CLUBES DE DITADORES

Não existe documentação que comprove isso, mas consta que Adolf Hitler era torcedor do Schalke 04, time alemão da cidade de Gelsenkirchen, que fica no Vale do Ruhr. Talvez porque em propagandas do Terceiro Reich a imagem daquele time foi usada muitas vezes. O que também pode ter sido ocasionado pelo simples fato de o clube ter conquistado seis títulos nacionais durante a vigência do governo nazista – difícil saber o que foi causa e o que foi consequência. Entretanto, outro fator certamente preponderante é que ele fora fundado por um grupo de mineiros germânicos, legítimos arianos, ao contrário do Borussia Dortmund, por exemplo, que tinha raízes judaicas. O italiano Benito Mussolini, por sua vez, era fanático pelo Bologna, que por uma incrível “coincidência” também levantou seis taças nacionais durante o domínio fascista. Mas depois ele adotou a Lazio como sua segunda equipe, passando inclusive a frequentar o estádio em Roma.

Um terceiro governante extremista, o generalíssimo Francisco Franco, que ficou no poder por 40 anos na Espanha, levava o Real Madrid como seu time do coração, mesmo muita gente duvidando que ele tivesse um. E falo do coração, lógico. Ele teve envolvimento direto inclusive na contratação do craque argentino Alfredo di Stéfano, assim como na construção do estádio Santiago Bernabéu. Foi nessa época que o clube passou a empilhar taças, com os árbitros tendo uma dificuldade estranha em apitar suas partidas com a devida e necessária isenção. O Atlético de Madrid, por sua vez, sempre ocupou o lado oposto no espectro político, sendo os seus torcedores debochadamente chamados de “colchoneros” pelos madridistas, devido ao fato de sua camisa tradicional ter listras na vertical em vermelho e branco. É que o governo distribuía para a população pobre da capital espanhola, naquela época, colchões que tinham estampa semelhante, também listrada e com as mesmas cores. Vizinho de Franco e igualmente ditador por décadas, o português Antônio de Oliveira Salazar era torcedor do Benfica. Mesmo sendo muito mais discreto e aparentando não ter ligações mais profundas com o futebol, ele contribuiu bastante para que o clube alcançasse destaque na década de 1960.

O general Augusto Pinochet, que liderou golpe militar no Chile e chegou ao poder com o assassinato do presidente eleito Salvador Allende, era torcedor do pequeno Santiago Wanderers. Mas, na tentativa de dar algum toque popular ao seu governo, “adotou” estrategicamente o Colo-Colo como uma espécie de time oficial. Houve inclusive o repasse sistemático de recursos e outros tantos incentivos ao clube. O que rendeu ao ditador o título de presidente honorário, em 1984. Tal honraria foi cancelada em 2015, quando os sócios decidiram destituí-lo. E no Brasil, seguindo uma cartilha que recomendava “pão e circo”, os militares passaram a indicar presidente e outros cargos diretivos da antiga Confederação Brasileira de Desportos, a CBD. Não houve um clube único sendo privilegiado aqui porque existia um rodízio entre os ocupantes da cadeira presidencial. Ou seja, ao invés de um ditador se perpetuando no cargo, tivemos vários, o que aplacava as ambições pessoais e ao mesmo tempo dava uma falsa – mesmo que ridícula – aparência de normalidade.

O slogan “Onde a Arena vai mal, time no Nacional” era repetido por boa parte da imprensa e também pela torcida mais pensante, mesmo que isso tivesse que ser feito às vezes de forma discreta. A razão é que quanto mais caía a popularidade da ditadura, mais aumentava o número de participantes do campeonato que era disputado, fora os estaduais. Em 1979 o recorde foi batido, com 94 equipes. Mesmo assim, o formulismo permitiu que o campeão fosse apontado após ter disputado apenas 23 jogos. E aconteceram situações absurdas, como Santos, Corinthians e São Paulo não aceitando fazer parte do espetáculo circense armado – foram substituídos por Francana, Comercial e Quinze de Jaú – e com o Atlético Mineiro desistindo em meio à competição. Então, restaram postulantes clubes “gigantes”, como Colatina, Dom Bosco, Fast, Guará, Itabuna, Leônico, Potiguar e Rio Negro. Tinha até um clube com o nome CEOV, de Várzea Grande. O Internacional, de Porto Alegre, terminou invicto depois de superar algumas dessas potências, como Rio Branco, Desportiva, Caldense e Goytacaz. O Palmeiras, com sete pontos ganhos, terminou em quarto. O Novo Hamburgo somou oito e ficou na posição 74. Até hoje temos matemáticos fazendo cálculos para tentar entender como foi aquilo.

Voltando ao nosso tema central, o brasileiro que sonha ser ditador é um caso atípico. Morava no Rio de Janeiro antes deste período em Brasília, afirma torcer para o Palmeiras, mas veste qualquer camiseta que lhe alcançam. Já foram mais de 15 e o número com certeza irá continuar crescendo. Faz parte de um projeto de marketing para parecer um homem simples, do povo. Assim como usar chinelos e um agasalho bem pobrinho em algumas aparições públicas; ou comer cachorro quente na rua, se babando. E quanto às eleições de outubro, elas vão parecer muito um campeonato de futebol. Será por pontos corridos – os votos –, talvez tenha dois turnos e a imensa maioria dos brasileiros estará torcendo ardorosamente para que não ocorra um bicampeonato. E nem uma decisão final no tapetão.

20.03.2022

Seleção Italiana de 1934 e a saudação fascista, com Mussolini no poder

O bônus de hoje é duplo outra vez. Primeiro temos uma apresentação ao vivo do grupo mineiro Skank com sua conhecida Uma Partida de Futebol. Depois, num ritmo bem diverso da alegria da primeira música, Tributo a Mané Garrincha, de Moacir Franco, em áudio. O maior ídolo da história do Botafogo e segundo maior do futebol brasileiro também é homenageado com a sugestão de leitura feita hoje. Estrela Solitária é um livro que não se pode deixar de ler.

Áudio de Tributo a Mané Garrincha, de Moacir Franco

DICA DE LEITURA

ESTRELA SOLITÁRIA: um brasileiro chamado Garrincha

(Ruy Castro – 536 páginas)

Garrincha fez o mundo rir. Agora ele fará você chorar. Estrela solitária – Mm brasileiro chamado Garrincha conta a dramática história de um ídolo amado por uma mulher e por um povo inteiro, mas que acabou destruído por um inimigo implacável. Esta é mais que uma espantosa biografia. É um livro cheio de revelações até para os que julgavam conhecer Garrincha.

Para os brasileiros de hoje, que só conhecem o seu mito, Estrela Solitária será lido como um romance de paixão e desventura, tendo como cenário o Rio e o Brasil dos anos 50 e 60. Só que os personagens e os fatos são reais. Para descrever essa trajetória, Ruy Castro fez mais de 500 entrevistas com 170 pessoas. Garrincha renasce como um herói tragicamente humano e a obra ganhou o Prêmio Jabuti 1996 de Melhor Ensaio e Biografia. Vale muito a pena ler.

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AGORA A DIREITA PRECISA DO IMPEACHMENT

O quadro está mudando e Bolsonaro não tem mais apenas gravata ao redor do seu pescoço. A corda está posta, o nó vem sendo apertado e ser dependurado é uma questão de tempo. Mas a vitória maior, quando do seu empurrãozinho final, não será da esquerda, mesmo com essa denunciando sua incompetência, despreparo, envolvimento com milícias e corrupção desde quando era ainda um candidato pouco acreditado. Quem também deseja seu afastamento agora e certamente lucrará muito com isso, se vier a ocorrer, é a direita. E justamente em função dela estar “aderindo à causa”, se torna cada vez mais provável que o Palácio do Planalto seja desocupado pelo atual inquilino bem antes do que ele gostaria e esperava – nunca escondeu sua quase certeza de reeleição.

A receita que permitiu a improvável vitória de um candidato totalmente inexpressivo no panorama político, em 2018, teve como ingredientes principais o antipetismo gestado com forte apoio da imprensa e o engajamento de grupos que encontraram em Bolsonaro afinal uma chance real de terem voz: o “baixo clero”, na Câmara dos Deputados; evangélicos que já trabalhavam duro tentando ocupar o lugar até então cativo dos católicos, nos corações e mentes dos brasileiros; setores das Forças Armadas, saudosistas da ditadura militar instaurada em 1964; e empresários periféricos que precisavam de benesses do poder público para que seus negócios pudessem se expandir. Isso tudo, evidentemente, depois de terem tirado de forma arbitrária a possibilidade de Lula concorrer.

Nesse caldeirão estava servido o caldo para proliferarem sentimentos, posturas e preconceitos como homofobia, racismo, xenofobia e outras podridões fascistas que antes estavam escondidas. Com o mau cheiro, os ratos saíram do porão. Vieram famintos e prontos para roer e devorar as empresas estatais, a educação básica, a cultura, os serviços públicos, universidades, meio ambiente, centros de pesquisa, programas sociais e tudo mais que havia sido construído em anos de lento progresso, com conquistas da população que levaram a melhores condições de vida. Um preço muito alto, portanto, para uma nação que começava a se acostumar a ter identidade e autoestima, esperança e futuro. Mesmo assim, setores não extremistas da direita acreditavam que até poderia ser pago – não seria por eles –, se fosse para “recolocar as coisas no devido lugar”. Estava sendo insuportável para a elite, por exemplo, ver seus filhos convivendo com pobres no ensino superior; dividir lugares nos aviões; ter mais dificuldade para conseguir serviçais; e ver a desigualdade social reduzida, mesmo que nem tanto assim. Isso era intolerável para a sua índole, sua visão egoísta de mundo. Era preciso tirar a esquerda, apesar dela ser light, do comando do país. O primeiro passo para tanto já havia sido dado com o afastamento de Dilma, em 2016. Mas isso precisava ser consolidado dois anos depois, com uma eleição que tivesse a melhor aparência possível de democrática.

Bancos, grandes empresas, agronegócio e mineradoras, entre outros setores, ampliariam ainda mais seus ganhos quase pornográficos e, acreditavam eles, Bolsonaro era um “inocente útil”. Entretanto, mesmo tardiamente, estão se dando conta de que não existe a inocência que acreditavam. Que o seu “boneco de ventríloquo” nunca pretendeu sair do colo, exceto se fosse para ocupar a cadeira do seu dono. Notaram que o número cada vez maior de militares em funções civis no governo federal não era um indício muito bom; que a facilidade para aquisição e porte de armas estava favorecendo fortemente os grupos milicianos desde sempre íntimos da “famíglia”; que a postura proposta para as nossas relações internacionais estava reduzindo o mercado externo; que a suposta corrupção antes denunciada era fichinha perto da atual; que incêndios e desmatamento estavam superando índices tolerados; que as fake news usadas como arma na eleição passada prosseguiram ameaçando todos, agora indistintamente.

Como se tudo isso não bastasse, a condução intencionalmente desastrosa da saúde pública no combate à pandemia está deixando um rastro de mortos que cresce sem parar. O peso dos corpos de mais de meio milhão de brasileiros que perderam a vida, um número que segue crescendo todos os dias em níveis alarmantes, situação agora agravada pela descoberta da tentativa de membros do governo lucrarem ilegalmente com a compra de vacinas, parece ser a gota d’água. Isso foi ainda pior do que a teimosia anterior de indicar o uso de medicação ineficaz. Portanto, chega a hora de parar e pensar um pouco.

A Globo começou a bater em Bolsonaro quase como fazia com Lula, anteriormente. Cresce o número de pessoas nas manifestações de rua contra o governo, que vão sendo feitas com frequência maior, em cada vez mais cidades. E a justiça, sem ter mais como sustentar a farsa levada a termo pelo ex-juiz Sérgio Moro e pelo procurador Deltan Dallagnol, inocentou o líder maior da oposição, que está crescendo sem parar em todas as pesquisas de intenções de voto para o pleito do ano que vem, muito antes de começar a fazer campanha. Já existem indicativos concretos de vitória ainda no primeiro turno. Isso soou o último alarme.

Uma “terceira via” precisaria ser estabelecida de imediato, para ser oferecida como alternativa à polarização Bolsonaro/Lula. Mas não parece haver mais tempo de ser tirado da cartola um coelho suficientemente gordo e forte. Dória, Ciro, Mandetta, o recém-incensado Leite, assim como o midiático Hulk, nenhum desses têm peso o suficiente para subir no ringue com chances mínimas de vitória. Então, a saída seria quebrar uma das pernas de quem está na frente. Como não existem mais argumentos jurídicos para deter Lula, mas sobram para parar Bolsonaro, a saída parece estar se desenhando. Não que seja fácil fazer isso, uma vez que sua base ainda é consideravelmente grande, violenta e armada, pouco afeita a luzes e cega por um fanatismo nutrido pelo WhatsApp, o SBT e a Record. Mas, com ele fora da disputa, seria mais fácil fazer campanha contra o “radicalismo” da esquerda, soprar as brasas do antipetismo para ver se volta o fogo e, depois, correr para o abraço. Tirando o bode da sala, a volta dos privatizadores entreguistas do PSDB ou dos fisiológicos do MDB pode parecer algo perfeito, aos olhos desatentos de boa parte do povo. Para os proponentes seria a troca do gado bovino por ovelhas. E isso pode colar, ainda mais se os candidatos forem elegantes, tiverem todos os dedos em ambas as mãos, algum diploma pendurado na parede, usarem bons perfumes e raramente passarem por destemperos verbais como os que caracterizam esse atual acidente da nossa história.

07.07.2021

Manifestações em São Paulo, 19 de junho de 2021. Foto de Paulo Pinto / AFP

No bônus de hoje, nada melhor do que a genialidade de Chico Buarque e sua facilidade com as palavras. Vai Passar nos conforta, com seu duplo sentido: a escola na avenida e também lembrando que não há mal que dure para sempre. Ele, um compositor atacado pelo ódio reinante, em samba anterior ao momento atual sendo mesmo assim muito pertinente. Um gênero alegre como os brasileiros vão voltar a ser, seja com as eleições do ano que vem ou, quem sabe, antes delas.