O BEM E O MAL

Não há bem – deve valer também para o bom – que nunca se acabe, pensei eu enquanto saboreava o último pedaço do chocolate. Mas também não há mal que dure para sempre, asseguravam minha avó e minha mãe, o que me dá um alento sobre assuntos muito maiores e mais sérios. Essa pandemia ainda termina e o pandemônio vai cair, seja nas urnas ou na marra. Tenho certeza que ainda volto sem medo – porque esse ainda existe, devido às variantes do vírus – para o Brique da Redenção, para as salas de cinema, ao Araújo Vianna, ao convívio com amigos e à Arena do Grêmio. Algumas dessas coisas já tenho feito, mas ressabiado. Um dia volto a usar meu moletom verde, com detalhes amarelos, sem ser confundido. Espero fazer isso tão logo volte a amada “meia estação”, me afastando de vez destes 40 graus registrados recentemente. E a esperança vai voltar a sorrir nesse nosso país, substituindo a vergonha e a infâmia reinantes.

As noções do bem e do mal são basicamente ligadas à filosofia e à ética, tendo sido apropriadas pelas religiões. São uma derivação dualista das avaliações dos comportamentos e dos desejos humanos. Um dos seus sentidos apontaria para o lado dito “certo”, enquanto o outro para o que seja “errado”. Obviamente são subjetivos ambos os conceitos, se sobre ele nos debruçamos com um olhar de moralidade. Até porque a noção do que seja moralmente aceito varia em função do tempo e em razão das distâncias geográficas e culturais. A moral vigente no Rio de Janeiro dos tempos coloniais e hoje, na mesma cidade, não é a mesma. A moral nos dias atuais em São Paulo ou Porto Alegre, difere muito da aceita em alguma localidade pequena no interior do Piauí. Ou em países da África ou do Oriente Médio. Essa flutuação não acontece de modo igual, quando se vislumbra o aspecto ético. Esse é mais perene, ligado à vida e conceitos que superam os simples costumes. 

Bolsonaro, avaliado pelo tempo e pela história, sempre será um asco, uma excrescência, um lamentável acidente de percurso. Uma espécie de encarnação do mal. Pouco irá importar onde e quando a leitura sobre seu comportamento seja feita, desde que a análise ocorra sob a luz da razão. O que exclui a boiada, aqueles pseudo-religiosos cegos, os que lucram muito com as suas ações tresloucadas, fascistas e milicianos em geral. Mas a figura serve como um excelente exemplo para citações e estudos. Eu mesmo tive que me policiar para deixar de chamá-lo de louco. Os doentes mentais não mereciam isso. Na verdade, ele é apenas mau. E sádico, muito sádico mesmo.

O filósofo grego Aristóteles chamava de malvada a pessoa que, agindo de forma voluntária, adquire vício e hábito, através de excessos ou de faltas, não se importando se atinge ou abandona os demais para a realização dos seus prazeres. Tipo passear de moto ou jet ski enquanto uma calamidade climática está causando inúmeras mortes. Ou andar sem máscara em meio a multidões, no auge de uma pandemia, mesmo sabendo que esse comportamento estimulará contaminações e vai causar perda de vidas.

Platão dizia que o que definia o mal era a dor, tudo aquilo que causava sofrimento ao ser humano. E seu oposto seria a sensação de felicidade, trazida pelas maravilhas da vida. Se opondo à vida, portanto, o mal seria o equivalente à morte. O mal faz arminhas com os dedos, diz que não é coveiro, desdenha de minorias, imita uma pessoa que está se asfixiando e cai na risada ao fazer isso. O mal, portanto, é a psicopatia que impede o colocar-se no lugar do outro, o compreender a dor que não seja sua. Convém lembrar que a palavra mal se origina do termo latino malu, se referindo ao que não deve ser nunca desejado ou precisa ser afastado, eliminado. O que explica facilmente o “Fora Bolsonaro!”. O mal, portanto, é a simples oposição à virtude.

Nietzsche via a vida como um impulso, então o mal seria aquilo que nega essa centelha vital. O bem é a identificação do que é nobre; o mal tudo que é torpe. Simplificando, a diferença entre respeitar a diversidade e afirmar que preferiria ver um filho seu morto se descobrisse ser ele um homossexual. Ou se ele quisesse casar com uma negra. Analisando de um ponto de vista religioso, mas sem cobrança de dízimo, o bem seria expressão do divino e o mal um dos frutos da negação de Deus. Mateus, em seu evangelho (15:11), vai além e destaca que aquilo que contamina de fato um homem não é o que lhe entra pela boca. E afirma que o mal é o que sai da boca do homem. Como discurso difundido em cercadinho e em redes sociais, para atacar quem seja adversário ou simplesmente um ser pensante. Enfim, o bem ama a natureza e o mal desmata; o bem deseja a paz e o mal só sobrevive no conflito. O bem combate a desigualdade social; e o mal faz de tudo para que ela se acentue. Agora, o melhor de tudo isso, uma vez que se passe a compreender melhor a realidade, está na percepção de que a gente pode escolher entre um e outro. E que até quem já fez em algum momento a escolha errada, sempre tem chance para se redimir. No dia-a-dia da vida ou naquele momento sagrado, diante da urna eletrônica. Que não por acaso é odiada por quem ama o mal.

08.03.2022

O bônus de hoje é o áudio da música O Mal é o Que Sai da Boca do Homem, de Pepeu Gomes, com o próprio. Ele é um guitarrista, cantor e compositor baiano.

DICA DE LEITURA

Clássico contemporâneo dos quadrinhos, Maus é um relato comovente sobre Auschwitz e um acerto de contas do artista com o pai. Única história em quadrinhos a receber o Prêmio Pulitzer.

Maus (“rato”, em alemão) é a história de Vladek Spiegelman, judeu polonês que sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz, narrada por ele próprio ao filho Art. O livro é considerado um clássico contemporâneo das histórias em quadrinhos. Foi publicado em duas partes, a primeira em 1986 e a segunda em 1991. No ano seguinte, o livro ganhou o prestigioso Prêmio Pulitzer de literatura.


A obra é um sucesso estrondoso de público e de crítica. Desde que foi lançada, tem sido objeto de estudos e análises de especialistas de diversas áreas – história, literatura, artes e psicologia. Em nova tradução, o livro é agora relançado com as duas partes reunidas num só volume.
Nas tiras, os judeus são desenhados como ratos e os nazistas ganham feições de gatos; poloneses não-judeus são porcos e americanos, cachorros. Esse recurso, aliado à ausência de cor dos quadrinhos, reflete o espírito do livro: trata-se de um relato incisivo e perturbador, que evidencia a brutalidade da catástrofe do Holocausto.


Spiegelman, porém, evita o sentimentalismo e interrompe algumas vezes a narrativa para dar espaço a dúvidas e inquietações. É implacável com o protagonista, seu próprio pai, retratado como valoroso e destemido, mas também como sovina, racista e mesquinho. De vários pontos de vista, uma obra sem equivalente no universo dos quadrinhos e um relato histórico de valor inestimável.

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DONA OPORTUNIDADE

Há pessoas que passam pela vida sem ter tido um único encontro sequer com Dona Oportunidade. Têm enorme potencial para realizar e realizar-se, mas isso não acontece. Existem outras para as quais as chances caem no colo, mais facilmente do que molho de cachorro quente quando mordido de modo displicente. E há também aquelas que cavam, investem para que sejam vistas e lembradas. E me refiro a investimento na aparência – e não apenas física –, como também na “aparecência”. Umas até usam esse recurso, seu lado marqueteiro, como uma ferramenta de trabalho, com parcimônia e sem abandonar a ética. Mas existem as que apenas se tornam hábeis em estar sempre no lugar certo na hora certa. E, melhor ainda, perto das pessoas que lhes são convenientes. Para essas, a ética é apenas um estudo antigo e que caiu em desuso.

Desse grupo específico de pessoas, admito que tenho até um pouco de inveja. Mas pelos resultados, certamente não da sua postura e conduta. Essas duas eu confesso que me incomodam. O marketing pessoal é como perfume: se usado além da dose recomendada incomoda. Ao menos para quem possui nariz sensível. Acho que todos que estão me lendo, sem muito esforço, poderão lembrar de terem conhecido alguém assim. Eu mesmo cruzei com algumas pessoas notáveis nessa “arte”, ao longo da vida profissional. Não apenas nela, mas principalmente. Uma destas pessoas era inacreditável: estávamos em uma grande organização e ela sobrevoava pelos setores como se fosse um urubu, mas ao contrário: fugia de quem adivinhava estar sob qualquer risco, ameaçado de “morte”. Agora, quando virava a melhor amiga de alguém, se poderia contar que esse alguém estava prestes a ser promovido. Bem informada, transbordava em elogios falsos como nota de três Reais, mas distribuídos com cuidado e pontaria rigorosa. Qualquer sucesso, ela comparecia tentando compartilhar; quaisquer erros ou fracassos, estava tão longe que era capaz de sumir do prédio. O Diabo disparando da cruz.

Com o foco apenas no aspecto profissional, porque oportunidades valem também para o campo pessoal e afetivo, por exemplo, vamos examinar alguns conceitos, antes de prosseguir. Falo de talento, sorte, sucesso e prestígio, que são todos imprecisos, pois muitas variáveis interferem no seu alcance. Além disso, aquilo que para algumas pessoas pode ser enquadrado nisso, para outras não faz sentido. Para uns, pequenas conquistas podem ser grandiosas, enquanto feitos que parecem ter esse status muitas vezes não significam grande coisa. Isso depende de respostas sobre quem, quando, como e porquê. Algo assim como os bons textos jornalísticos, que precisam esclarecer esses questionamentos.

Talento pode ser definido como uma aptidão especial, uma habilidade inata para a realização de tarefas. Mas está longe de ser um dom, sendo na maioria das vezes também algo que pode e deve ser aprimorado com o treino, a repetição e a experiência. Pode-se dizer que possuir talento é alcançar resultados mais próximos da excelência, sabendo usar técnicas com eficiência. Sorte é quando o imponderável joga a nosso favor. Ela é irmã gêmea do acaso, quando se dá algo positivo. Quando a resultante do acaso é ruim, se diz que se trata de azar. Em geral, a sorte ocorre de forma repentina e inesperada, o que a torna ainda mais indefinível. Mas, um psicólogo britânico de nome Richard Wiseman, que estudou esse fenômeno, jura que podemos sim interferir no fator sorte. Ainda não li o seu trabalho, mas estou torcendo para que ele tenha razão. Quem sabe eu finalmente não aprendo?

Nos dicionários, sucesso é apresentado como ter êxito em algo, obter resultado feliz. Mas também significa chegar ao final de uma empreitada. Ou seja, percorrer o caminho completo também é significativo. Quando dezenas de equipes disputam uma competição esportiva, todas sabem que apenas uma delas será a campeã. Mas tem sucesso quem realiza um campeonato equilibrado, dentro das suas condições. E o prestígio, que é tão ou mais desejado, se define como sendo capacidade de exercer influência, adquirir notoriedade e valor. É ligado à estima, reputação e respeito, em geral não sendo resultado de talento ou sorte, mas de algum tipo de merecimento conquistado.

Dito isso, repito que ter oportunidades é fator preponderante na vida. Até porque elas são as criadoras de ocasiões para o comparecimento de tudo aquilo que referi antes. Mostrar o talento adquirido, aproveitar a sorte que sorri, alcançar sucesso e mesmo ter prestígio, em geral são consequências de oportunidades recebidas e bem aproveitadas. Isso porque sem elas não há talento que resista, não há sorte que resolva, se torna quase impossível alcançar sucesso. E Prestígio, só assim, com maiúscula, por ser nome próprio daquele bombom da Nestlé. Entretanto, na nossa sociedade desigual e pouco humana, as oportunidades parecem vir ao mundo trazendo o nome e o endereço de alguém. Uma espécie de tele entrega, que além de tudo é paga antecipadamente no cartão de crédito cadastrado. Quem recebe é bem provável que esteja no grupo que menos necessita. E, do conforto da sua casa, talvez fique repetindo o velho discurso da meritocracia, se for no Brasil; afirmando ser um dos tantos self-made-man (ou woman), se for nos EUA.

De minha parte, quero dizer que recebi ao longo da vida algumas boas visitas de Dona Oportunidade. Mesmo não tendo sido em todas essas vezes um bom anfitrião. O que só me dei conta, infelizmente, depois dela ter ido embora. Mas, como todo esperançoso brasileiro, sigo aguardando que ela tenha de mim a mesma saudade que tenho dela. E volte a aparecer. As portas estarão sempre abertas.

15.10.2021

Oportunidades abrem portas

Um bônus especial hoje: Tente Outra Vez, música de Raul Seixas, Paulo Coelho e Marcelo Motta. O clip é antigo, com o próprio Raul cantando.