NOSSO PAÍS É UM IMENSO PUTEIRO

Tudo bem. Eu admito o exagero do título e até mesmo que pode ser bom para o blog ele chamar atenção e fazer com que as pessoas leiam o texto que se segue. Mesmo não sendo essa a intenção, garanto que tem horas que essa generalização deixa de ser apressada e parece ser mais do que conveniente, chegando a ser apropriada. Vejam que temos um cafetão, cercado por muitos “leões de chácara”, fardados ou não; residentes sempre prontos a atender quem chega de fora, que pode fazer o que bem entender, desde que traga dinheiro na não; a aceitação pública e tácita de uma moral dupla para quase tudo; e hoje vivemos num ambiente bem propício a vícios diversos e contaminação. Só não vamos exagerar, acendendo luzes vermelhas, porque o chefe tem ojeriza à cor. Sei lá por que razão: talvez um trauma do passado ou, quem sabe, medo do futuro.

Pior é que não somos nem mesmo um cabaré destes de novelas da Globo, ambiente decorado com requinte, nos quais as moças que trabalham são todas lindas, muitas vezes educadas, sempre gentis e bem-humoradas. Essas não sofrem com exploração e violência, possuem todos os dentes e se vestem com figurino discreto e elegante. Parece mais um internato do que um estabelecimento dedicado ao meretrício. Assim, não é por acaso que muitas acabam saindo da vida – que no caso delas nunca parece ser tão difícil – e casando com algum personagem da trama. Fosse nos anos 1950 ou 1960 e bastaria colocar em aulas de piano e de francês, para que muitos pais as considerassem noras perfeitas. Se fosse assim na vida real e eu outra vez jovem e sem compromisso, até consideraria procurar nesses endereços uma companheira. Por que não? Talvez nem entre religiosas convictas se encontrasse com facilidade alguma assim, tão recatada e prendada. Me refiro à ficção, naturalmente.

Ironias à parte, que outro lugar do mundo consegue conviver, do modo como acontece em nosso país, com tanta “libertinagem”? Querendo nosso petróleo? Podem vir e se apropriar, pagando pouco. Para facilitar, a gente trata de destruir antes a Petrobras, para o negócio ficar mais barato e ainda mais atrativo. Interessados na Eletrobras? Podemos atender os compradores, fazendo a mesma coisa. O objetivo é levar nosso nióbio? Mais fácil ainda, porque a população nem sabe que temos isso e o quanto ele vale de fato. Precisam quebrar nossas grandes construtoras, destruir nossa indústria naval, prejudicar a Embraer, vender aqui todo o lixo de agrotóxicos que não são usados por quem produz? Deixa com a gente, que “nóis facilita”. Não querem comprar também empresas distribuidoras de água? Podem levar, inclusive com os Correios como troco.

Em que outro país do mundo ao invés de comprar direto vacinas das quais seu povo precisa desesperadamente, o governo autoriza um religioso para ser um intermediário desnecessário? Onde mais se comemora meio milhão de cidadãos mortos, dando um rolezinho de moto? Somos a nação das oportunidades, aquilo que os EUA pensam ser, estando enganados. Por lá ninguém está num bar tomando um chopp no meio da tarde, quando é abordado por alguém que vem oferecer um negócio assim pequeno, de 400 milhões de doses daquelas vacinas, que citei anteriormente, com um “por fora” de um dólar para cada uma delas. Já pensou? Uma propininha de mais de R$ 1 bilhão, deixa mais ligado e tonto do que qualquer bebida.

No Brasil o governo constrói estrada e entrega ela zero bala para que a iniciativa privada cobre pedágio, por 30 anos. O compromisso é manter as faixas pintadas, colocar guincho e, depois de alguns anos, tapar os buracos que apareçam. Mas, para esse último compromisso, se for necessário a gente acrescenta um adendo contratual, garantindo um reajuste maior nos preços cobrados. Só aqui se sucateia o ensino superior público e facilita a entrada do privado; se acaba com a pesquisa e permite a evasão de cérebros. Melhor assim: menos gente pensante aqui dentro.

Só para não ser omisso, já que falei no nióbio lá no terceiro parágrafo, ele é um mineral precioso, raro e muito cobiçado. Pode ser usado em ligas especiais com aço, que fica reforçado com uma pequena porção dele sendo adicionada. Também tem aplicação em joias e ótica. Mas principalmente é essencial para alguns usos em eletrônica e no setor nuclear, em aparelhos de ressonância magnética e aceleradores de partículas. Vale mais do que ouro, do que petróleo. Nossas reservas são as maiores do mundo, com estimativa de 2,9 bilhões de toneladas na Amazônia. Estão entendendo agora porque desmatar e afastar indígenas dos seus territórios, permitindo que “amigos” façam uso de grileiros e fiquem com as terras federais, gratuitamente? Se começa justificando com o gado e, depois, a área de pecuária vira mineração. No Triângulo Mineiro e no Alto Paranaíba estão mais 800 milhões de toneladas.

Sobre toda essa riqueza, um povo empobrecido e explorado. Como aquelas senhoras citadas na abertura – não as glamourosas, mas as verdadeiras. Mesmo a grana que entra, trazida pelos “clientes”, termina em outras mãos. Até o gozo é exportado, quando o Brasil abre as pernas.

11.07.2021

O bônus de hoje é a música Brasil, composta por Cazuza, Nilo Romero e George Israel, na voz de Cássia Eller.

AGORA A DIREITA PRECISA DO IMPEACHMENT

O quadro está mudando e Bolsonaro não tem mais apenas gravata ao redor do seu pescoço. A corda está posta, o nó vem sendo apertado e ser dependurado é uma questão de tempo. Mas a vitória maior, quando do seu empurrãozinho final, não será da esquerda, mesmo com essa denunciando sua incompetência, despreparo, envolvimento com milícias e corrupção desde quando era ainda um candidato pouco acreditado. Quem também deseja seu afastamento agora e certamente lucrará muito com isso, se vier a ocorrer, é a direita. E justamente em função dela estar “aderindo à causa”, se torna cada vez mais provável que o Palácio do Planalto seja desocupado pelo atual inquilino bem antes do que ele gostaria e esperava – nunca escondeu sua quase certeza de reeleição.

A receita que permitiu a improvável vitória de um candidato totalmente inexpressivo no panorama político, em 2018, teve como ingredientes principais o antipetismo gestado com forte apoio da imprensa e o engajamento de grupos que encontraram em Bolsonaro afinal uma chance real de terem voz: o “baixo clero”, na Câmara dos Deputados; evangélicos que já trabalhavam duro tentando ocupar o lugar até então cativo dos católicos, nos corações e mentes dos brasileiros; setores das Forças Armadas, saudosistas da ditadura militar instaurada em 1964; e empresários periféricos que precisavam de benesses do poder público para que seus negócios pudessem se expandir. Isso tudo, evidentemente, depois de terem tirado de forma arbitrária a possibilidade de Lula concorrer.

Nesse caldeirão estava servido o caldo para proliferarem sentimentos, posturas e preconceitos como homofobia, racismo, xenofobia e outras podridões fascistas que antes estavam escondidas. Com o mau cheiro, os ratos saíram do porão. Vieram famintos e prontos para roer e devorar as empresas estatais, a educação básica, a cultura, os serviços públicos, universidades, meio ambiente, centros de pesquisa, programas sociais e tudo mais que havia sido construído em anos de lento progresso, com conquistas da população que levaram a melhores condições de vida. Um preço muito alto, portanto, para uma nação que começava a se acostumar a ter identidade e autoestima, esperança e futuro. Mesmo assim, setores não extremistas da direita acreditavam que até poderia ser pago – não seria por eles –, se fosse para “recolocar as coisas no devido lugar”. Estava sendo insuportável para a elite, por exemplo, ver seus filhos convivendo com pobres no ensino superior; dividir lugares nos aviões; ter mais dificuldade para conseguir serviçais; e ver a desigualdade social reduzida, mesmo que nem tanto assim. Isso era intolerável para a sua índole, sua visão egoísta de mundo. Era preciso tirar a esquerda, apesar dela ser light, do comando do país. O primeiro passo para tanto já havia sido dado com o afastamento de Dilma, em 2016. Mas isso precisava ser consolidado dois anos depois, com uma eleição que tivesse a melhor aparência possível de democrática.

Bancos, grandes empresas, agronegócio e mineradoras, entre outros setores, ampliariam ainda mais seus ganhos quase pornográficos e, acreditavam eles, Bolsonaro era um “inocente útil”. Entretanto, mesmo tardiamente, estão se dando conta de que não existe a inocência que acreditavam. Que o seu “boneco de ventríloquo” nunca pretendeu sair do colo, exceto se fosse para ocupar a cadeira do seu dono. Notaram que o número cada vez maior de militares em funções civis no governo federal não era um indício muito bom; que a facilidade para aquisição e porte de armas estava favorecendo fortemente os grupos milicianos desde sempre íntimos da “famíglia”; que a postura proposta para as nossas relações internacionais estava reduzindo o mercado externo; que a suposta corrupção antes denunciada era fichinha perto da atual; que incêndios e desmatamento estavam superando índices tolerados; que as fake news usadas como arma na eleição passada prosseguiram ameaçando todos, agora indistintamente.

Como se tudo isso não bastasse, a condução intencionalmente desastrosa da saúde pública no combate à pandemia está deixando um rastro de mortos que cresce sem parar. O peso dos corpos de mais de meio milhão de brasileiros que perderam a vida, um número que segue crescendo todos os dias em níveis alarmantes, situação agora agravada pela descoberta da tentativa de membros do governo lucrarem ilegalmente com a compra de vacinas, parece ser a gota d’água. Isso foi ainda pior do que a teimosia anterior de indicar o uso de medicação ineficaz. Portanto, chega a hora de parar e pensar um pouco.

A Globo começou a bater em Bolsonaro quase como fazia com Lula, anteriormente. Cresce o número de pessoas nas manifestações de rua contra o governo, que vão sendo feitas com frequência maior, em cada vez mais cidades. E a justiça, sem ter mais como sustentar a farsa levada a termo pelo ex-juiz Sérgio Moro e pelo procurador Deltan Dallagnol, inocentou o líder maior da oposição, que está crescendo sem parar em todas as pesquisas de intenções de voto para o pleito do ano que vem, muito antes de começar a fazer campanha. Já existem indicativos concretos de vitória ainda no primeiro turno. Isso soou o último alarme.

Uma “terceira via” precisaria ser estabelecida de imediato, para ser oferecida como alternativa à polarização Bolsonaro/Lula. Mas não parece haver mais tempo de ser tirado da cartola um coelho suficientemente gordo e forte. Dória, Ciro, Mandetta, o recém-incensado Leite, assim como o midiático Hulk, nenhum desses têm peso o suficiente para subir no ringue com chances mínimas de vitória. Então, a saída seria quebrar uma das pernas de quem está na frente. Como não existem mais argumentos jurídicos para deter Lula, mas sobram para parar Bolsonaro, a saída parece estar se desenhando. Não que seja fácil fazer isso, uma vez que sua base ainda é consideravelmente grande, violenta e armada, pouco afeita a luzes e cega por um fanatismo nutrido pelo WhatsApp, o SBT e a Record. Mas, com ele fora da disputa, seria mais fácil fazer campanha contra o “radicalismo” da esquerda, soprar as brasas do antipetismo para ver se volta o fogo e, depois, correr para o abraço. Tirando o bode da sala, a volta dos privatizadores entreguistas do PSDB ou dos fisiológicos do MDB pode parecer algo perfeito, aos olhos desatentos de boa parte do povo. Para os proponentes seria a troca do gado bovino por ovelhas. E isso pode colar, ainda mais se os candidatos forem elegantes, tiverem todos os dedos em ambas as mãos, algum diploma pendurado na parede, usarem bons perfumes e raramente passarem por destemperos verbais como os que caracterizam esse atual acidente da nossa história.

07.07.2021

Manifestações em São Paulo, 19 de junho de 2021. Foto de Paulo Pinto / AFP

No bônus de hoje, nada melhor do que a genialidade de Chico Buarque e sua facilidade com as palavras. Vai Passar nos conforta, com seu duplo sentido: a escola na avenida e também lembrando que não há mal que dure para sempre. Ele, um compositor atacado pelo ódio reinante, em samba anterior ao momento atual sendo mesmo assim muito pertinente. Um gênero alegre como os brasileiros vão voltar a ser, seja com as eleições do ano que vem ou, quem sabe, antes delas.