EQUILÍBRIOS, NO PLURAL

Etimologicamente a palavra equilíbrio, em português, foi adotada a partir do idioma francês équllibre. Na França, por sua vez, a herdaram do latim aequilibrium. Seu uso principal foi apropriado pela física, ciência que identifica essa como a condição de um sistema no qual todas as forças que sobre ele atuam se compensam e se anulam totalmente. Isso representa um corpo sem oscilações ou desvios de qualquer natureza. Mas daquela ciência verteu para significados mais abstratos, abraçados em especial pela psicologia, além de outras das ciências ditas humanas e sociais. Nessas, equilíbrio virou sinônimo de sanidade e paridade não apenas de forças, como também de intenções e propósitos. Não esquecendo que a paridade pode ser semelhança e nem sempre significa igualdade.

Do ponto de vista pessoal é tida como equilibrada aquela pessoa não tendente a escolher entre lados que estejam em limites opostos, em extremos, mas sem que isso implique numa postura eterna, imutável. Até porque só quem é equilibrado e saudável pode rever seus pontos de vista e consequentes posicionamentos. Pode-se também acreditar que o equilibrado é aquele que não “explode”, mas isso não significa necessariamente algo bom para a pessoa, uma vez que são muitas as ocasiões na vida nas quais extravasar é o mais saudável e libertador.

Se vamos examinar a questão de pontos de vista comunitários e sociais, abordando política por exemplo, há que existir o cuidado de que esta expressão não aponte para acomodação, despreocupação e falta de compromisso. Nesse caso específico, ser “neutro” é no fundo ter um lado que em geral se revela perigoso, porque o “não envolvimento” é irmão gêmeo da omissão. No campo político há inúmeras situações onde a postura correta é justamente a de escolher uma das pontas, evitando o conforto da estabilidade. Porque quando nos sentimos estáveis a ponto de abandonar causas das quais outros dependem, não defendendo ações coletivas, estamos apenas protelando o momento em que nós também estaremos vulneráveis. O que nos tornará vítimas tardias da nossa própria falta de coragem. Um exemplo concreto seria tratar com tolerância os que são intolerantes e, em função disso, permitir um risco que tende a destruir o equilíbrio. Fechar os olhos para o avanço de uma visão do mundo que segrega, desumaniza e agride, achando que isso pode ser bom ou que, no mínimo, não atinge a você e seus interesses, é assumir a cegueira da ignorância.

Outro exemplo concreto, agora para temas sociais: dar chances iguais não é ser equânime, o que transforma a meritocracia numa falácia. Uma sociedade justa e equilibrada dá a cada um dos seus membros conforme suas necessidades e cobra de cada um deles conforme suas reais capacidades. Ou seja, justiça – não por acaso o seu símbolo é uma balança – é quando se avalia considerando as diferenças e não fazendo de conta que elas não existem. É tratar os diferentes de forma compensatória. Como fazer uso de cotas, para citar uma das tantas ações afirmativas que são possíveis e necessárias. Claro que isso fere os interesses de uma sociedade constituída e movida apenas pela produção e pelo consumo, mas não considerar essa variável é desumanizar as relações. Que é exatamente o que se vive hoje em dia. Um mundo onde parece bom ser mau e alheio aos sentimentos e às dores dos outros. Um mundo onde o desequilíbrio é que assume a centralidade, onde alargar distâncias e macular a dignidade das pessoas está sendo naturalizado.

14.11.2021

Equilibradas são as pessoas e as sociedades que buscam equidade e justiça

No bônus musical de hoje, Maria Rita canta O Bêbado e a Equilibrista, magnífica composição de João Bosco e Aldir Blanc.

FICOU MAIS FÁCIL SER COMUNISTA

Até pouco tempo atrás, para uma pessoa tornar-se comunista dava um trabalho enorme. Primeiro, ela precisava conhecer a fundo o que é de fato o capitalismo. Entender o modo de produção dentro do sistema capitalista e a estruturação social que se estabeleceu a partir da sua adoção. Saber das razões de existir a divisão das pessoas em distintas classes sociais. Perceber que para um grupo pequeno se tornar cada vez mais rico é sempre necessário que outro, muito maior, trabalhe por ele e viva com o mínimo suficiente para sobreviver. E se dar conta de que o ascender dentro desta estratificação social se dá de forma rara e ilusória, servindo mais como exemplo estimulador, uma esperança acomodativa.

Através de muita leitura e estudo o comunista precisava se apropriar de conhecimentos específicos, ligados à economia e à sociologia. Tinha que identificar conceitos como mais valia, exército de mão de obra de reserva e outros tantos que só se tornam óbvios depois de assimilados pelo exercício da leitura e pela observação de exemplos vivos. Ele tinha que ler diversas obras, em especial O Manifesto Comunista escrito por Karl Marx, juntamente com Friedrich Engels, em 1848. Também era muito importante conhecer um outro livro de Marx: O Capital (1867). Se o primeiro pode ser considerado como a obra fundadora e um dos tratados políticos de maior influência na história mundial, o segundo é uma espécie de compilação de várias obras do autor onde está a teoria marxista propriamente dita.

Sendo muito básico na explicação, o comunismo – palavra derivada do latim communis, aquilo que é de todos – se trata de uma ideologia que resulta em movimento filosófico, político, social e econômico. Ele visa o estabelecimento de uma ordem socioeconômica que seja estruturada em ideias de igualdade, no reconhecimento e no respeito às diferenças entre as pessoas. A frase célebre “a cada um conforme suas necessidades, de cada um de acordo com suas possibilidades” talvez resulte em um melhor entendimento da proposta. Uma sociedade, portanto, que não tenha distinção entre classes.

A verdade é que se apropriar de qualquer conhecimento exige um mínimo de esforço intelectual. Não se deveria chamar alguém de comunista sem que se saiba o que isso é de fato. E também se faz necessário entender que não há qualquer razão para tal expressão ser pejorativa. Ou pelo menos não deveria haver. Acusar alguém pela sua escolha ideológica em política e economia é tão absurdo quanto se referir desse modo a quem professa uma religião diferente da nossa ou torce para um clube que não seja nosso preferido. Mas a extrema-direita ensinou e boa parte do povo, mesmo sem entender a razão, passou a gritar COMUNISTA querendo igualar esse ao grito de leproso, feito em passado vergonhoso. O termo se tornou um estigma. A estupidez equivale a sair nas ruas apontando BUDISTA, por exemplo, como se todos necessariamente devessem ser cristãos. Vociferando um “morra COLORADO”, como se todos sem exceção devessem ser gremistas. Mas, enfim, não deve existir surpresa, uma vez que intolerância talvez seja a marca maior desse grupo.

Voltando ao que digo no título, está ficando cada vez mais fácil ser comunista aqui no Brasil. E isso graças a um incansável trabalho de Bolsonaro e seus seguidores. Para que tanta leitura? O próprio presidente se orgulha de não ser alguém afeito aos livros. Que história é essa de querer pensar? Uma capacidade limítrofe para estabelecer um raciocínio raso é mais do que suficiente. O negócio é simplificar isso daí, talquei? Então, vamos lá:

É a favor da ciência. Comunista! Prega a liberdade democrática. Comunista! Afirma que a Terra é uma esfera. Comunista! Acredita na eficácia das vacinas. Comunista! Dá aulas numa universidade pública. Comunista! Estuda numa universidade pública. Comunista e maconheiro! Usa camiseta vermelha. Comunista! Afirma que houve uma ditadura militar no Brasil. Comunista! É contra uma nova intervenção militar. Comunista! Entende que a Justiça deva ser respeitada. Comunista! Acha absurdo o incentivo ao armamento da população civil. Comunista! Defende uma educação inclusiva. Comunista! Acredita que podem existir outros arranjos familiares, além da chamada família tradicional. Comunista! É contra o desmatamento e se preocupa com a segurança alimentar dos menos assistidos. Comunista! Se dedica à música e outras artes. Comunista e vagabundo!

Eu poderia seguir adicionando itens nessa lista. Mas os que estão nela já ilustram suficientemente o que estou tentando dizer. Quero também revelar que a maior parte das pessoas que eu conheço e com as quais me relaciono se enquadram em vários dos exemplos. São todas comunistas, portanto, mesmo que muitas delas jamais tenham se dado conta disso. O que significa, pelo menos, que eu estou bem acompanhado.

11.10.2021

O fantasma assusta quem pouco ou nada sabe

No áudio abaixo, a música Igualdade, de Júlio Vibe.

Outro bônus: um trecho do filme A Voz Adormecida, do diretor Benito Zambrano. Ele mostra a crueldade do regime fascista de Franco, na Espanha. A ditadura foi instaurada também graças ao apoio da Igreja Católica, logo após a Guerra Civil Espanhola – no Brasil o fascismo também conta com um “braço religioso”, representado especialmente pelos evangélicos. O longa é intenso e mostra a resistência das mulheres guerrilheiras. O diretor focou sobretudo no sofrimento humano, mostrando a dor da perda e da separação, o terror trazido pelo autoritarismo e mostrou pessoas que eram capazes de dar suas vidas na luta por um mundo mais justo.