FERTILIZANTES E NOTÍCIAS PLANTADAS

O governo Bolsonaro segue com seu fascínio com tudo aquilo que diz respeito a bovinos. Estimula o desmatamento para a ampliação da área de criação de gado no país, mesmo a floresta preservada valendo muito mais também em termos financeiros – nem vou abordar aqui todas as vantagens ambientais. Aproveita a pandemia para “passar a boiada” com projetos de aniquilação de todo o aparato de fiscalização, que já era menor do que deveria, nas áreas mais diversas. E agora vem forte com outra manada, tentando se aproveitar de uma guerra que acontece lá no extremo leste da Europa para exterminar de vez com a nossa população indígena e mais áreas preservadas. E com tudo isso ainda tem quem se sinta ofendido, quando qualquer crítica é feita a ele, tomando isso como algo pessoal. Mas enfim, não se pode exigir que todos primem pela inteligência.

Está na Câmara dos Deputados um projeto, que os governistas pretendem seja votado em regime de urgência, autorizando a mineração ilimitada em reservas indígenas. A alegação é que essas regiões são ricas em minerais que precisariam ser utilizados para a produção de fertilizantes, que não se poderia mais importar da Rússia, devido a sanções impostas àquele país, em função do conflito em curso com a Ucrânia. O conhecido “Centrão”, formado por todos aqueles deputados fisiológicos e que estão pouco se lixando para os interesses da nação brasileira, desde que os seus sejam atendidos, está em polvorosa. Há bilhões de reais em jogo e eles sabem que a fatia que lhes caberá vai ser generosa. O tal projeto, que tem enorme possibilidade de ser aprovado, autoriza inclusive que o presidente da República possa permitir direta e pessoalmente que a exploração de qualquer área seja iniciada, antes de verificação técnica, de comprovação de viabilidade econômica ou decisão judicial se houver disputa. E até mesmo se os indígenas da área foram contra. Isso “pelo bem do país”, que não poderia ter a sua produção de alimentos ameaçada.

Então, vamos relembrar aqui alguns fatos. Em abril de 2016, com Michel Temer já tendo assumido a presidência, depois do golpe contra a presidente eleita Dilma Rousseff, a Petrobrás recebeu ordem para interromper o projeto da sua Unidade de Fertilizantes 4, na região norte do Espírito Santo. Dois anos depois, ainda no período de Temer, foi descontinuado também o projeto da Unidade de Fertilizantes 5, essa em Minas Gerais. Em julho de 2019, sob comando de Bolsonaro, uma nova ordem foi dada para que a empresa abandonasse o projeto em implementação de uma unidade dedicada à produção de fertilizantes nitrogenados, no município de Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul. No mesmo ano, também com determinação exarada a partir de decisão palaciana, foi interrompida a operação de uma fábrica de fertilizantes em Sergipe. Por último, também cessaram a produção de fábrica existente na Bahia. Essa última decisão deixou o país totalmente vulnerável e dependente da importação do produto.

A imprensa tem informado, mas de um modo um tanto tímido, que o Brasil tem várias minas inativas que, se fossem postas em funcionamento outra vez, atenderiam a demanda interna SEM A NECESSIDADE de novos pontos de produção. Ou seja, mantendo as áreas de preservação que são ocupadas por povos originários. Também há estudos geológicos que apontam não serem suficientemente interessantes, em termos de volume, eventuais jazidas que existam nessas mesmas áreas. A questão é que o governo sabe disso: apenas a população está desinformada. Só que se for dada essa permissão, outros minérios também serão explorados e o volume da propina vai ser muito grande, indo além da enorme que já deve estar assegurada. Sem contar o ódio que o fascismo tem de índios – do mesmo modo que tem de negros –, que teriam acelerado o seu processo de aniquilação.

Para que não pareça ser esse um caso isolado, se pode dar vários outros exemplos da destruição proposital da estrutura que se vinha antes construindo, feita agora para atender interesses externos. Afinal, o que se pode esperar de um governante que bate continência para a bandeira de outro país? Seguindo no âmbito da Petrobrás, as refinarias estão sendo vendidas uma por uma para empresas estrangeiras, o que nos deixa cada vez mais reféns na questão energética. Também há casos que são evidentes, como a recente privatização do Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec), em Porto Alegre, uma fábrica de chips criada durante o segundo mandato de Lula, a única do setor em toda a América Latina. Ela tem a capacidade de desenvolver, projetar e fabricar semicondutores de silício, sendo seu controle estratégico para o desenvolvimento nacional. Essa questão ainda não está fechada, devendo ocorrer uma disputa judicial contra o processo. Mas estamos perdendo portos, aeroportos, entregando a Eletrobrás, já se implodiu com a indústria naval que vinha florescendo e a lista de danos segue com inúmeros outros itens.

Agora, o que também tem prosseguimento é a batalha da desinformação. Temos todos os dias notícias descaradamente plantadas na mídia, que se somam à enxurrada de fake news disparada nas redes sociais. São elas que fazem o gado acreditar que a destruição na verdade não ocorre e sim um avanço; que a corrupção acontecia antes, não existindo mais nem sinal dela atualmente. Essa história da mineração em terras indígenas ser imprescindível é apenas mais uma das tantas balelas. Pode ser a mais recente, mas na certa não será a última.

14.03.2022

O bônus de hoje é a música muito apropriada Admirável Gado Novo, de Zé Ramalho. Mas, logo depois, você também pode acompanhar uma explicação extra, muito didática e plena de informações, a respeito das razões pelas quais os combustíveis estão demasiado caros no Brasil.

DICA DE LEITURA

O TERCEIRO PRATO: notas de campo sobre o futuro da comida (Dan Barber – 480 páginas)

Ao imaginar o que estaremos comendo daqui a 35 anos, o premiado chef norte-americano Dan Barber parte de uma rica pesquisa para propor nada menos que uma revolução na maneira como produzimos e consumimos alimentos. De pequenas fazendas no interior da Europa à mesa dos mais prestigiados restaurantes do planeta, Barber apresenta neste livro experiências inovadoras que apontam o caminho para um futuro de comidas ao mesmo tempo mais sustentáveis e (ponto fundamental para o chef) saborosas. O terceiro prato defende um passo adiante nas conversas sobre comida. A desconfiança diante da agroindústria e seu uso intenso de fertilizantes químicos e pesticidas pode ter gerado um movimento importante, mas para Barber mesmo a alimentação hoje saudada como consciente é prejudicial ao meio ambiente e não produz alimentos gostosos de verdade.

A Amazon está com preço promocional para a aquisição do livro recomendado acima: de R$ 59,50 por R$ 32,59. Basta clicar sobre a imagem da capa e você será redirecionado. Comprando através desse link, o blog será comissionado.

MAMÃE FALEI BESTEIRA

O nome verdadeiro do idiota conhecido como “Mamãe Falei” é Arthur Moledo do Val, um paulistano de 35 anos que se diz empresário e que é youtuber. Ele ficou mais conhecido ao integrar o Movimento Brasil Livre (MBL), que foi relevante nas orquestradas manifestações de rua que contribuíram para o impeachment da presidente Dilma, em 2016. Dois anos depois, em 2018, foi eleito deputado estadual em São Paulo, pelo Democratas (DEM), apoiando e sendo apoiado por Jair Bolsonaro, com 478.280 votos. Perdeu apenas para Janaína Paschoal.

Em seu canal no Youtube Arthur se autodeclara pertencente à direita conservadora, defendendo ideias liberais para impressionantes mais de 2,7 milhões de inscritos. É crítico das cotas raciais, contra a reforma agrária, favorável à pena de morte, ao armamento da população e às privatizações indiscriminadas, por exemplo. Nos últimos tempos, se dedicou a realizar campanha difamatória contra o Padre Lancelotti, que realiza trabalho social com moradores de rua. Em 2020 foi candidato a prefeito da cidade de São Paulo, pelo Patriota, terminando o primeiro turno em quinto lugar, com 522.210 votos. Depois disso se transferiu para o Podemos, partido do ex-juiz Sérgio Moro, pretendendo ser o nome do partido para disputar o governo de São Paulo, em outubro deste ano.

Essa semana, retornando de uma suspeita “ajuda humanitária” que fizera ao território ucraniano – o termo ele fez questão de usar –, foi surpreendido ao descobrir que haviam se tornado públicos áudios seus, em rede social, nos quais dizia verdadeiros absurdos contra mulheres daquele país. E admitiu a autoria. Isso já está rendendo a abertura de um procedimento interno disciplinar no partido. Mas não deve parar aí: pedidos para análise do seu comportamento pela comissão de ética e posterior cassação, estão sendo encaminhados. Isso porque as coisas mais leves que ele disse foram que as ucranianas eram mulheres fáceis por serem pobres, recomendando a seus amigos que fizessem “turismo sexual” naquele país, o que ele próprio garantiu que iria fazer, tão logo pudesse retornar. Outras declarações, prefiro nem reproduzir aqui, pelo baixo nível, pela postura rasa, machista e misógina. Quem tiver estômago, que procure na internet. Estão todas lá.

Mas outro fato precisa ser investigado: a verdadeira razão de sua visita ao país. Grupos neonazistas brasileiros, que estão se multiplicando em especial nas regiões sul e sudeste, estão envolvidos com milícias ultranacionalistas ucranianas, desde 2016. Matérias publicadas no início de dezembro daquele ano, por diversos órgãos de imprensa, dão conta de investigação da polícia gaúcha contra um grupo que estaria recrutando simpatizantes da causa para que fossem lutar na Ucrânia. Isso acontecia na região das províncias de Donetsk e Luhansk, que concentra historicamente população ligada à Rússia, por adoção do mesmo idioma, costumes e posições políticas. Em função dessa diferença ideológica, esses grupos cometiam uma série de crimes, como sequestros, estupros e morte de mulheres e crianças. Na ONU se acumularam centenas de denúncias, até que os russos perderam a paciência, reagiram e auxiliaram com armas e apoio logístico. Então toda essa área, que é conhecida como Donbass, foi dominada pelos separatistas. Mesmo assim as milícias continuaram agindo na clandestinidade, claro que com muito menor audácia e muito maior risco.

Em manifestações bolsonaristas a quarta bandeira que mais aparecia era uma usada pela ultra direita ucraniana. Perdia para a brasileira, óbvio; depois para a dos EUA, aquela para a qual o presidente eleito bateu continência, no caso mais vergonhoso de submissão da nossa história; e para a de Israel. Depois vinha essa, em função das ligações e apoio mútuo entre neonazistas dos dois países. Ao invés das cores tradicionais azul e amarela, ela é rubro-negra com um tridente no seu centro. Era usada pelos cossacos nas lutas que travaram no Século XVI, segundo informou a embaixada ucraniana em Brasília. Agora ela foi adotada pelo Pravyi Sektor (Setor Direito), organização paramilitar que virou partido político de extrema-direita na Ucrânia, a partir de 2013. O grupo tem raízes antigas e apoiou Hitler quando ele invadiu seu próprio país.

Ao que se saiba, Arthur Mamãe Falei não levou recurso algum para auxiliar a nação em guerra. Também não buscou nenhum brasileiro que estivesse tentando retornar, nem prestou sequer solidariedade para com quaisquer refugiados. Teria ido com recursos próprios ou públicos? E fazer exatamente o quê? Isso precisa ser respondido, sendo obrigação das nossas autoridades o esclarecimento. Porque é hora de se dar um basta para tanta vergonha que estamos passando, também no exterior, nos últimos anos. O Brasil não merece isso, nós brasileiros não merecemos isso. E as mulheres ucranianas precisam receber um pedido formal de desculpas, com todos nós torcendo para que fique claro que essa pessoa desprezível não representa nosso país e nossa gente.

06.03.2022

A bandeira do Pravyi Sektor (Setor Direito), partido político da extrema-direita e organização paramilitar ucraniana,
era presença constante nas manifestações promovidas por bolsonaristas.
O homem que está com a bandeira do Pravyi Sektor nas costas em ato pró Bolsonaro é um
brasileiro que treina milicianos e paramilitares.

O bônus de hoje é a música ucraniana Kukushka (Cuco), em versão de Daria Volosevich. Ela foi produzida em função dos conflitos ocorridos em Donbass. A crise política vinha desde 2013, com centenas de assassinatos de pessoas que discordavam das decisões do governo central de Kiev, a imensa maioria morta por milicianos de extrema-direita, boa parte deles estrangeiros. Em 2014 o conflito se generalizou, transformado em guerra civil. Cerca de 10.500 pessoas foram mortas na região, que terminou recebendo apoio da Rússia para se tornar independente.