DIFÍCEIS DESPEDIDAS

Em um dia qualquer de um verão que não lembro qual foi, eu dirigia pela BR 290 Freeway em direção às praias do litoral gaúcho. Pouco adiante na minha frente um veículo havia saído da pista e capotado. A família que o ocupava estava pedindo ajuda nas margens da rodovia e eu parei. Levei todos para um hospital em Osório – não sei se aquele município tinha ou tem mais de um –, dirigindo o mais rápido que eu podia. Ao meu lado sentou o homem que conduzia o carro, com seu sobrinho de dez anos no colo. E o menino não estava nada bem. No banco de trás, a mãe segurava outra criança, uma menininha de pouco mais de um ano, com o braço quebrado, ao lado da avó dos pequenos. Lá pelas tantas o menino teve um último estertor e a cabeça pendeu sobre meu braço direito. Eu e o homem vimos que ele havia morrido. A mãe deu um pulo, querendo saber porque o filho havia ficado imóvel e parado de gemer. Desmaiou, dissemos nós.

No hospital a morte foi confirmada. Mas eu nem presenciei o momento doloroso da família. Estava prestando depoimento para a polícia, em outro setor. Era preciso ficar claro que eu não tivera envolvimento algum com o acidente. Cheguei muito tarde na praia, onde minha esposa e a filha pequena me aguardavam. O carro sujo de sangue e eu arrasado, psicologicamente. Durante muito tempo ficaram aquelas dúvidas, talvez normais. Fui para o lugar certo? Não poderia ter abusado um pouco mais da velocidade, que garanto era excessiva? Por que justo nessas horas não surge uma viatura da Polícia Rodoviária, para orientar e servir como “batedora”? Importante salientar que na época não existiam os telefones celulares, não se tendo como pedir ajuda alguma, nem avisar familiares sobre razões de atraso.

Aquela não foi a única pessoa que eu vi morrer na minha vida. Houve, por exemplo, um vizinho da minha avó que estava fazendo uma solda, no terreno ao lado, quando o cilindro explodiu. O corpo dele foi arremessado por cima da cerca e eu, que estava por lá, cheguei instantes depois. Não é nada agradável ver a morte de perto, posso garantir. Mas, evidente que nenhum sofrimento foi maior do que presenciar o falecimento do meu próprio filho, esse vitimado por uma doença incurável, com apenas três anos e meio. Ele foi embora de mãos dadas comigo e com a mãe dele. Essa semana essa despedida completou mais um ano. O meu menino – assim é que ainda o vejo – seria um homem hoje em dia. Mesmo assim, tantos anos depois, a ferida ainda sangra em alguns momentos. E são as lembranças, mesmo as boas, que têm esse poder de abrir outra e outra e outra vez o mesmo corte profundo. A memória é um looping eterno.

Importante admitir que, no caso do meu filho, também esse fantasma da dúvida, semelhante ao do menino do carro, comparece vez por outra. Será que fiz mesmo tudo o que poderia ter feito? Haveria alguma terapia alternativa que eu não tenha buscado? Teria o diagnóstico sido feito tarde demais? E tem todas aquelas fases que a psicologia explica bem, de negação, revolta, etc., bem semelhante quando a doença é com a pessoa mesmo. Por que teve que ser com ele? A aceitação sem dúvida é a última etapa. Essa demora e acho que nunca é de fato definitiva.

Eu teria feito qualquer coisa para o Bolívar não ter passado por tudo o que passou naqueles poucos anos de existência. Do mesmo modo que, hoje em dia, daria de bom grado minha vida em troca da saúde e da felicidade da irmã dele, a Bibiana. Por isso me assusta muito o relato da existência de pais que nada fazem por seus filhos, que negam carinho, assistência, agasalho, educação e até presença. Me revolta saber que muitos agridem e até matam. E me choca aqueles que os negligenciam. Um exemplo é a não vacinação, que agora virou uma praga extra, filha da ignorância. É inaceitável que um pai, que deve ser zeloso por obrigação e por amor, deixe uma criança sem a imunidade que a ciência propicia. Ser pai, assim como ser mãe, é muito mais do que oportunizar o nascimento: também é assegurar as melhores condições de vida que possa oferecer.

Quem é pai mesmo tem saudade. E chora. Se alegra até imaginando o que jamais fez e nunca poderá fazer. Não levei o Bolívar para a escola; nem para a Arena ver o Grêmio. Não o ouvi sobre a primeira namorada; jamais conversamos sobre suas dúvidas; não esclareci suas curiosidades. Ele não aprendeu comigo a andar de bicicleta nem a dirigir. As angústias da escolha profissional, a tensão pré-vestibular, as suas conquistas, nada disso eu pude contemplar. Eu fui privado de dar meus palpites furados e também aqueles conselhos que, mesmo sendo apropriados, em geral os filhos não ouvem. Ele nunca bebeu demais, nem uma vez sequer. E o pior de tudo, que diabos, não poderia na infância ter tido catapora ou rubéola, ao invés de câncer? Para essa pergunta eu tenho resposta: não existe vacina para a doença mais grave ou essa também teria sido aplicada nele.

Talvez tenha algo errado comigo: meu pai, meu filho e meu irmão foram para o outro lado, nessa ordem. Só eu fiquei por aqui, com essa triste incumbência de ser o último a assinar Saldanha nesse ramo da família. Condenado a sofrer de saudade. Minha filha diz que é apenas o fato de eu ter a Lua em Peixes. Sei lá se esse aspecto astrológico teria mesmo toda essa importância e influência, mas não ouso duvidar. E isso me lembra que também não tivemos tempo de fazer sequer uma pescaria. Ou empinar uma pipa na beira da praia. Como eu queria ter sido testemunha da vida dele e não da morte.

25.01.2023

Bolívar Lechmann Saldanha

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A Lógica da Criação, de Oswaldo Montenegro

DIA DE TÍTULOS

Hoje à noite, se prevalecer a lógica – mesmo ela tendo pouco compromisso de comparecer, quando se trata de futebol –, o Grêmio deverá vencer mais um jogo e conquistar mais uma taça para a sua Sala de Troféus. Campeão gaúcho do ano passado, quando alcançou a quinta conquista em série, no primeiro semestre, ele enfrentará o São Luiz na disputa da Recopa Gaúcha. Isso porque o time de Ijuí foi o campeão, no segundo semestre, da Copa FGF. Evidente que existe uma considerável disparidade técnica entre as equipes e isso, portanto, permite apontar a existência de favoritismo. Ainda mais considerando a euforia que tem tomado conta da torcida tricolor, com a reformulação da equipe para a temporada, em especial com a contratação do uruguaio Luis Suárez.

Vou estar na Arena, de corpo presente. Meu coração, no entanto, vai ficar dividido. Não porque eu esteja pensando no adversário, que sei merecer respeito, mas com o qual não tenho quaisquer vínculos de ordem afetiva. A razão é que hoje também é o aniversário da minha filha, uma grande companheira de arquibancadas no Olímpico e de cadeiras na Arena. Mas ela está longe, morando em outro Estado, e não poderá estar comigo na torcida, logo mais.

Mas são muitas as passagens inesquecíveis dessa parceria, na qual dividimos alegrias e tristezas, multiplicando sempre a paixão em comum pelo tricolor. Ela muito pequena dormiu nos meus braços em pleno jogo decisivo contra os paraguaios do Olímpia, em uma Libertadores. Quando o pessoal que estava sentado na minha frente levantava, ficava difícil ver o que estava ocorrendo em campo, mas valeu muito a pena. Outra vez, em final de Copa do Brasil contra o Corinthians, não aceitou que eu a levasse ao banheiro – e a sua autonomia, como iria ficar? –, se perdendo na volta. Um segredo guardado por anos, para que a mãe não proibisse ir a outros jogos.

Teve ainda a ocasião na qual, no final de um jogo que nem lembro qual foi, ela simplesmente colocou seu dedo no nariz de um “corneteiro”, que havia passado todo o tempo criticando um jogador nosso. E justo o que fez o gol da vitória, ao apagar das luzes. O cara era imenso e estava acompanhado, mas mesmo eu estando resignado com a surra que iria levar ao defendê-la, ele ficou tão surpreso que não conseguiu reagir. Nem ao gesto, nem ao fato da senhora sua mãe ter também sido homenageada por ela. Também perdemos a audição por alguns momentos, com ela trocada por um zumbido mais do que desagradável, quando algum imbecil jogou uma bomba muito perto da gente, na fila de entrada para a final da Libertadores contra o Boca Juniors.

Ela estava comigo no Grenal dos 5×0. E no título da Copa do Brasil de 2016, frente ao Atlético Mineiro. Sofremos diante da televisão na Batalha dos Aflitos; e secamos juntos, felizmente com sucesso, nosso “coirmão” no enfrentamento contra o Mazembe. Corajosa, ela me representou uniformizada e tudo, espremida num cantinho do Pacaembu, em virada histórica contra o Palmeiras. E veio de São Paulo, com viagens de um único propósito, para me acompanhar contra Botafogo, Barcelona (Guayaquil) e Lanús, na reta final da campanha vitoriosa da Liberta de 2017. Estivemos nas ruas, empunhando bandeiras, em tantos títulos gaúchos que somamos. Também saímos cabisbaixos algumas vezes, tristes com algum revés, esperado ou não. Nessas horas, a companhia de um diminuía a dor do outro, do mesmo modo que também multiplicava a alegria quando das vitórias.

Enfim, hoje é o dia do aniversário do meu título de pai. Muito mais valioso que um de Brasileirão, Libertadores ou Mundial. Por mais que eu deseje todos esses outros. E ela também, lógico. Ainda bem que não se é obrigado a escolher entre dois amores distintos. Até porque, se isso um dia viesse a ocorrer, seria a única razão que me levaria a abandonar o Grêmio.

17.01.2023

Solon e Bibiana, em um dos tantos jogos na Arena

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Hino do Grêmio, com orquestra e coral