ESTOU LOUCO PARA QUEIMAR A LÍNGUA

Eu gosto de futebol: simples assim. Gosto do esporte em si, de tudo o que ele representa e simboliza. Da bola divertindo, dividindo espaços e multiplicando emoções. Do jogo entre amigos, daquele disputado em um campo com pouca grama, várzea pura. Do disputado de pés descalços sobre a areia da praia, os com camisa enfrentando os sem elas. Joguei com bola de pano, de plástico e de couro – não que tivesse habilidade, mas isso sempre importou pouco. E sou também torcedor, daqueles de ir aos estádios, de sofrer com derrotas, inesperadas ou não. De vibrar com as vitórias mais pueris e as mais consagradoras. Momentos em que se abraça com total desenvoltura e intimidade gente que nunca se viu antes, apenas porque estão com as nossas cores, sentadas ao nosso lado.

Sou torcedor do Grêmio, meu clube do coração, no qual me associei em 13 de julho de 1978 e nunca deixei de pagar a mensalidade em momento algum. Mesmo quando os caraminguás faziam falta. Nem quando ainda morava no interior do Estado. Ou quando não pude usufruir do direito de entrar na Arena sem adquirir ingresso, devido à pandemia de Covid-19 ou a enchente inacreditável de 2024. Fora ele, torcer mesmo, de ficar tenso e agitado, só faço para quem enfrenta o Inter, apesar de sentir simpatia por algumas outras agremiações. Tipo os times de Caxias do Sul, onde morei. Ou ainda os distantes Atlético de Madrid e Liverpool, os únicos da Europa que me despertam algum interesse e motivação. E também pelos tradicionais do Nordeste e do Norte do Brasil, mais raiz, mais essência.

Estive em jogos no Maracanã, no Morumbi, assim como em estádios do interior do Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Vi das arquibancadas apenas um jogo de Copa do Mundo, que não tinha o Brasil em campo. E pelo menos uns três outros de selecionados, válidos pela Copa América. Coleciono camisas do Grêmio, mas nunca tive uma sequer da Seleção Brasileira. E aprecio muito ver jogarem a Argentina e o Uruguai. Esses dois estarão na Copa do Mundo que se inicia mês que vem, quando terá três países-sede pela primeira vez na história.

No início da noite de ontem, no Rio de Janeiro, Carlo Ancelotti divulgou a relação dos 26 atletas que levará para a disputa. O treinador, que é italiano e está conosco há um ano, escolheu o atual goleiro do tricolor gaúcho para ser um dos três na posição. Weverton vinha merecendo, em função do quanto vem jogando bem ultimamente. E também decidiu levar Neymar, mesmo ele não estando jogando nada.

Revelado pelo Santos, em 2009, ele era diferenciado desde o início da carreira. Tecnicamente brilhante, com potencial para ser o melhor do mundo, apenas não chegou lá porque o talento com as pernas jamais teve correspondência com certas atividades cerebrais. O comportamento seria exemplar se sempre estivessem apenas ele e a bola. O que não é possível, num esporte coletivo, onde o requinte do brilho individual tem valor quando se torna a cereja do bolo, não a massa completa. Quando foi para o Barcelona, em 2013, já apresentava uma característica que o marcou muito, especialmente na Europa: ser um cai-cai compulsivo. Cada pancada que recebia dava a impressão de ter sido atingido por um disparo de calibre 12. Mas, teve a chance de jogar ao lado de Messi e Suárez, ganhando títulos de campeão da Espanha, da Liga dos Campeões e do Mundial de Clubes, antes de se transferir para o Paris Saint Germain. 

A aquisição mais cara da história do clube francês não valeu para nada. Só venceram títulos no próprio território, durante aquele período. Ao mesmo tempo, polêmicas extracampo e sua total inutilidade em várias eliminações traumáticas na Champions levaram a torcida a comemorar quando Neymar foi para o Al-Hilal, da Arábia Saudita. Onde outra vez pouco fez, agora porque sua vida nunca foi exatamente a de atleta, como é a de Cristiano Ronaldo. Isso contribuiu para inúmeras lesões. Foi deste modo que voltou para o Brasil, acolhido pelo Santos em tentativa derradeira de reconstrução afetiva e esportiva. Por aqui continuaram os longos períodos de inatividade e os raros lampejos de brilho. Mesmo assim, talvez boa parte em virtude do apelo midiático, conseguiu outra vez estar em uma Copa do Mundo.

Weverton iniciou a carreira nas categorias de base do Corinthians, mas ganhou projeção nacional principalmente a partir de sua passagem pela Portuguesa. Posteriormente, destacou-se no Athletico Paranaense, onde consolidou a imagem de goleiro seguro, técnico e decisivo. Seu grande salto veio no Palmeiras, clube pelo qual se transformou em um dos principais goleiros do futebol sul-americano. Tornou-se peça fundamental em uma das fases mais vitoriosas da história recente palmeirense, conquistando títulos como Libertadores, Campeonato Brasileiro, Copa do Brasil, Recopa Sul-Americana e Paulistão. E ganhou a medalha de Campeão Olímpico, na então inédita conquista de 2016. Também teve convocações para a seleção principal, inclusive para a Copa de 2022.

Veio para o Grêmio agora em 2026, considerado veterano demais para ficar no Allianz Parque. Depois de uma lesão, tinha perdido a titularidade justamente para o ex-colorado Carlos Miguel, que esteve nas categorias de base do segundo maior time gaúcho entre 2016 e 2021 – muito obrigado, Inter! Na Arena, comprova estar no auge da regularidade, liderança silenciosa e capacidade de ser decisivo em momentos importantes. É um exemplo de amadurecimento – o que Neymar não tem nem nunca terá –, de uma carreira sendo construída com solidez, com alto nível técnico e grande confiabilidade. Agora, como o futebol não raras vezes revela histórias surpreendentes, estou louco para queimar a língua com o desempenho do eterno “Menino Ney”, no auge dos seus 34 anos, mesmo achando isso quase que impossível. Afinal, eu também desejo a sexta estrela.

19.05.2026

P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é um clipe utilizado pela Rede Globo, detentora de direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2026, para anunciar a proximidade dos jogos.