O FUTURO FALA BAIXO
Quando um país começa a discutir se a proteção da natureza deve ou não passar antes pelo crivo daqueles que lucram diretamente com sua exploração, algo de muito errado está acontecendo. E não é porque agricultura, pecuária ou produção de alimentos sejam inimigas do meio ambiente — seria simplista e injusto afirmar isso —, mas porque certos limites civilizatórios parecem estar sendo negociados como se fossem apenas obstáculos burocráticos ao crescimento econômico. Limites esses que são mesmo necessários à sobrevivência humana.
A cena política brasileira frequentemente produz esse tipo de paradoxo. Enquanto cientistas alertam sobre mudanças climáticas, secas extremas, queimadas e perda acelerada de biodiversidade, parte significativa do Parlamento atua como se estivéssemos vivendo justamente o contrário: uma era de abundância ambiental infinita, onde florestas podem ser reduzidas, fiscalizações flexibilizadas e espécies tratadas prioritariamente sob a lógica do mercado.
Talvez o aspecto mais inquietante nem seja uma lei específica, mas a naturalização gradual desse processo. Todas as decisões passam a ser apresentadas falsamente como técnicas, administrativas, pragmáticas. Quase nunca como escolhas políticas profundas sobre o modelo de país que se deseja construir, o que é lamentável. Assim, a floresta deixa de ser floresta. Vira ativo econômico. O rio deixa de ser rio. Passa a ser obstáculo logístico. O animal invasor ou ameaçado já não é apenas uma questão ecológica, mas um problema de produtividade.
A chamada “Bancada Ruralista” da Câmara dos Deputados conseguiu, ao longo dos últimos dias, encaminhar uma sequência de propostas que restringem fiscalizações do Ibama contra o desmatamento ilegal, que reduzem em quase 40% a Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará – o que abre espaço para mineração ilegal e regularização de terras que estão ocupadas ilegalmente – e um projeto de lei que dá ao Ministério da Agricultura participação maior em decisões que cabem hoje ao Ministério do Meio Ambiente. Ou seja, está passando uma boiada, ao melhor estilo do ex-ministro de Bolsonaro, Ricardo Salles. Aquele envolvido em crimes de contrabando de madeira brasileira para o exterior.
Interessante é que existe uma ironia silenciosa nisso tudo. Um tiro no pé que não está sendo visto agora. O próprio agronegócio, frequentemente apresentado como justificativa para a flexibilização ambiental, talvez seja um dos setores que mais dependerão da preservação climática nas próximas décadas. Não há produtividade agrícola sustentável em solo devastado, ciclos hídricos desorganizados ou eventos climáticos extremos permanentes.
Mas o curto prazo costuma fazer muito barulho. E o futuro, quase sempre, fala baixo.
28.05.2026
P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é a música Sobradinho, composição de Luiz Carlos Sá e Guttemberg Guarabyra (Sá & Guarabyra). Ela foi lançada em 1977, no álbum Pirão de Peixe com Pimenta, e veio a se tornar um dos grandes clássicos da música brasileira com temática socioambiental. Aborda os impactos da construção da Barragem de Sobradinho, feita no Rio São Francisco, incluindo deslocamento de populações e transformação da paisagem.