Alguns anos atrás havia em Porto Alegre uma emissora de rádio em frequência modulada que só tocava música brasileira. O seu slogan era “Som Brasil Bonito”. Depois ela mudou de nome e de programação, passando a tocar também música estrangeira. E foi sofrendo outras transformações ao longo do tempo, que tiraram o que tinha de melhor, que era ser singular e ter identidade própria. Agora parece que voltou a usar a frase que a distinguia, mas para um único dos seus programas. Eu era ouvinte assíduo naquela sua primeira fase. Depois, com as mudanças, passei a me dividir entre ela e outros pontos diferentes no dial. Hoje em dia, pelo que sei, a audiência de todas as FMs está caindo, porque existem aplicativos e outros modos de se ouvir as canções que se prefira. Mas eu confesso que sinto falta de uma programação que valorize mais a produção nacional.

Em dois períodos da minha vida profissional fui diretor de emissoras de rádio e em ambas as ocasiões ampliei o percentual de participação das composições brasileiras, mesmo nunca tendo conseguido que elas fossem as únicas. Até porque nem precisa ser assim. O critério básico deve ser qualidade, mas a existência de uma identificação com a cultura local não deve ser nunca deixada de lado. E, vamos ser sinceros: a imensa maioria dos brasileiros que ouve – e até diz que gosta – da música que importamos dos EUA, por exemplo, não entende nada do que a letra está transmitindo. Existe uma barreira idiomática, uma vez que o percentual de brasileiros que domina o inglês é muito baixo. Eu próprio não me incluo nesse grupo bilíngue.

A verdade é que a música brasileira é riquíssima. E tem inclusive grande reconhecimento internacional, entre quem de fato entende do assunto. Essa sua qualidade vem de um conjunto de circunstâncias que se somaram, como a diversidade das origens étnicas e culturas que formaram o povo brasileiro. As dimensões continentais do país também contribuem para uma riqueza regionalista considerável. Entretanto, a programação da emissora citada era voltada mais para MPB, que é um imenso “guarda-chuva”, além de rock, pop, um pouco de bossa nova e eventuais sambas e forrós. Mesmo ela, que barrava as manifestações musicais estrangeiras, não generalizava sua playlist a ponto de incluir a música mais regionalista. Até porque, no Rio Grande do Sul, onde ela era ouvida – ainda não tínhamos a universalização trazida pela programação posta na internet –, existiam e existem outras, especializadas em música nativa.

Em termos de Brasil, temos axé, carimbó, lundu, forró; passeamos do samba à bossa nova; vamos do brega e da música caipira para chegar ao sertanejo; existe o choro, o maracatu e o piseiro. Aqui no extremo sul há milonga, vaneira, vaneirão, rancheira, chamamé, polonaise e chimarrita, derivadas das músicas que animavam danças de salão na Europa, no Século XIX. Eram elas a polca, a mazurca e a valsa. E em todo o território nacional existem variações muito próprias do rap, funk e rock, todos ritmos muito mais recentes. O Maranhão tem um reggae de fazer inveja à Jamaica. Em São Paulo se toca e canta de tudo. O frevo pernambucano não tem similar. E haveria muito mais o que citar.

Ao longo do tempo, já “exportamos” talentos extraordinários, como Naná Vasconcelos, Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal, Sérgio Mendes, Flora Purim, Airto Moreira, Bebel Gilberto, Laudir de Oliveira, Eumir Deodato e Paulinho da Costa. O mundo todo conhece e reconhece João Gilberto, Chico Buarque de Holanda, Heitor Villa-Lobos, Noel Rosa, Vinícius de Moraes, Dorival Caymmi, Tom Jobim, Baden Powell, Elis Regina, Milton Nascimento, Chiquinha Gonzaga, Gilberto Gil, Aldir Blanc… A lista é maior do que o espaço desta crônica. Mas tem que sobrar “espaço e tempo” nos nossos dias para que se ouça boa música. Porque ela alegra a alma, tranquiliza mente e espírito, pode nos ensinar a pensar e mudar nosso modo de agir.

12.02.2022

O bônus de hoje é Coração de Estudante, com Milton Nascimento. A canção foi composta numa parceria sua com Wagner Tiso. E é uma das mais belas produzidas na época da ditadura militar. A letra foi inspirada pelas lembranças do velório do estudante Edson da Lima, brutalmente assassinado por militares, em 1968. Virou quase um hino, ao ser abraçada pelos jovens que lutavam pela democracia, sendo cantada em coro nas manifestações dos anos 1980.

Essas são as duas sugestões de leitura de hoje, indicações baseadas no texto da crônica publicada. Para ter acesso e decidir pela aquisição de uma ou de ambas, basta clicar sobre as capas acima. Se compras forem feitas através desses links, o blog será comissionado.

  1. Uma História da Música Popular Brasileira: das origens à modernidade – Jairo Severiano, um dos maiores conhecedores de nossa música, assumiu aqui uma tarefa enciclopédica: contar em um único volume os mais de duzentos anos de história da música popular brasileira, do século XVIII até os dias de hoje. Estruturada em quatro “tempos”, a obra contextualiza os principais gêneros e movimentos da música brasileira, bem como os compositores e intérpretes que melhor souberam representá-los.
  2. História da Música Brasileira em 100 Fotografias – Desde as suas matrizes sonoras, forjadas nos tambores de origem africana e nos instrumentos de sopro indígenas, a música brasileira é apresentada neste livro em cem fotografias que buscam contar a sua história, colocando em foco seus principais gêneros, personagens e eventos. A partir desse encontro da música e da fotografia, revela-se um panorama impressionante da expressão cultural que tem sido elemento-chave para afirmação da nossa identidade, além de potência artística singular no planeta. Veremos, assim, que as cem imagens da nossa história musical – e os textos de especialistas que as acompanham – contam também a trajetória do próprio país.

4 Comentários

  1. Olá amigo, ultimamente tenho lido, mas quase não comento. Primeiramente parabéns pelo conteúdo, te conheço e sei do seu conhecimento e apreço pela música de qualidade! Realmente sinto muita saudade de rádios que valorizavam a nossa MPB. A música brasileira tinha espaço porque era boa e de muita qualidade! A partir do final dos anos 90, todos sabem o que aconteceu. Começaram a infestar a maioria das rádios com algo que hoje chamam de música, mas que não passam verdadeiras aberrações, com algumas exceções! Se dependessemos somente de emissoras de radio para ouvirmos nossas músicas preferidas, estaríamos fritos! Felizmente hoje temos a Internet e o streaming para criarmos nossas playlists preferidas! Parabéns pelo belo texto e bela reflexão, meu amigo! E viva a verdadeira MPB! Abraços!

    ,

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s