AS AMIZADES VERDADEIRAS E AS TÓXICAS

Poucas coisas têm maior relevância na vida de qualquer pessoa do que boas e sinceras amizades. Um amigo é um familiar não compulsório, mas escolhido. Muitas vezes é alguém que está conosco desde a infância. Pode ser o vizinho, o colega de escola, o conhecido da praia. A origem da amizade pouco importa, nem há quanto tempo a vivenciamos, mas o relacionamento em si diz tudo. Amigo é o companheiro nas mesas dos bares, mas também na sobriedade. O parceiro no estádio ou a vítima preferencial das saudáveis flautas esportivas. É o necessário contraponto para nossas ideias e decisões, permitindo que se faça escolhas fundamentadas. É o depositário dos nossos segredos e geralmente o primeiro a saber de muitos dos nossos sonhos e dos nossos desejos. A pessoa que te abraça nas vitórias e te consola nas derrotas, previsíveis ou não. A que divide momentos de alegria e não te abandona nas maiores tristezas, porque a vida, como qualquer moeda, sempre tem esses dois lados.

Claro que todas essas observações acima, o viver cada um desses tão diferentes momentos, aponta para uma amizade verdadeira. Do tipo aquele que é baseado na equivalência real, se não de condições pessoais certamente em entendimento e perspectivas. Uma boa amizade é uma via de mão dupla, sem trânsito interrompido, mesmo quando ocorrem pequenos acidentes. Amizade assim não tem idade, gênero, posição social. Tem é muito respeito e querer bem.

Mas nem todas as amizades são assim. Existem as que são apenas supostas e jamais foram reais. As amizades tóxicas. Uma delas é assim quando não equilibrada, quando apenas uma das duas pessoas sente-se bem ou leva vantagem. Quando uma delas vive sendo colocada para baixo, onde há insegurança e culpa, onde ocorre tentativa de controle, o que está se estabelecendo é uma amizade tóxica. O que, aliás, também se vê em muitos casamentos. Essas relações chamam a atenção para eventuais inseguranças do outro. Desencorajam a busca da realização de sonhos e conquistas. Acentuam culpas; são manipuladoras. E dessas, convenhamos, é preciso fugir. O problema é que não raras vezes nos sentimos presos a esse tipo de relação. E prisão é perda de autonomia, redução de nossas potencialidades. Ou seja, algo que não tem relação alguma com aquele sentimento fraterno que une quem de fato se quer bem.

É importante salientar que estou escrevendo o tempo todo amigO, assim mesmo, sempre no masculino, apenas para não ter que colocar em cada uma das muitas citações que estou fazendo um “a” entre parêntesis. Ficaria ruim de ler, abalaria a fluidez do texto. Mas vale para qualquer gênero as referências que faço. E também para qualquer idade. Isso tudo é indiferente. Agora, uma diferença interessante que existe entre as amizades verdadeiras e as tóxicas é que as primeiras sobrevivem à distância e ao tempo. As outras, precisam de presença, de proximidade. Porque são uma espécie de cabresto. O falso amigo te usa, projeta em ti características que são dele e isso pode te confundir, transmitir incertezas e trazer insegurança. O amigo tóxico quer seu tempo, sua energia, sua atenção. Mas raramente oferece de volta algo equivalente. O verdadeiro tem orgulho de ti e te mostra. O falso te esconde ou, quando em público, algumas vezes te humilha, mesmo que de modo disfarçado, com uma máscara de bom humor.

A grande vantagem das amizades, em relação aos parentescos, está no fato de que mesmo sendo ideal que se tornem duradouras elas podem ser interrompidas. E devem, tão logo a pessoa perceba que está apenas vivendo um faz de conta sem graça, uma história sem possibilidade de final feliz, sofrendo uma sutil chantagem emocional. A vida é boa demais e merece ser vivida plenamente. Nós todos merecemos isso. Sermos e termos parceiros e parceiras que estejam de fato ao nosso lado. Não existe o “ligeiramente amigo”: esse é apenas um conhecido. Então, nunca se pode aceitar nada menos do que a verdade inteira de qualquer um que conosco queira dividir uma amizade. E que bom se todas as nossas forem sempre assim.

23.01.2022

O bônus musical de hoje é duplo. O primeiro clip é de Amizade Sincera, de Renato Teixeira. Depois somos brindados por Oswaldo Montenegro, com Velhos Amigos.

DONA OPORTUNIDADE

Há pessoas que passam pela vida sem ter tido um único encontro sequer com Dona Oportunidade. Têm enorme potencial para realizar e realizar-se, mas isso não acontece. Existem outras para as quais as chances caem no colo, mais facilmente do que molho de cachorro quente quando mordido de modo displicente. E há também aquelas que cavam, investem para que sejam vistas e lembradas. E me refiro a investimento na aparência – e não apenas física –, como também na “aparecência”. Umas até usam esse recurso, seu lado marqueteiro, como uma ferramenta de trabalho, com parcimônia e sem abandonar a ética. Mas existem as que apenas se tornam hábeis em estar sempre no lugar certo na hora certa. E, melhor ainda, perto das pessoas que lhes são convenientes. Para essas, a ética é apenas um estudo antigo e que caiu em desuso.

Desse grupo específico de pessoas, admito que tenho até um pouco de inveja. Mas pelos resultados, certamente não da sua postura e conduta. Essas duas eu confesso que me incomodam. O marketing pessoal é como perfume: se usado além da dose recomendada incomoda. Ao menos para quem possui nariz sensível. Acho que todos que estão me lendo, sem muito esforço, poderão lembrar de terem conhecido alguém assim. Eu mesmo cruzei com algumas pessoas notáveis nessa “arte”, ao longo da vida profissional. Não apenas nela, mas principalmente. Uma destas pessoas era inacreditável: estávamos em uma grande organização e ela sobrevoava pelos setores como se fosse um urubu, mas ao contrário: fugia de quem adivinhava estar sob qualquer risco, ameaçado de “morte”. Agora, quando virava a melhor amiga de alguém, se poderia contar que esse alguém estava prestes a ser promovido. Bem informada, transbordava em elogios falsos como nota de três Reais, mas distribuídos com cuidado e pontaria rigorosa. Qualquer sucesso, ela comparecia tentando compartilhar; quaisquer erros ou fracassos, estava tão longe que era capaz de sumir do prédio. O Diabo disparando da cruz.

Com o foco apenas no aspecto profissional, porque oportunidades valem também para o campo pessoal e afetivo, por exemplo, vamos examinar alguns conceitos, antes de prosseguir. Falo de talento, sorte, sucesso e prestígio, que são todos imprecisos, pois muitas variáveis interferem no seu alcance. Além disso, aquilo que para algumas pessoas pode ser enquadrado nisso, para outras não faz sentido. Para uns, pequenas conquistas podem ser grandiosas, enquanto feitos que parecem ter esse status muitas vezes não significam grande coisa. Isso depende de respostas sobre quem, quando, como e porquê. Algo assim como os bons textos jornalísticos, que precisam esclarecer esses questionamentos.

Talento pode ser definido como uma aptidão especial, uma habilidade inata para a realização de tarefas. Mas está longe de ser um dom, sendo na maioria das vezes também algo que pode e deve ser aprimorado com o treino, a repetição e a experiência. Pode-se dizer que possuir talento é alcançar resultados mais próximos da excelência, sabendo usar técnicas com eficiência. Sorte é quando o imponderável joga a nosso favor. Ela é irmã gêmea do acaso, quando se dá algo positivo. Quando a resultante do acaso é ruim, se diz que se trata de azar. Em geral, a sorte ocorre de forma repentina e inesperada, o que a torna ainda mais indefinível. Mas, um psicólogo britânico de nome Richard Wiseman, que estudou esse fenômeno, jura que podemos sim interferir no fator sorte. Ainda não li o seu trabalho, mas estou torcendo para que ele tenha razão. Quem sabe eu finalmente não aprendo?

Nos dicionários, sucesso é apresentado como ter êxito em algo, obter resultado feliz. Mas também significa chegar ao final de uma empreitada. Ou seja, percorrer o caminho completo também é significativo. Quando dezenas de equipes disputam uma competição esportiva, todas sabem que apenas uma delas será a campeã. Mas tem sucesso quem realiza um campeonato equilibrado, dentro das suas condições. E o prestígio, que é tão ou mais desejado, se define como sendo capacidade de exercer influência, adquirir notoriedade e valor. É ligado à estima, reputação e respeito, em geral não sendo resultado de talento ou sorte, mas de algum tipo de merecimento conquistado.

Dito isso, repito que ter oportunidades é fator preponderante na vida. Até porque elas são as criadoras de ocasiões para o comparecimento de tudo aquilo que referi antes. Mostrar o talento adquirido, aproveitar a sorte que sorri, alcançar sucesso e mesmo ter prestígio, em geral são consequências de oportunidades recebidas e bem aproveitadas. Isso porque sem elas não há talento que resista, não há sorte que resolva, se torna quase impossível alcançar sucesso. E Prestígio, só assim, com maiúscula, por ser nome próprio daquele bombom da Nestlé. Entretanto, na nossa sociedade desigual e pouco humana, as oportunidades parecem vir ao mundo trazendo o nome e o endereço de alguém. Uma espécie de tele entrega, que além de tudo é paga antecipadamente no cartão de crédito cadastrado. Quem recebe é bem provável que esteja no grupo que menos necessita. E, do conforto da sua casa, talvez fique repetindo o velho discurso da meritocracia, se for no Brasil; afirmando ser um dos tantos self-made-man (ou woman), se for nos EUA.

De minha parte, quero dizer que recebi ao longo da vida algumas boas visitas de Dona Oportunidade. Mesmo não tendo sido em todas essas vezes um bom anfitrião. O que só me dei conta, infelizmente, depois dela ter ido embora. Mas, como todo esperançoso brasileiro, sigo aguardando que ela tenha de mim a mesma saudade que tenho dela. E volte a aparecer. As portas estarão sempre abertas.

15.10.2021

Oportunidades abrem portas

Um bônus especial hoje: Tente Outra Vez, música de Raul Seixas, Paulo Coelho e Marcelo Motta. O clip é antigo, com o próprio Raul cantando.