A OPÇÃO DE ESQUECER

O lado bom de assinar uma plataforma de streaming não se resume ao acesso a filmes novos, mesmo que hoje em dia muitos deles cheguem nelas quase que simultaneamente com a exibição em salas de cinema. Também pode ser muito prazeroso garimpar aqueles não tão novos, que ficam meio que esquecidos entre outros tantos títulos recentes, mas que possuem qualidade merecendo ser vista. E não me refiro apenas àqueles clássicos e cults. Existem algumas preciosidades quando se examina a obra como um todo, mas também quando se repara especificamente no que fez o diretor, na qualidade do roteiro ou na interpretação do elenco.

Localizei um na Netflix que merece os 108 minutos de atenção dedicada para que seja visto. Falo de uma obra de 2004, Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças (Eternal Sunshine of the Spotless Mind), que é assinado por Michel Gondry. A história conta o relacionamento de um casal, Joel (Jim Carrey) e Clementine (Kate Winslet), que não anda nada bem. Desiludida com a situação, a mulher aceita se submeter a um tratamento experimental que busca apagar da sua memória todos os momentos que antes dividiram. Ele, ao tomar conhecimento deste fato, primeiro entra em profunda depressão, para depois resolver seguir o mesmo caminho e também remover esse passado da sua mente.

O que acontece é que em meio ao procedimento ele muda de ideia. E, para que ela não seja definitivamente apagada, começa a encaixar sua presença em eventos nos quais na verdade ela não teve participação alguma. Isso por si só demonstra criatividade no roteiro original, que é assinado por Charlie Kaufman e lhe rendeu o Oscar de 2005. Também Kate Winslet foi indicada como melhor atriz, mas acabou não ganhando a estatueta. Kaufman havia feito sua estreia na “Sétima Arte” poucos anos antes, em Quero Ser John Malkovich (1999), quando conseguira demonstrar um talento que merecia ser acompanhado de perto. Apesar de seu trabalho seguinte não ter repetido o mesmo sucesso. Com A Natureza Quase Humana (2001) ele abordava um outro tema inusitado, com um homem que vivia em plena selva sendo “adestrado”.

Brilho Eterno lança um olhar que é ao mesmo tempo diagonal e sincero, sobre os relacionamentos entre casais. Observa as alegrias e as mágoas que são normais. Mas faz isso de um modo cerebral, denso e cheio de alusões literárias que talvez nem sempre sejam captadas. Para quem espera algo meramente intelectual, no entanto, precisa ser informado que o filme é também descaradamente romântico. A questão é que, se pensarmos em termos de gênero, também se pode afirmar tratar-se de uma comédia, que tem drama e ficção científica na sua composição. Ou seja, um mix que pode agradar vários públicos. Isso porque tem uma dosagem certa, não se tornando uma salada sem personalidade e sabor.

Essa postagem está sendo feita no início da madrugada de quinta-feira. Faltam três dias inteiros ainda, nos separando de um domingo que tem tudo para ser tenso, no Brasil todo, em virtude do segundo turno das eleições presidenciais. Em vários Estados ainda estarão sendo eleitos os governadores. Então, se torna aconselhável que se tire algum tempo para nós mesmos, evitando que a carga emocional nos atinja muito fortemente. Um bom filme, sendo esse recomendado ou um outro qualquer que você procure, pode ser uma boa pedida. Evidente que sem nos afastarmos da responsabilidade de uma boa escolha, nem da esperança de convencer mais alguma alma a apostar num futuro melhor para todo o povo do nosso país. Até porque, na vida real, não teremos como conseguir um esquecimento seletivo depois, retirando da memória tudo o que de ruim pode decorrer, caso a troca necessária não seja feita agora.

27.10.2022

Kate Winslet e Jim Carrey são os protagonistas Clementine e Joel, no filme

O bônus musical de hoje é Depois, de Marisa Monte.

A SENSUALIDADE DO TANGO

O tango é um estilo musical e uma dança, estando ela entre as mais sensuais que existem. O que até soa estranho, à primeira vista, uma vez que é um ritmo duro e claramente masculino, sem os esperados meneios femininos. Mas tem porte e garbo como é difícil ser imaginado em outra dança qualquer. Conquista pelo movimento, pelo olhar fixo dos casais bons dançarinos em suas coreografias complexas. A música é forte e muitas vezes triste, trazendo uma mescla de drama, paixão e agressividade. E o movimento físico harmônico e compassado que proporciona, esse é pura sedução.

A origem do tango está nos subúrbios de Buenos Aires e Montevidéu, sendo no início tocada e dançada em prostíbulos. O ritmo descende da habanera de Cuba, sendo os primeiros instrumentos usados o violão, o violino e a flauta. O bandoneón que hoje o caracteriza foi introduzido depois, uma vez que chegou à região do Rio da Prata apenas por volta de 1900, trazido por imigrantes alemães. E a aristocracia platina só o aceitou em seus salões uns dez anos depois disso, apenas porque fora “exportado” e fez sucesso em Paris, de onde retornou com outro status. Na Europa conquistara tanto as tabernas e os bailes populares, quanto seus teatros e até mesmo óperas.

A palavra tango, por sua vez, veio de idiomas africanos. Antes de ganhar esse novo significado, designava um pequeno tambor, existindo dúvidas sobre a razão desta escolha. Talvez tenha sido porque esse instrumento também cruzou o Atlântico e veio para o Caribe. Com forma musical binária e compasso de dois por quatro, o tango permite muita criatividade e valoriza as habilidades pessoais dos aficionados. Eles são muitos e estão espalhados pelo mundo, existindo inclusive concursos nos quais se escolhe os melhores praticantes.

O tango é sempre dramático, frequentemente triste, cinematográfico e adora ser sanguíneo. O poeta, compositor, dramaturgo e ator argentino Enrique Santos Discépolo Deluchi, um profícuo autor de letras de tango, costumava dizer que ele “é um pensamento melancólico que se pode dançar”. De qualquer modo, sua importância é gigantesca a ponto da Unesco o ter incluído na lista do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, em 2009.

Essa verdadeira arte foi muitas vezes usada por outra, o cinema, tanto como trilha musical como também incorporada na própria história que o filme conta. Um exemplo maravilhoso está em cena do filme Perfume de Mulher (1992), na qual Frank (Al Pacino), um personagem cego, convida Donna (Gabrielle Anwar) para dançar. Ele pede antes orientação sobre o tamanho da pista, sendo conduzido ao centro dela. A partir de então a conduz com maestria, dançando Por Una Cabeza, de Carlos Gardel. De fato, o resultado é inesquecível. O Último Tango em Paris (1972), de Bernardo Bertolucci, tido como uma obra-prima, rendeu indicação ao Oscar para o ator Marlon Brando e ao Globo de Ouro para seu diretor. Não é algo que na verdade possa ser hoje aplaudido, considerando que a atriz Maria Schneider sofreu violência sexual durante as filmagens.

Mais apropriado é citar outra película com nome quase idêntico – basta tirar a indicação da capital francesa como local: O Último Tango (2016), no seu título em português. Em espanhol essa coprodução argentina e alemã teve o nome original de Un Tango Más. Seu diretor é German Kral e se trata da história de amor e dramas dos dançarinos María Nieves Rego e Juan Carlos Copes, que brilharam juntos nos palcos por mais de 50 anos. Para completar esse passeio pela “Sétima Arte”, ficam ainda duas dicas: Dança Comigo? (2004), um mix que reúne romance, drama e comédia, com Susan Sarandon, Jennifer Lopez e Richard Gere; e Vem Dançar (2006), no qual Antonio Banderas rouba a cena vivendo papel inspirado no professor Pierre Dulaine, que desejava auxiliar jovens da periferia na superação de preconceitos e conquista de sonhos.

Visitar casas de espetáculo, de preferência nas capitais da Argentina e do Uruguai, pode ser uma experiência inesquecível. E se o texto está animando leitores para que se dediquem pessoalmente à dança, existem em Porto Alegre academias que ensinam.

21.10.2022

Como bônus, temos hoje primeiro três casais dançando tango, nos bastidores do Invierno Tango Festival, que ocorre periodicamente em Paris, na edição de 2018. São eles Daiana Guspero e Miguel Zotto, Mariana Montes e Sebastian Arce, e Magdalena Gutierrez e German Ballejo. A seguir o trailer do filme O Último Tango. E, para concluir, cena do filme Vem Dançar, com o personagem de Antonio Banderas trazendo uma convidada para impressionar seus alunos com um tango muito bem dançado.

Esse blog recomenda muito que seus leitores conheçam o site da Rede Estação Democracia. Acesso através do link abaixo.

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