SOPHIA LOREN NASCEU EM PALMEIRA DAS MISSÕES

O ano era 1939. Seu pai um alemão e a mãe, esta era uma brasileira. Veio ao mundo no noroeste do Estado do Rio Grande do Sul, na cidade de Palmeiras das Missões, sendo Ektor von Hoffmeister o nome de batismo. Mas, na capital carioca, onde passou boa parte da vida, ficou conhecida como Sophia Loren, em função de semelhança física com a atriz italiana. E terminou sendo Irajá, um terceiro e aparentemente definitivo nome, quando atuou e alcançou reconhecimento no mundo da moda. Conheci essa história recentemente, graças a um texto excelente de Jandiro Koch (*), o que tento reproduzir agora, com menor precisão e menos detalhes.

Como Ektor, teve que ir embora da terra natal, motivado pelo fato de não poder ser nela aquilo que entendia como sua verdade. E consta ter sido aluno da Escola Militar de Três Corações. Como Sofia, foram tempos difíceis os primeiros passados no Rio de Janeiro. Houve inclusive envolvimento com roubo de joias, que teria sido praticado ao lado de Raulina (Raul Ambrósio), Nádia (Nei) e Marisa (Lourival), em residência no bairro do Leblon. Rendeu cadeia e muita matéria nos jornais, que os apresentava como “A Gang dos Pederastas”. Interessante é que elas descreviam o gaúcho de uma forma que servia para aumentar e muito a curiosidade de todos sobre ele. “Moço de constrangedora beleza”, ou ainda “Rapaz de boca recortada, olhos verdes e agudos”, em dois textos do Última Hora, para servir de exemplo.

Com a repercussão do fato e a reação prevista e horrorizada do pessoal “de bem”, das famílias tradicionais e de outras hostes conservadoras, a polícia deflagrou uma operação que deteve dezenas de homossexuais na Zona Sul. Acontece que muitos deles tinham contato com pessoas de grande influência, gente da política e empresários. Um deles, por acaso também gaúcho e conhecido como Elvis Presley, conseguiu que nada menos do que um senador da República intercedesse pelo grupo. Assim, acabaram sendo soltos.

Ektor/Sophia trabalhou como vitrinista e decoradora depois de solto(a). E, algum tempo depois, conseguiu espaço para se apresentar em boates, como cantora. Um desses endereços era a Favela, em Copacabana. Chegou a ser marcado um teste seu pela gravadora RCA, que nunca se soube ter ou não acontecido. Também esteve atuando no Teatro Recreio e na casa Night and Day, na Cinelândia. E trabalhou com Grande Otelo e Consuelo Leandro. Com a fama que angariou, partiu para apresentações em Paris e Roma. E voltou para o Rio Grande do Sul para o casamento de sua irmã Maria Elaine Hoffmeister. No total eram cinco os filhos do casal Homero e Etelvina. Aliás, um dos irmãos foi nome de destaque no futebol, não tanto por ter defendido as cores do Esporte Clube Cruzeiro – então sediado em Porto Alegre, recentemente mudado para o município de Cachoeirinha –, mas porque mais tarde se tornou presidente da Federação Gaúcha de Futebol. 

Não muito depois disso, foram-se Ektor e Sophia. Isso porque estava na hora de surgir Irajá. Porque desde que conhecera a capital da Itália, conheceu também um novo amor: pela alta costura. Foi então aprimorando o pouco de desenho e pintura que trouxera da adolescência. Ao mesmo tempo, conseguiu trabalhar como manequim masculino para as marcas Brioni e Pierre Cardin. Com seis anos passados em função desse sonho, naquele país, superou desconfianças e conseguiu reconhecimento. Dois financistas ingleses então o levaram para Paris. Em 1970 veio apresentar suas coleções em São Paulo, Brasília e Rio de Janeiro. Nas três cidades foi aplaudido.

Na Europa, seguia sendo badalado e tendo muita gente famosa como cliente. Consta, por exemplo, que Grace Kelly, a atriz que virou princesa de Mônaco, era figura constante. Assim como também Bessie Wallis, a Duquesa de Windsor. Aquela mesma norte-americana que levou Eduardo VIII a abdicar no Reino Unido, para se tornar seu terceiro marido. Com isso seu irmão assumiu o trono que, com sua morte, passou para a rainha Elizabeth, a quase eterna. O que nunca se conseguiu confirmar com absoluta certeza é se, em Palmeira das Missões, sua fama e o dinheiro conseguiram superar o ranço bastante preconceituoso, transformando o sentimento em algum orgulho. Mesmo que constrangido.

14.11.2022

Ektor von Hoffmeister, a Sophia Loren gaúcha

(*) Jandiro Adriano Koch é um escritor e historiador, natural de Estrela, no Rio Grande do Sul. Especialista em gênero e sexualidade, foi o vencedor do Prêmio Açorianos de Literatura 2021. O texto original no qual foi baseada a crônica de hoje pode ser encontrado no Grafia Drag, um blog cultural de ensaios e entrevistas.

O bônus musical de hoje é Preconceito, composição de Fernando Lobo e Antônio Maria, na voz de Cazuza.

EU NASCI JUNTO COM O ROCK

Sendo mais preciso, esse estilo musical surgiu um pouco antes do momento em que abri os olhos. Mas essa fase anterior foi praticamente uma pré-história. Entre o final dos anos 1940 e a primeira metade dos anos 1950 foram sendo misturadas, num caldeirão efervescente, coisas distintas como o blues, o soul e o country, nos EUA. Só que essa química deu resultado mesmo foi no final daquela década e início da seguinte. Eu então já estava por aqui, ainda mamando nos seios de uma vizinha e aguentando o frio de Bom Jesus. Ou seja, as canções que ouvia eram bem diferentes, de ninar. Também não fui apresentado muito cedo ao rock: peguei mesmo foram as gerações seguintes. Pulei, portanto, Bill Haley & His Comets, que gravaram o primeiro de toda a história – recomendo o livro Bill Haley: The Daddy of Rock and Roll, de John Swenson, publicado em 1982. Essa banda foi tão revolucionária quanto mais tarde seriam The Beatles e Rolling Stones, com a responsabilidade ainda maior por serem pioneiros.

O rock nasceu ingênuo, do modo como somos na infância, com Rock Around the Clock e os músicos todos tocando com gravatas em roupas escuras e bem comportadas. Apenas na década seguinte viriam rebeldia e extravagância, como quando nos tornamos adolescentes. Guitarras sempre o identificaram, desde o seu começo, fosse única ou com dois guitarristas (base e solo), além de um contrabaixo ou baixo elétrico e da bateria. Nos primórdios havia ainda a possibilidade do uso de piano e saxofone como instrumentos frequentes. E a forma de dançar era muito peculiar. Depois de explodir em sua “terra natal”, o estilo se propagou com facilidade pelo mundo, situação facilitada pela época marcada por grandes mudanças sociais, nos anos 1960. A juventude finalmente tinha uma expressão musical própria, para canalizar toda a sua energia e o seu descontentamento.

A popularidade do rock crescia como cresciam os cabelos dos jovens; no ritmo em que encurtavam os vestidos das mulheres; enquanto eram queimados soutiens em Paris; e protestavam contra a Guerra do Vietnã. Enfim, era o momento histórico do rompimento de algumas amarras. No mesmo momento no qual se tentava sair do planeta, numa disputa entre russos e norte-americanos, também saía da órbita todo um enorme contingente com a experimentação de drogas. E a liberação sexual chegava, de carona, com o surgimento dos anticoncepcionais.

Voltando ao rock, temos que retornar outra vez para a década de 1950 e registrar o trabalho de Chuck Berry, com seus acordes inventivos e com aparência de permanente urgência. E citar o trabalho de outro gênio, chamado Johnny Cash, que trouxe todo um sentimento e sensibilidade country para dentro do rock. Tempos depois, Elvis Presley assumiu uma identidade tão forte que passou a ser chamado de Rei do Rock, ao juntar carisma e sedução, presença de palco e uma quase empáfia. Se poderia seguir com nomes tipo Jimi Hendrix, Bob Dylan, David Bowie, Roger Waters e Kurt Cobain, entre muitos outros, todos essenciais. Astros que brilharam e brilham até hoje. Bandas então, nem se fala quantas mereceriam ser incluídas numa linha do tempo que tivesse a pretensão de fazer mínima justiça à história.

Não há espaço suficiente aqui para se fazer isso. Mas se pode e deve lembrar que esse estilo que influenciou tanto a vida de tantos, com atitudes, linguagem e costumes, segue se alterando e fortalecendo. Com vertentes que vão desde o heavy metal ao soft rock, passando por rock progressivo e clássico, glam, grunge e indie rock. Segmentos que estão contemplando a imensa diversificação que marca o mundo atual em tudo. Galhos de uma mesma árvore, tão generosa na oferta dos seus saborosos frutos.

19.06.2021

O bônus de hoje reúne música com um espetáculo de dança, que nos é oferecido pelo casal Nils e Bianca. A canção é Hey! Baby, um rock and roll composto por Margaret Cobb e Bruce Channel, que foi gravado em 1957, justamente o ano em que nasci.