COCA-COLA versus GUIA ALIMENTAR

Uma das tantas matérias que o bom jornalismo do The Intercept Brasil produz, tradicionalmente, foi publicada em setembro deste ano (2021), com uma denúncia séria contra a Coca-Cola. A sede da empresa nos EUA havia, anos atrás, contratado a consultoria Sancroft para que analisasse riscos para a corporação no mundo todo. E o resultado do trabalho apontou como sendo muito perigosa para os seus interesses uma diretriz oficial produzida pelo Ministério da Saúde de nosso país. Estávamos no ano de 2014, durante o governo de Dilma Rousseff (PT), quando o então ministro Arthur Chioro aprovou a publicação do Guia Alimentar para a População Brasileira, o documento que tanto incomodou a multinacional dos refrigerantes.

Foi a sua existência que levou a Sancroft a apontar o Brasil como sendo um dos “maiores riscos globais para a companhia, em termos de políticas públicas”. Fomos classificados como chance “alta e severa” de haver dificuldades para a manutenção e ampliação do seu mercado. Mas o que afinal era esse guia? O primeiro a ser produzido em todo o planeta, ele separava os alimentos conforme grau e finalidade do processamento pelo qual ele passava. E fazia o que se espera que um Ministério da Saúde faça, pela sua população: alertava quanto aos riscos do consumo dos qualificados como ultraprocessados. Recomendava que as pessoas sempre escolhessem alimentos in natura ou minimamente processados, evitando os produtos químicos perigosos que os outros têm para a sua formulação e, principalmente, para a conservação e aumento do prazo de validade. Substâncias não raras vezes cancerígenas, que se somam ao excesso de açúcares e de sal.

Sete anos após sua publicação, o Guia Alimentar que se tornou um bom exemplo para inúmeros outros países, que seguiram recomendações nele contidas, ainda vive sob pressão constante de lobistas pagos pela indústria alimentícia e por boa parte dos ruralistas. Aliás, isso acontecia ainda antes do seu lançamento: a Associação Brasileira da Indústria de Alimentos (ABIA) solicitou que o mesmo não fosse publicado. Depois, advogou pela revogação do documento, nos anos seguintes. E agora esse grupo, cuja preocupação, a exemplo da Coca-Cola, está centrada nos lucros e não na saúde pública, passou a contar com apoio interno do próprio governo federal. Ficou muito mais fácil a sua vida, assim como mais ameaçada a dos consumidores. Exemplo concreto foi a bancada ruralista ter conseguido, com apoio governamental, revogar a obrigação duramente conquistada de ser identificada a presença de transgênicos com um T maiúsculo em triângulo amarelo, nas embalagens de produtos onde eles estavam presentes.

Uma cópia desse relatório produzido para a Coca-Cola foi localizada na base de dados da Universidade da Califórnia, graças ao trabalho da pesquisadora Camila Maranha Paes de Carvalho, da Faculdade de Nutrição da Universidade Federal Fluminense. O dossiê vazado tem ainda uma série de e-mails trocados entre funcionários da empresa, incluindo uma vice-presidente, Wamwari Waichungo. Nas mensagens discutem políticas que eram adotadas pelos concorrentes, redes de supermercados e por restaurantes. E também sobre temas como uso de açúcar, cafeína, corantes, transgênicos e rotulagem dos produtos. Foi possível ainda comprovar que a Coca-Cola se envolveu num grande esforço para que fossem produzidas “evidências científicas” que apontassem para o sedentarismo como o causador de doenças crônicas não transmissíveis, como hipertensão, diabetes e câncer, além da obesidade, sem associar alimentação inadequada. Na verdade, ambos os males precisam ser evitados.

A Sancroft tratou de alertar sua contratante também sobre a aversão crescente contra ingredientes artificiais, em especial adoçantes. E que era necessário, por causa disso, tentar resistir a determinações de um maior detalhamento nos rótulos. Também mostrou o quanto ruim seria a proibição da venda de bebidas gaseificadas nas cantinas escolares, o que estava sendo cogitado. Agora, com a proximidade do Natal, quando outra vez caminhões pintados de vermelho e cobertos com luzes desfilarem por nossas ruas e avenidas, talvez seja hora de todos nós os vermos de outra forma. Como apenas mais uma operação de marketing que visa empurrar goela abaixo do povo uma boa dose de veneno. Quem sabe lá, todos nós ainda possamos despertar para o quanto um suco natural geladinho tem uma relação muito mais honesta e saudável com essa data, num país tropical. E não somente nela, mas ao longo de todo ano.

16.12.2021

P.S.: A figura de Papai Noel vestindo vermelho e branco foi criada para anúncios da Coca-Cola, em 1931, pela agência de publicidade D’Arcy. Originalmente, suas vestes eram verdes e ele era magro.

Os bônus de hoje são múltiplos. Primeiro você tem uma versão reduzida do Guia Alimentar para a População Brasileira, que pode ser baixado agora mesmo. Aproveite e faça o download. Depois, o áudio da música Feijoada Completa, com Chico Buarque. E, para completar, uma paródia usando a melodia da música Dona Maria, como uma divertida forma de incentivar crianças pequenas para o consumo de legumes e verduras, ao invés de doces; e para sucos, no lugar de refrigerantes. Quem fez a composição, toca e canta é Aline Bauab.

O VENENO NOSSO DE CADA DIA

No Estado onde eu nasci e sempre morei, o Rio Grande do Sul, o mais meridional entre todos no Brasil, desde 1982 existe uma lei que tornou mais rigoroso o controle sobre o uso de produtos agrotóxicos e biocidas em seu território, comparativamente com o restante do país. E essa conquista foi simplesmente o resultado da inclusão, no texto legal, de uma norma bastante lógica: não se pode comercializar e usar nenhum produto que tenha sido banido no seu país de origem. Ou seja, se quem o fabrica prefere não correr os sérios riscos que sua aplicação pode trazer, por que cargas d’água devemos ser cobaias para os laboratórios ou, no mínimo, permitirmos sua lucratividade quando saúde e vidas em jogo são as nossas e não as deles?

No restante do país – desconheço se alguma outra unidade federativa também tratou de se proteger melhor, como a nossa – basta o registro na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Assim sendo, dando um exemplo, se um laboratório alemão produz um agrotóxico que na Alemanha não é aprovado para uso, ele não pode ser adquirido e usado por agricultores gaúchos. E vale o mesmo para produtos de quaisquer outras procedências. Mesmo com todo esse cuidado, nos últimos 39 anos, é altíssimo o índice de mortalidade devido a aplicações disso que a publicidade sempre fez questão de chamar de “defensivos agrícolas”. Porque mesmo os autorizados são muito tóxicos, a quantidade aplicada foge ao recomendado e ainda porque entram ilegalmente muitos que não poderiam estar sendo usados.

No Brasil, entre 2010 e 2019 foram oficialmente registrados 46,7 mil atendimentos de intoxicações diretas por agrotóxico, no momento do seu uso. Deste total, mais de 1,8 mil pessoas acabaram morrendo, com ênfase no sudeste e no nordeste. Pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) aponta para uma enorme subnotificação, significando que foram muito mais casos. Na última década a comercialização em nosso país vem crescendo, segundo os Indicadores de Desenvolvimento Sustentável (IDS), estudo elaborado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No ano de 2017 já foram mais de 500 mil toneladas. Em 2016 já aplicavam em média 6,9 quilos por hectare plantado; sendo hoje muito mais. E 64,1% dos venenos eram considerados perigosos e outros 27,7% muito perigosos. Como eles ficam residualmente nos alimentos, chegam ao corpo humano, onde se acumulam. A imensa maioria não é expelida, ficando armazenada no organismo e sendo importante causa de vários tipos de câncer.

O agrotóxico mais usado no Brasil é o glifosato – o Roundup, da Monsanto –, que vem sendo banido em toda a Europa. Os poucos países que ainda permitem seu uso, determinaram prazo final para a retirada, até início de 2023. Ele está relacionado aos cânceres de mama e de próstata, linfoma e várias mutações genéticas. A International Agency for Research on Cancer (IARC), da Organização Mundial da Saúde, confirma isso. A Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí) tem alertado para a grave situação na sua área de abrangência. Segundo a instituição, os agricultores têm abusado do uso de substâncias para secar culturas fora da época da colheita, buscando ampliar resultados. Além do glifosato, eles têm aplicado o 2,4-D, que é um dos componentes do “Agente Laranja” que o exército dos EUA usava durante a Guerra do Vietnã para desfolhar árvores e identificar soldados inimigos que nelas se escondiam, para emboscadas. Ele causa necrose nos rins e morte de células pulmonares, provocando asfixia. Pior é que pessoas acometidas não podem sequer receber oxigênio, porque o gás potencializa o efeito da droga.

Agora, diante desse quadro modesto e incompleto que apresento, porque a situação é muito mais complexa e grave, fica uma pergunta que não quer calar. Por que o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, do PSDB, encaminhou para a Assembleia Legislativa, em caráter de urgência, um projeto de lei que, entre outras providências, retira aquela defesa extra – mesmo insuficiente – que a população ainda tem? A votação deve ocorrer essa semana. Se ele for aprovado, as substâncias proibidas no exterior poderão entrar no nosso Estado legalmente, agravando algo que há muito vem fugindo do controle. Que interesses estão por trás disso? A saúde da coletividade pode ser oferecida de bandeja, para lucro extra de alguns poucos?

29.06.2021

No bônus de hoje, Chico César com a música Reis do Agronegócio. O nome completo desse compositor, cantor, jornalista e escritor natural da Paraíba é Francisco César Gonçalves.