ESTATÍSTICAS E PROBABILIDADES

As pessoas em geral, incluindo nesse grupo eu próprio, não se dão conta do quanto é difícil ganhar numa loteria. Mas jogam (jogamos) mesmo assim. Fazemos isso movidos pelo sonho, sendo que essa expectativa na verdade é quase uma profissão de fé. Quando se imagina o que se faria com os valores que se pode vir a ganhar, isso equivale mais ou menos à conquista do paraíso. Mesmo quando se conhece e até repete aquela expressão “dinheiro não traz felicidade”. Ela até pode ser verdadeira, mas facilidades e conforto não prejudicam ninguém. Entretanto, se a racionalidade fosse considerada, teríamos que lembrar que até ser atingido por um raio, no Brasil, é muito mais fácil do que ganhar na Mega Sena.

Nosso país, sabe-se lá a razão disso, ocupa a primeira posição mundial em um ranking que mostra a incidência de raios. Chegam ao solo cerca de 77 milhões de descargas por ano, em todo o território nacional. E ficamos em quarto quando se trata em mortes provocadas por elas: são 110 os casos em média, a cada ano, desde 2000 para cá. A cada 50 casos fatais no mundo, um acontece dentro das nossas fronteiras. No caso da Mega Sena, para conseguir o prêmio máximo a chance do apostador é de uma em pouco mais de 50 milhões. Para sermos bem exatos, numa sacola gigantesca onde coubessem 50.063.860 bolinhas, uma e apenas uma representa esse jogador sortudo. A certa teria que ser retirada de dentro em apenas uma tentativa. Estatisticamente isso significa ainda que é mais provável você ser atropelado no caminho da casa lotérica do que sair dela com um tíquete que venha a ser aquele que contenha os números premiados.

Mas já que abordamos aqui essa questão de ter ou não chances, delas serem palpáveis ou não, vamos dar uma olhadinha em conceitos de estatística e de probabilidade. A primeira é um conjunto de métodos que se usa para analisar dados já existentes. Ela pode ser aplicada em quase todos os ramos de atividade e áreas do conhecimento, sendo feito isso DEPOIS que se conhece os números. A probabilidade, por sua vez, é um ramo matemático que avalia chances de ocorrência de algum resultado, em quaisquer experimentos. Isso orienta, por exemplo, muitos tipos de pesquisa, ANTES delas serem feitas. É a determinação da expectativa mais provável de ocorrer, em algo que não se conhece ainda o resultado. Simplificando, a estatística examina o resultado, enquanto a probabilística tenta apontar qual ele possa vir a ser.

Assim, toda e qualquer loteria, observado o seu histórico, quais números foram mais sorteados ao longo do tempo, número de apostas vencedoras, valores médios distribuídos, etc., estará sendo vista pela estatística. E muitos apostadores se apoiam nesses dados para decidir como fazer sua aposta. Assim como se as probabilidades estivessem de braços dados com as estatísticas, mesmo elas não sendo a mesma coisa. E até mesmo quando se tenta pensar apenas nas chances, a matemática nos prega peças.

Para efeito de explicação e entendimento, vamos imaginar um conjunto de bolinhas brancas e de bolinhas pretas, que possam ser postas em um determinado recipiente, de onde vamos retirá-las depois. Uma lata ou vidro não transparente, por exemplo. Se você coloca uma de cada cor e deseja retirar, sem olhar para elas, a preta, terá 50% de chance de acertar. Se colocar duas de cada cor e continuar desejando tirar uma bola preta, a chance de ter sucesso continua em 50%. Antes era uma em duas; depois ficaram duas em quatro. Agora, se a sua vontade for tirar em sequência as duas pretas, as coisas começam a se complicar. Vejamos a razão disso.

Do ponto de vista probabilístico, em tese será uma chance em quatro. Ou seja, de 25%. Isso porque teremos quatro possíveis sequências e apenas uma delas interessa. Pode ser branca/branca, preta/branca, branca/preta ou preta/preta. Agora, se vamos examinar isso usando a matemática, para o cálculo das possibilidades, muda tudo. Quando se busca a primeira bolinha no recipiente a chance é de 50%, pois existem duas de cada cor, sendo duas possibilidades no total de quatro. Mas, supondo que se tenha o sucesso esperado na primeira das retiradas, sobram três bolinhas: duas brancas e a segunda preta. Daí, a chance será de 33,3%. Então, o sucesso total, dependente dos dois acertos em sequência, será de 50% x 33,3%. Ou seja, de apenas 16,65%. Assim é ensinado o modo de fazer o cálculo. Então, não se deve estranhar se, depois de um bom número de vezes que se tentar, a estatística possa estar apontando para um resultado menor do que a expectativa gerada pela probabilística. E isso dá um nó na cabeça da gente.

Voltemos à Mega Sena, imaginando que fizemos uma aposta simples, com seis números. Quando o primeiro for sorteado, temos seis chances em 60 (10%); no segundo, cinco chances em 59 (8,5%); no terceiro, quatro delas em 58 (7%)… Seguimos assim até o sexto sorteado, quando teremos uma chance em 55 (1,8%). Agora, para a avaliação ser exata, temos que multiplicar em sequência cada um desses percentuais. O que resulta naquele número absurdamente pequeno que citei antes.

Na verdade, tudo isso é uma brincadeira para mostrar como os números enganam a gente – do mesmo modo que os sonhos. Lauro Quadros, um cronista esportivo que fez história no Rio Grande do Sul, costumava dizer que “estatística é como biquíni: mostra tudo menos o essencial”. Ele tinha razão. Quase vale o mesmo para a probabilística. Lembro ainda que na época em que eu cursava o que hoje seria o chamado Ensino Médio, com a Loteria Esportiva no auge, toda a semana eu fazia uma fezinha. E costumava dizer que isso era como pagar um “imposto esperança”. Um colega meu preferia chamar de “seguro felicidade”. Acho que ele é outro que também tinha razão.

Seguro é aquilo que a gente acha caro quando paga, raramente precisa e em geral perde o dinheiro que nele foi investido. Mas, quando se faz uso, damos graças a Deus por ter feito esse “investimento”. Eu tenho seguro de vida, apartamento e carro. Pelo menos o primeiro deles, posso afirmar com absoluta certeza que eu mesmo nunca vou usufruir. Mas é bom que eles todos existam. E, por via das dúvidas, vou continuar fazendo algumas apostas em loterias, vez por outra. Vai que…

27.09.2021

No bônus musical de hoje, Vanessa Da Mata canta Boa Sorte, em apresentação feita ao vivo.

PÃ E O PÂNICO

Na mitologia da Grécia antiga Pã (em grego Πάν) era o nome dado ao deus dos bosques e dos campos, que estava com os pastores e seus rebanhos. Seria uma criatura a habitar grutas e vagar pelos vales e montanhas, onde praticava a caça e dançava com as ninfas. Filho de Hermes, o deus mensageiro – aquele que tem asas nos tornozelos –, ao nascer ele teria assustado sua própria mãe, uma filha de Dríope. Isso porque veio ao mundo com um aspecto grotesco, animalesco mesmo. A representação de Pã o mostra com orelhas longas, chifres e pernas de bode, pele enrugada, um rosto disforme e cabelo bastante desgrenhado. Convenhamos, isso sem dúvida deveria ser suficiente para assustar qualquer um que estivesse desprevenido. E mesmo a mais amorosa das mães. De interessante era o fato de, em sua trajetória posterior, estar sempre acompanhado de uma flauta, que tocava com maestria.

Mesmo quem não conhece esse mito, deve saber o que seja pânico. A palavra é proveniente de Panikós, em grego, sendo referente justo ao deus Pã, esse amante da música. Como ele “assombrava” os lugares que visitava, com aparições repentinas e ruídos inexplicáveis, fazia com que as pessoas tivessem medo. E esse, quando extremo, até hoje se qualifica como pânico. O que, nos dias atuais, não está mais ligado a noites sombrias, mas tem muitas outras razões de ser e aparecer. Agora tememos a perda de controle sobre os acontecimentos ou pessoas; sobre coisas, atos e decisões que podem vir a afetar nossas vidas; sobre nossa própria existência física. Mesmo considerando que esse desejo de controle pode vir a ser traduzido também como uma psicopatologia, a imprevisibilidade e a insegurança afetam a vida moderna como nunca aconteceu antes. E os efeitos disso podem ser traduzidos como um transtorno mental.

Pessoas afetadas pelo Transtorno do Pânico (TP) têm sintomas fortes de desconforto físico e psicológico. E a situação pode ser deflagrada por riscos meramente imaginários, não havendo necessidade de tratar-se de um perigo real. Isso afeta sua vida social, relações familiares e emprego. Abala autoestima, convicções e inclusive a fé. Medo de enlouquecer ou de morrer, ansiedade, taquicardia, falta de ar, náuseas, tremores, tontura e até desmaios podem acontecer. Não são raras a sudorese, calafrios e vertigem. Estimativas apontam para a existência de pelo menos seis milhões de brasileiros atingidos por esse problema, sendo que muitas vezes o diagnóstico só termina sendo alcançado após consultas com diferentes especialistas. E não é nada improvável que a pandemia tenha contribuído para ampliar muito esse número.

Muitos médicos costumam dizer que sua causa é apenas um desequilíbrio químico dos neurotransmissores serotonina e noradrenalina. São essas duas substâncias apontadas como as responsáveis por influenciar nosso humor e excitação física. Portanto é evidente que o problema reside nelas, mas a razão dele ser desencadeado em geral são situações de estresse ou algum trauma psicológico. Assim, convém que paralelo à medicação que possa se tornar necessária, essencial é o acompanhamento psicológico.  Também é relevante examinar as estatísticas levantadas, que mostram 70% dos casos ocorrendo entre os 20 e 35 anos de idade; com 71% do total de pacientes sendo mulheres.  Pode ser um indício do que a estrutura social vigente e suas cobranças induzem ser esse o “público alvo”. Porque é uma faixa etária na qual se exige que a vida esteja mais do que encaminhada, conduzida para uma posição de “bem sucedido”; e devido à pressão ainda maior que é exercida sobre as mulheres e seus múltiplos e simultâneos papéis.

Uma questão que precisa ser superada é a resistência advinda do mero preconceito. Ninguém tem vergonha de dizer que precisou ir a uma consulta com cardiologista ou pneumologista, por exemplo. Mas não são poucas as pessoas que se envergonham e escondem uma eventual necessidade de procurar auxílio psicológico ou psiquiátrico. Nosso cérebro é um órgão tanto quanto são coração e pulmões, talvez com a característica de uma ainda maior complexidade. Precisa ser respeitado e atendido do mesmo modo. E aspectos emocionais – isso já está mais do que comprovado – podem ser mais devastadores que a maioria das doenças de origem meramente física, orgânica. Assim, conhecer a história pessoal e o contexto ou cenário onde essas pessoas viveram e vivem é indispensável para entendimento do problema e busca de solução, algo que jamais deve ser resumido a uma prescrição medicamentosa.

O Transtorno do Pânico é apenas um dos tantos males que podem vir a atingir qualquer um de nós. Outros podem igualmente conduzir a sensações e comportamentos limitantes ou, no mínimo, desagradáveis. Portanto, considerar a possibilidade de buscar apoio psicológico para enfrentar o problema, reorganizar a vida e retomar com saúde o seu cotidiano, precisa ser visto como a atitude correta  e saudável a ser tomada.

24.08.2021

No bônus de hoje, a música Medo do Medo, da rapper portuguesa Capicua, em parceria com João Ruas. Cantam os integrantes de Os Paralamas do Sucesso, sendo essa uma das faixas provocativas que compõem seu álbum Sinais do Sim, lançado em 2017.