MITO NÃO, MITÔMANO SIM

Depois do discurso proferido por Jair Bolsonaro esta semana na ONU, eu finalmente entendi a verdadeira origem do seu apelido de “mito”. Não se trata de modo algum da conceituação clássica, que associa o termo com histórias de origem sagrada, com revelação primordial e modelo de conduta. Ao contrário: nesse caso específico trata-se apenas de uma contração, com o corte da palavra verdadeira, que é “mitômano”. Ou seja, seus seguidores conseguiram ser precisos na ânsia de definir esta pessoa em toda a sua essência. Mesmo tendo feito isso sem querer.

O mito surgiu pela necessidade humana de explicar nossa origem, além da formação de todas as coisas e da sua finalidade. O mito trata do poder, do divino e da natureza. Basicamente, organiza relações sociais, legitimando todo um sistema que é complexo. Indicando permissões e proibições, ele posiciona o ser humano no mundo. Sua história, mesmo que fantástica, traz em si a verdade, aquilo que pode ser visto como místico, com uma certa perspectiva religiosa.

O mitômano é um mentiroso contumaz, mas diferente do mentiroso comum. Quem apenas mente tem culpa em relação ao seu ato; tem medo de ser descoberto na sua mentira. O mitômano, não. Este tem consciência da inverdade proferida. Para ele, é rigorosamente normal esse comportamento, que vem sendo desenvolvido ao longo dos anos, se naturalizando. De tal forma que não causa qualquer remorso a ele agir assim. Esse é um componente da conduta que aponta com toda a clareza para um transtorno com forte característica de psicopatia. Ele sabe que prejudica os demais, mas não se abala com isso de modo algum. Na pior das hipóteses poderá sempre se justificar. Afinal, “quem nunca mentiu para uma namorada?”

O mito refere-se ao primordial, a todo um tempo que é fabuloso, que representa o princípio. Ele dá valor à vida. O mitômano – esse que vocês sabem muito bem quem é – está se lixando em relação a ela, ainda mais não sendo a sua e a dos seus. E vejam que esse pequeno grupo vale apenas para os “muito seus”, os muito próximos. E, mesmo assim, eles que não se arrisquem: é fácil sofrer uma desqualificação e ser afastado. O mitômano está sempre em conflito, seja interno ou com o meio. Ele faz de tudo para parecer normal, algo que nunca será. Dissimula, inventa versões para tudo e acredita piamente que é um perseguido, uma vítima. A ciência está errada, pensadores estão errados, críticos são muito mal informados ou mal intencionados, mas ele está rigorosamente certo, sempre. Toda a imprensa é inconfiável, o sistema judiciário é injusto, há uma conspiração constante no ar, assim como risco de fraudes, traidores estão à espreita e comunistas brotam dos canos de esgoto, como os ratos que são. Ele é a confiabilidade em pessoa.

Voltando ao discurso, Bolsonaro afirmou com todas as letras e sem ficar com rubor na face que com suas palavras iria mostrar a todos um país diferente daquele que a mídia mundial fazia questão de mostrar; que nos últimos dois anos não houve sequer um caso de corrupção no Brasil; que quando assumiu estávamos diante do risco de nos tornarmos socialistas; e que ele havia resgatado a confiança da população no governo. Disse ainda que fortalecera os órgãos ambientais; que as queimadas estavam diminuindo; defendeu ardorosamente o uso do inútil tratamento precoce para combater o Covid 19; que sob seu comando os direitos humanos eram respeitados; e que as manifestações de 7 de setembro haviam sido espontâneas e patrióticas. Falou mais coisas ainda, como sobre os índios, a “família tradicional” e a culpa dos governadores pelas milhares de mortes causadas pela pandemia.

Agências especializadas em aferição de notícias, com o fim de detectar a presença de fake news, tiveram diante de si um enorme problema. Ao final dos 12 minutos de duração da fala, a questão não era saber se ocorrera alguma notícia ou informação falsa: ao contrário, tinham que saber se ao menos uma das afirmações era verdadeira. O presidente que teve que comer pizza em pé, em rua de Nova Iorque, porque não era permitida a entrada em restaurantes sem estar vacinado; que deixou para trás seu Ministro da Saúde, no retorno ao Brasil, porque este havia sido descoberto como infectado e potencialmente perigoso; fazia mais uma vez jus ao apelido que recebera. Ele sem dúvida alguma é um mito, expressão cunhada pelos seus seguidores com o uso carinhoso das duas primeiras sílabas de mitômano.

25.09.2021

Pinóquio era um mentiroso contumaz

No bônus musical de hoje, Erasmo Carlos, o “Tremendão”, cantando ao vivo Pega na Mentira, uma das faixas do álbum Mulher, de 1981.

SÓ PENSAM NAQUILO

Nunca antes na história desse país tivemos um governo como o atual, com tanta gente literalmente obcecada por sexo. A julgar pelas declarações feitas pelos seus membros – no sentido de integrantes –, as reuniões privadas no Palácio do Planalto e em vários ministérios devem ser verdadeiras orgias. E eles começaram com isso muito antes das eleições. Primeiro, usando o tema como argumento absurdo contra os adversários. Para impressionar a parcela conservadora e puritana que apoiava Bolsonaro, apelaram para dois devaneios, propositalmente espalhados via fake news. Me refiro ao que chamaram de kit gay e à mamadeira de piroca. O primeiro nunca existiu e a segunda era foto de um acessório vendido em sex shop, que o candidato a presidente afirmou ser algo distribuído em creches pelo seu opositor, Fernando Haddad, quando prefeito de São Paulo.

A obsessão foi muito além dessa manobra eleitoreira sem ética. Começo com algumas das muitas pirações da ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves. Ela, que fez questão de contar que havia sofrido abuso quando criança, tornando público algo íntimo. Fez isso para introduzir – no sentido de iniciar – relato de que pensara em se suicidar por conta da situação, o que de fato é algo muito sério e merece todo nosso respeito e consideração. Para fazer, jura que subiu numa goiabeira, mas não levou corda alguma e sim veneno. Sinceramente, não sei que produto é esse que não funciona ao nível do chão. Mas lá em cima viu Jesus e desistiu do ato insano. Até aí tudo bem, pois a conotação tem mais sentido religioso do que sexual, apesar da indicação de que foi esse o gatilho que deflagrou tudo. Mas ela se especializou no tema e o abordou em muitos momentos. Vou citar apenas três deles, para ter espaço suficiente depois para abordar outros personagens da mesma trupe.

Há vídeo da Damares afirmando que na Holanda existiria uma cartilha para ensinar pais a “massagear sexualmente suas crianças”. O menino deveria ser masturbado a partir dos sete meses de idade para ser depois um homem saudável. Já as meninas precisariam ser manipuladas desde cedo para atingirem o prazer, na fase adulta. Naquele país europeu ninguém jamais ouviu falar disso. Em outro vídeo a ministra assegura a existência de hotéis-fazenda de fachada, que serviriam apenas para que turistas pudessem “transar com animais”. E a terceira citação, obra prima da ignorância, foi feita em discurso no lançamento do programa Abrace o Marajó, de combate à exploração sexual e à violência na Ilha do Marajó, no Pará. Ela disse que as meninas da região sofriam abusos apenas porque não usavam calcinhas, devido à pobreza. E que seu ministério talvez liderasse um projeto para levar as peças íntimas para doação.

Para criticar o Carnaval 2019, uma “festa mundana”, que serviria apenas para que músicos esquerdistas tivessem acesso a dinheiro público, via incentivos, segundo a opinião de Bolsonaro, o mesmo veiculou nas suas redes sociais um vídeo mostrando a prática sexual do golden shower, a “chuva dourada”. Milhões de pessoas, inclusive crianças, tiveram acesso ao conteúdo. As mesmas que ele dissera, durante a campanha, querer proteger. Sobre as festividades, é importante lembrar que vieram para nosso país junto com os colonizadores portugueses, ainda no século XVI. Ou seja, não há qualquer relação com socialismo ou comunismo. O Rio de Janeiro foi a porta de entrada, acontecendo sempre dias antes do início da Quaresma. Além do Brasil, ocorre em dezenas de outros países, como México, Itália e França, mesmo que com menor dimensão do que a que tomou por aqui.

Também tivemos a figura nefasta do ex-ministro da Educação, Abraham Weintraub, que afirmou que as universidades federais eram antro nos quais existiam plantações de maconha, produção de drogas sintéticas e – isso não poderia ser esquecido – se praticava sexo indiscriminado. Nos seus delírios ele via jovens correndo pelos corredores, todos nus e chapados. O que não enxergava era o ambiente de estudos sérios e muita pesquisa, essenciais para alavancar o desenvolvimento do país. Depois de afastado, esse cidadão foi imediatamente morar nos EUA, para ficar um pouco mais distante da justiça, uma vez que cometera diversas irregularidades no exercício das suas funções.

Agora, durante os trabalhos da CPI da Covid, a médica Mayra Pinheiro, secretária do Ministério da Saúde, também conhecida como Capitã Cloroquina, no dia em que foi depor sobre a omissão do governo diante da crise ocorrida em Manaus, com centenas de mortos devido à falta de oxigênio, saiu-se com outra preciosidade. Disse que haviam colocado um “pênis enorme” na entrada da Fiocruz, no Rio de Janeiro. O que estava exposto era o logo comemorativo aos 120 anos de história dessa importantíssima instituição brasileira, que tem renome internacional, sendo imagem que ilustra essa crônica. A Fundação Oswaldo Cruz executa mais de mil projetos de pesquisa e desenvolvimento tecnológico para controle de doenças. Produz conhecimento para o combate da aids, hanseníase, chagas, sarampo, tuberculose, malária, rubéola, meningite, esquistossomose e hepatites. Também trabalha com saúde coletiva e tem nada menos do que 32 programas de pós-graduação. O desenho usa como referência estilizada o prédio da instituição. Se pênis tivessem a ponta que tem a cúpula – não leiam cópula – do prédio, com certeza tornariam relações sexuais atividade de sério risco.

Para terminar, o “Gabinete do Ódio”, liderado por Carlos Bolsonaro, o filho 02, está sendo apontado como responsável pela divulgação de uma nova inverdade, usando imagem de uma atriz pornô. A libanesa Mia Khalifa, radicada nos EUA, é apresentada pelo nome falso de Marcela Pereira, uma suposta médica infectologista, PhD em Biologia Molecular e Virologia pelo Instituto Emílio Ribas. Este prodígio da ciência brasileira seria a responsável por uma pesquisa feita em larga escala, comprovando a eficácia do uso da cloroquina para o tratamento da Covid. Segundo a mesma postagem, Globo e Band não estariam revelando isso por terem sido “compradas pelos comunistas”, mesmo motivo pelo qual não diziam ter sido a doença criada pela China, apenas para vender a vacina depois.

Vira e mexe – outra expressão com duplo sentido – tem um símbolo fálico; algo associando infância com sexo (tendências a incesto?); algum tipo de aberração; ou a presença de alguém que realmente entende do assunto, como a atriz pornô. Será que a psicanálise explicaria a escolha da foto dela, quando qualquer anônima poderia ter sido utilizada? Durma-se com um barulho desses. São bem mais altos do que sussurros e gemidos.

28.05.2021

No bônus de hoje a música Sexo, de autoria de Maurício e Roger Moreira. Ela é a sexta faixa do álbum de mesmo nome, que foi o segundo lançado pela banda Ultraje a Rigor, em 1987.