O INCRÍVEL GRUPO HYPER KIDS AFRICA

Eles estão a alguns anos-luz distantes dos grandes astros da música. Não têm o glamour das apresentações em palcos suntuosos, diante de um público que gaste os tubos para os ver e fique horas na fila, tanto para a aquisição de ingressos quanto na luta por algum autógrafo. É pelo mais puro prazer que desenvolvem sua coreografia e demonstram se divertir com ela tanto ou mais do que quem os assiste. São apenas crianças e adolescentes pobres, de Uganda, na África. Mas, devido à autenticidade e à forma espontânea como parecem se apresentar, também ficam longe dos robóticos grupos de K-pop, da Coréia do Sul, que combinam canto, dança e performances muito sem sal.

Falo do Hyper Kids Africa, cujos membros são todos de zonas urbanas vulneráveis, como os arredores de Kampala. Pois eles, graças a vídeos nas redes sociais, como Tik Tok e Instagram, estão alcançando enorme popularidade, por sua energia e criatividade. Eles utilizam adereços do dia a dia, com vestuário simples e divertido, como perucas coloridas que também dividem. Os cenários são a sua própria comunidade. Mas sua alegria e espírito de superação contagiam de tal forma que, se fossem eles afastados dessa simplicidade, talvez perdessem a graça.

Eu os conheci vendo sua interpretação da música Calm Down, de Rema. Este é um dos nomes mais sonantes da nova geração da música feita na Nigéria. O gênero é o Afrobeats, com essa canção tendo se tornado um verdadeiro hino mundial após o lançamento. Bateu recordes mesmo, em paradas de vários países e em plataformas de streaming. E, embora sua versão original tenha alcançado sucesso, ele foi potencializado com uma interpretação na qual houve uma participação especial da cantora Selena Gomez, dos Estados Unidos.

No vídeo dos Hyper Kids Africa ela tem ainda outra variação. É o que chamam de sped up (acelerada), recebendo ainda a mistura de uma batida eletrônica. Desafios de Tik Tok utilizam frequentemente esse recurso para dar ritmo frenético às coreografias. O que os jovens africanos conseguem com desenvoltura. No vídeo em questão, eles são tudo o que são: não há cenários especiais, nem figurinos, nem efeitos especiais. Há uma dança intensa, eletrizante e vertiginosa. A alegria é real, não ensaiada.

Interessante é que eles têm demonstrado um apego muito grande para com artistas brasileiros. Em 2023 dançaram Zona de Perigo, música de Léo Santana. E fizeram também coreografias de Cria da Ivete, da baiana Ivete Sangalo. Outras homenagens se seguiram. Em setembro de 2024 apresentaram Mais Que Nada, de Jorge Bem Jor, vestindo todos eles camisetas do América Mineiro. E no final do ano passado eles postaram um vídeo no qual a bandeira brasileira aparecia fixada na parede de uma das suas casas. Na frente dela, coreografaram a música Movimento da Sanfoninha, de Anitta.

É curioso que, numa época na qual são tantas as coisas cuidadosamente fabricadas para parecerem espontâneas nas redes sociais, um grupo de crianças e adolescentes ugandenses pobres consiga isso sem esforço algum. Eles não parecem estar tentando convencer ninguém de que são felizes. Simplesmente dançam. E talvez seja por isso que me parece tão difícil assistir aos Hyper Kids Africa sem abrir um sorriso. Eu abri um, tão genuíno quanto o deles.

27.09.2026

O bônus é o fragmento de um vídeo no qual o Hyper Kids Africa coreografa Calm Down, de Rema.