Ele se desprendeu do solo de uma forma surpreendente. Foi muito alto mesmo e pousou de modo assustador, de peito no chão. Bateu com tanta força e tão desajeitado que teve sorte da lesão não ter sido maior. Mesmo assim ela foi suficiente para retirá-lo do restante do jogo, justo no momento mais consagrador da sua carreira vitoriosa, após marcar um gol que deixou uma imensa torcida em êxtase. Ele errou o cálculo, superestimou sua capacidade acrobática e a tentativa de fazer um salto mortal quase que resulta em ser o movimento literalmente digno do nome que recebe.

O baiano André Catimba completou 60 anos essa semana, o que me fez relembrar tudo isso. É um homem comum e hoje quase anônimo, que vive outra vez em Salvador, de onde tinha vindo para o Grêmio, naquele longínquo ano de 1977. Mas foi um herói para quem torcia para o tricolor. Veio compor um ataque muito forte, jogando entre Tarciso e Éder, treinado por Telê Santana. E fez parte do grupo que devolveu aos gremistas a alegria de um título estadual, depois de oito longos anos sendo sempre vice. Eu estava lá, ao lado de um grande número de amigos, que tinha arregimentado. Nem todos se conheciam, até então, mas atenderam minha “convocação” para que houvesse uma reunião no largo da prefeitura, às 9 horas da manhã. No horário combinado, estavam lá, junto à Fonte Talavera de La Reina – foi uma doação da colônia espanhola, em homenagem ao centenário da Revolução Farroupilha –, com suas camisetas, bandeiras e esperança: colegas do Parobé, do Julinho e do IPV; vizinhos e amigos de outros locais. Isso que o jogo começaria sete horas depois. Ou seja, chegamos muito cedo mesmo ao velho e histórico Estádio Olímpico.

Carlos André Avelino de Lima, o Catimba, fez um total 67 gols com a camiseta do tricolor gaúcho. Mas aquele marcado dia 25 de setembro de 1977 foi o mais importante de todos eles. E sua perigosa comemoração uma das mais estúpidas da história do nosso futebol. Foi perdoado apenas porque a ausência nos minutos restantes do primeiro tempo e em toda a segunda etapa da partida não impediu a vitória e a reconquista da hegemonia, contra um adversário tradicional e que era, naquele momento, bicampeão brasileiro. O público atingiu 57.186 pessoas, que foram testemunhas de um jogo emocionante.

Para tornar mais dramática a vitória, Tarciso chutou o chão e bateu para fora um pênalti marcado aos 22 minutos. Meu amigo Morungava, que era imenso e quase assustador, uma espécie de guarda-costas do grupo todo, desabou ao nosso lado. “Enea não, enea não”, repetia ele meio atordoado, com as mãos na cabeça. Ainda no primeiro tempo, aos 42, aconteceu o gol e o desfalque do nosso matador. A segunda etapa foi de pressão colorada e contra-ataques cada vez mais perigosos do Grêmio. Mas as defesas foram mais competentes e o placar prevaleceu. O último problema foi que o jogo não terminou. Já além do tempo regulamentar, o árbitro levantou os braços e apitou para marcar um lance. Parte da torcida gremista, com as emoções represadas por quase uma década, pensou que se tratava do apito final e invadiu o gramado para comemorar. Gente de vermelho também saiu das arquibancadas para o gramado e a situação ficou tensa. Quando o problema estava por ser contornado, uma briga entre alguns jogadores e torcedores remanescentes fez com que se reestabelecesse o impasse. O Internacional se retirou de campo, o juiz esperou pela volta os 30 minutos regulamentares e encerrou a partida. A Federação Gaúcha de Futebol recolheu a taça, não fazendo a entrega para o Grêmio e causando grande frustração. No dia seguinte a torcida cercou a sede da FGF, numa manifestação organizada, exigindo e conseguindo que o troféu fosse afinal entregue. E a festa se prolongou por toda a semana.

Na saída do estádio, depois de mais de uma hora de espera, voltamos a pé até o centro da cidade. Sobre o viaduto da João Pessoa, o motorista de uma Kombi fez manobra proposital e atingiu meu braço, no qual eu apoiava orgulhoso uma grande bandeira tricolor. E saiu ofendendo todo mundo e gritando ser colorado. Só que o motor apagou alguns metros adiante e ele foi alcançado pela turma. Mas eu não ficara ferido com gravidade e tinha muito maior motivo para estar feliz do que para brigar. Com os mais exaltados contidos, sem que o imprudente sofresse qualquer represália além do susto, fomos para o mesmo ponto de onde havíamos saído, ainda pela manhã. Lá tiramos fotos sentados nos leões que guardam as portas da prefeitura, comemorando ainda por bom tempo. E todos chegamos tarde e roucos nas nossas casas, mas radiantes de felicidade graças ao gol que antecedeu o desastroso voo de André Catimba.

04.11.2020

O arqueiro do Inter está de joelhos, Tadeu Ricci confere o gol e André tenta voar

No bônus musical de hoje, Quenn e a muito apropriada We Are The Champions (Nós Somos os Campeões), em outra performance memorável de Freddie Mercury.

1 Comentário

  1. Jogo polêmico…com lances discutidos até hoje…a menção do Morungava o atleta do grupo traz boas lembranças…o fato de que o motorista saiu ileso nos remete a uma época de torcedores de verdade, e não essa mistura de hoje…onde bandidos estão misturados, e organizados em grupos cada vez mais violentos, aterrorizam as cidades.

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