A FORÇA DE ROMARIA

É inegável a importância da religiosidade na formação do povo brasileiro. Católico, a partir da colonização portuguesa; tendo depois incorporado as afro-brasileiras, com a vinda dos negros escravizados; as protestantes, em especial com a chegada dos alemães luteranos; até chegar ao atual momento de uma multiplicidade incontável de religiões, o país sempre teve esse perfil. Entre outras tantas estão presentes agora a budista, a espírita e até as questionáveis pentecostais, nas quais o mundo espiritual parece ter perdido um pouco de importância e espaço para a enganosa “Teologia da Prosperidade”. Mas não é objetivo fazer agora nenhum estudo de religiões comparadas. Na realidade, o tema de hoje gira em torno de música. Mas não uma qualquer: falo de Romaria, de Renato Teixeira.

Trata-se de uma canção de estrutura simples, mas que caiu de tal forma no gosto popular que se tornou quase que um hino dedicado à Nossa Senhora Aparecida, por todo aquele e toda aquela que a canta. E até mesmo para quem a escuta, porque mesmo isso parece ser feito com muita devoção. Ela também é uma espécie de resgate da simplicidade do homem do campo, do autêntico caipira. E penetra no inconsciente coletivo das pessoas, sejam elas integrantes ou não das camadas mais humildes da população.

O santista Renato Teixeira de Oliveira – esse o nome completo – teve sua infância em Ubatuba, que também fica no litoral norte do Estado de São Paulo. Portanto, não é um caipira de nascença, mesmo tendo na sua trajetória artística contribuído de modo decisivo para a redescoberta e valorização deste gênero musical. Aos 14 anos, nova mudança da família o levou para Taubaté, a cidade natal de Mazzaropi, distante 43 quilômetros de Aparecida. Lá ocorreu o seu primeiro contato com a música caipira, ao mesmo tempo em que começou a tocar em um conjunto que se apresentava em festas, shows e bares, por influência de sua mãe, que era pianista.

Na cidade de São Paulo em 1969, com 24 anos, grava seu primeiro disco apenas como cantor. Mas não consegue viver só da sua arte. Então passa a produzir jingles, que são anúncios musicados. Até que, depois de observar atentamente o olhar e a postura dos romeiros em Aparecida, permite que sua sensibilidade aflore. O autor conta que gostava de compor sentado no chão, na frente de uma mesa baixa que tinha e onde escrevia. Foi nesse local que Renato compôs Romaria, escrevendo à mão, num pedaço de papel. Inacreditável é que a música ficou em seu poder, sem que nenhuma gravadora se interessasse por ela, durante três longos anos. Em 1977 conseguiu entregar pessoalmente a canção para Elis Regina, que de imediato quis gravá-la. E o sucesso foi instantâneo.

Ele revela que se deu conta disso ao ouvir, numa padaria, um rapaz assoviando a música. Mas, depois da gauchinha de Porto Alegre, ela foi uma das mais regravadas em toda a história, em nosso país. Então, o Renato Teixeira que começou carreira como cantor, começava a ser superado pelo compositor. Isso sem deixar de lado a atividade inicial. Nomes tão distintos quanto Ivete Sangalo e Sérgio Reis, Maria Bethânia, Daniel e Almir Sater, Thiaguinho e Maria Rita, entre muitos outros, a incluíram em seu repertório. São mais de cem, no total, incluindo as feitas fora do Brasil.

A letra de Romaria é um romeiro chegando ao santuário, vindo de sua casa, esteja ela onde estiver, levando nada além da sua fé. Ele tem consigo as dores e angústias do dia-a-dia e vai pedir, que elas sejam de alguma forma aliviadas. Mas em um trecho ele admite não saber nem sequer qual é a forma certa de rezar – como se houvesse uma –, e pede apenas com a sua presença. Com a súplica do olhar.

“Me disseram, porém, que eu viesse aqui/ Prá pedir de romaria e prece/ Paz nos desaventos/ Como eu não sei rezar, só queria mostrar/ Meu olhar, meu olhar, meu olhar”.

É muito provável que a santa o tenha atendido. Que atenda também aos que pedem paz nesse nosso momento. E que interceda por aqueles que ganharam recentemente o direito de trabalhar para fazer do nosso país um lugar melhor do que vinha sendo. Porque, com a sua proteção, deve ser mais fácil realizar isso que vai além de um sonho, sendo uma certeza.

24.11.2022

O bônus musical de hoje, obviamente, é Romaria. A gravação escolhida é uma feita em apresentação ao vivo de Elis Regina, em seu show Transversal do Tempo, na cidade de Lisboa, em 1978.

GRUPOS DE WHATSAPP

Tem tanto grupo de WhatsApp no meu celular que, para poder encontrar as pessoas e os temas de forma mais fácil, estou aqui pensando se existe como criar grupos agregadores de grupos. No começo, parece que eles simplificam as coisas. Depois a gente vai descobrindo que nem sempre é assim. Dias atrás, por exemplo, descobri dois deles que eram formados exatamente pelas mesmas pessoas. E ambos bastante ativos, com número bem razoável de integrantes. Ou seja, ninguém se dera conta de que estavam duplicando todas as mensagens o tempo todo.

Outra coisa que começa a acontecer, ao menos entre os meus contatos, é que as pessoas estão tentando migração para o Telegram e para o Signal. Fazem isso sem apagar os primeiros e então nada muda. Segue a mesmíssima confusão, agora com potencial para acontecer em três diferentes ambientes. Enfim, para que se tente explicar o inexplicável, quando existem grupos demais você não acha o que procura, mas encontra o que não quer.

Nem estou falando daqueles de família. Os que têm como seu principal objetivo dar bom dia, boa tarde e boa noite, seguido com artes de gosto muito duvidoso. Esses beiram a inutilidade, mas funcionam. Desde que ninguém ouse postar quaisquer coisas que de longe lembrem política partidária, porque daí ele descamba de vez. O que é bom para que terminem os cumprimentos diários e péssimo para a próxima reunião familiar não virtual. Se é que ela volte a acontecer, depois da briga.

Outra coisa: grupos políticos e grupos religiosos se confundem cada vez mais. Tem gente rezando para deputados e o presidente, ao mesmo tempo em que comentam propostas e apoiam projetos de lei que atendem apenas os interesses desses “santos” de sua devoção. Isso que nos seus templos não existem imagens. Tente perguntar, num desses grupos, se alguém sabe o que é laico. Depois, divirta-se com as respostas. Agora, para que eu não seja acusado de estar apenas citando pentecostais, pouco tempo atrás vimos espíritas jurando que Sérgio Moro – aquele ex-juiz, ex-ministro, ex-candidato a presidente, falso puritano, interesseiro e lesa-pátria – era a reencarnação de Emmanuel. Isso também seria engraçado, não fosse trágico. Não fosse total desrespeito ao mentor de Chico Xavier.

O WhatsApp é uma ferramenta de aproximação entre empresas e seus clientes; entre pessoas que mantêm afetos à distância; instrumento que pode reunir adeptos de causas nobres; ou apenas vizinhos de prédio, moradores de um mesmo bairro para esclarecimento de questões que tenham em comum. E também se tornou, pelo mau uso, um meio de propagar mentiras e ódio, ameaçar e atacar os outros e demonstrar na prática toda a incapacidade da maioria de nós em demonstrar a tão necessária empatia.

Um contato qualquer que você tenha no WhatsApp é uma possibilidade que pode ser positiva ou negativa, útil ou inútil. Um grupo se torna a potencialização dessas mesmas alternativas. Saber usar uns e outros de forma adequada é uma necessidade crescente. E precisa de etiqueta, de conduta civilizada, de bons modos. Assim, o ideal é apagar todas as mensagens inadequadas que nos chegam, resistindo à tentação de mostrá-las para alguém mais. É estancar a sangria da maledicência, das fake news, dos julgamentos injustos e do apedrejamento virtual. Essa “pandemia” se combate usando a vacina do bom senso. Mas as doses têm que ser diárias.

18.06.2022

O bônus de hoje é o clipe da música Mundo Virtual, com a banda Loose Tanos. Formada originalmente pelos irmãos Rodrigo Pica-Pau (vocalista) e E.J. (guitarra e violão), com os amigos Dolabella (bateria) e Café (baixo), ela se caracteriza pelo perfil pop, sempre acompanhado de muito humor e irreverência.