são “tementes a Deus”. Essa expressão é usada para identificar quem é muito religioso ou devotado a Deus, pessoas que expressam intenso respeito  e obediência. Ou seja, algo incompatível com essa violência nada cristã, mas situação que mais uma vez aponta para a profunda ligação que existe hoje entre as milícias e as igrejas neopentecostais no Rio de Janeiro. Uma lástima, que deveria ser repudiada e combatida pelos verdadeiros fiéis. Lástima maior é que mais uma vida inocente foi perdida. E pedir por justiça, além de óbvio, sempre será muito pouco.

12.04.2021

Dr. Henry Jekyll e Edward Hyde.

No bônus musical de hoje, em respeito à dor do pai de Henry Borel, Leniel Borel, o talento de Eric Clapton. Esse músico inglês, que também perdeu um filho com quatro anos de idade – caiu da janela do 53º andar de um hotel em Nova Iorque –, compôs essa canção em sua homenagem: Tears in Heaven.