BABACAS E BABAQUICES

A palavra babaca tem uma conotação que provavelmente todo mundo entenda. O que existe são dúvidas quanto à origem da expressão. Há quem diga que vem do latim baburrus, que significaria tolo, palerma. Outros acreditam que é apenas uma forma reduzida de babaquara, que em tupi mbae’be kwa’a ara é “aquele que nada sabe”. E uma terceira corrente assegura que surgiu direto no português mesmo, sendo uma simples corruptela de basbaque, embasbacado.

Sem que essa questão possa ser resolvida, vamos nos ater a seus vários sinônimos. E são de fato muitos: estúpido, pateta, tanso, lerdo, tonto, bobo, bocó, imbecil, lerdaço, tantã, estulto, inepto, néscio, obtuso, parvo, imbecilizado, mentecapto, pacóvio, pascácio, ignorante, apalermado, mané, vacilão e ignaro. Aqueles citados no primeiro parágrafo continuam valendo: tolo, palerma, babaquara e basbaque. E tem ainda outros que associam a característica com alguns pobres animais, como burro e asno. 

Mas, o que faz alguém merecer o adjetivo babaca e, uma vez que tenha ele devidamente apropriado, cometer babaquices? Primeiro, precisamos ressaltar que todos nós, sem exceção, fazemos bobagens na vida. Mas isso não deve – ou não deveria – nos tornar integrantes compulsórios desse grupo nada seleto. Para que se ganhe uma carteirinha de sócio permanente, tem que ser algo maior. Ir além de perder o gol feito ou dar um tiro no próprio pé. Essas duas coisas podem acontecer por simples acidente, se bem que andar armado por si só já remete para a linha limítrofe da babaquice absoluta. Tem que ser uma decisão que poderia ser evitada, mas acaba não sendo. E por escolha. Como jogar fora uma boa relação de muitos anos, acreditar em propostas mirabolantes de enriquecimento quase instantâneo, segurar um fio desencapado para ver como é mesmo a sensação de tomar um choque, desconhecer o uso da passarela e atravessar a via movimentada em plena hora do pique.

O babaca não é um inocente: é simplesmente um estúpido, o primeiro dos sinônimos que citei. Quando alertado de um perigo, daí é que vai conferir como a coisa acontece. Só toma banho em mar bravo e bem longe dos salva-vidas. O babaca era aquele que recebia em sua casa com orgulho um sorridente candidato a deputado, sabendo que ele iria voltar, sim: mas apenas dentro de quatro anos. Esse só não faz mais a mesma babaquice porque as visitas foram substituídas pelas campanhas virtuais. Não há mais o corpo-a-corpo e sim a ação de robôs, pelas vias digitais. Babacas são destinatários preferenciais das piores fake news, porque não apenas acreditam no absurdo como se encarregam, de forma voluntária, de propagar a inverdade.

Em tese, no entanto, até mesmo os babacas podem ser parcialmente recuperados, via argumentação criteriosa e paciente. Exceto aqueles que agora estão numa categoria além, de pós-babacas. Esses vão mais longe e negam evidências irrefutáveis da sua babaquice. Ele perdeu a própria mãe para a covid, por falta de vacinação, mas segue acreditando que as providências do governo federal não foram tardias e sua velhinha é que se precipitou. Provavelmente este irá (estes irão) cometer em outubro o mesmo erro que já cometeu (cometeram) em 2018. Assim, não dá sequer para sentir-se pena de nenhum destes: apenas dos demais, da parcela da população que pode embarcar sem se dar conta outra vez no mesmo trem, rumo a um destino que no fundo não queria e que não merece. E pagando caro pela passagem, se não agora logo ali adiante.

15.09.2022

O bônus de hoje é uma animação usada em campanha realizada pelo metrô da cidade de Melbourne, na Austrália. Isso foi há dez anos atrás, para alertar as pessoas no sentido de reduzir o número de mortes que vinham ocorrendo nas linhas do trem. O assunto sério foi abordado através de uma música e um vídeo mostrando formas mais inacreditáveis de se perder a vida. Foi um sucesso absoluto, houve redução nos acidentes em geral e nos fatais em particular. A campanha, assim como animação e música, fez uso do nome Dumb Ways to Die (Maneiras Estúpidas de Morrer). Veja na íntegra, a seguir.

Esse blog recomenta aos seus leitores que visitem o site https://red.org.br/

BESTA QUADRADA

Eu ainda era um menino quando fui apresentado à expressão “besta quadrada”. Numa época em que não se reconhecia a existência de bullying, nas escolas, sempre tinha alguém para se dirigir a um colega dessa forma. Evidente que eu sabia que era sinônimo de ignorante, estúpido, asno, jumento. Também era óbvio que se associava isso aos quadrúpedes. Mas, por que aquele complemento “quadrada”?

A única besta que eu conhecia era a arma aquela usada por Guilherme Tell para acertar a maçã posta na cabeça do seu filho, com uma flecha. Ele era um herói lendário do início do Século XIV, que tem sua real existência ainda hoje discutida. Teria nascido e vivido na cidade de Bürglen, no cantão de Uri, na Suíça, estando seu nome ligado à guerra que libertou o país do império austríaco. Um governador tirano de nome Hermann Gressler, que mantinha o controle sobre os locais a mando do imperador Habsburgo, determinara que em poste da praça central fosse colocado um chapéu com as cores da Áustria, que era sempre protegido por soldados armados. Todos os suíços que passavam no local tinham que fazer uma saudação respeitosa. Guilherme e seu filho pequeno não fizeram isso certa feita e foram presos.

Ele foi reconhecido pelo governador, que sabia de sua fama de exímio atirador com a besta. Então, como castigo, determinou que seu filho fosse amarrado em árvore, na mesma praça, com uma maçã sobre a cabeça. Numa distância de 50 passos, seu pai deveria disparar uma flecha e acertar a fruta. Ou isso ou o menino seria morto pelos soldados. O risco era evidente, podendo o pai matar seu próprio filho. Mas ele, apanhando duas flechas, diante da multidão que se aglomerava, fez a mira com a calma necessária e partiu a maçã ao meio. Gressler, que dissera ser apenas uma chance concedida, quis saber a razão da segunda flecha. E recebeu como resposta que, se a primeira matasse seu menino, a segunda atravessaria o coração do governador. Foi outra vez preso.

Besta é genericamente um animal de carga, usado pelos humanos como meio para transportar materiais em geral de bom peso, sobre seu dorso. Também passou a ser usada essa designação, em alguns locais, para identificar um azémola, nome dado para quadrúpede velho e sem préstimo. Essa sua incapacidade foi depois atribuída aos que não conseguiam fazer ou acertar nada, por analogia. E o “quadrada” acrescentado foi apenas a simplificação de “elevada ao quadrado”. A matemática usada para fins nada exemplares. A besta quadrada sendo a potencialização do termo burro.

Guilherme Tell conseguiu fugir da prisão e se tornou um dos líderes da luta pela independência da Suíça. Consta que acabou sendo mesmo o responsável pela morte do governador. Tudo deve ter acontecido desse modo. Ou não foi exatamente assim. Vai saber!

06.06.2022

O bônus de hoje é um trecho de peça teatral infantil apresentada pelo grupo Os Saltimbancos. O texto é de Chico Buarque, escrito a partir de originais de Sérgio Bardotti. A música O Jumento é de Luis Enriquez Bacalov.