Existe uma empresa na cidade de São Paulo que trabalha com cinema e audiovisuais brasileiros. Trata-se de uma espécie de escritório profissional que se dedica a financiar, desenvolver e implementar programas para quem atua nesse setor, incluindo games, televisão e mídias novas. A Spcine não é privada, sendo iniciativa da Prefeitura de São Paulo, através da sua Secretaria Municipal de Cultura. Faz, em âmbito local, parte daquilo que poderia e deveria ser feito em âmbito nacional pela Ancine, que tem sede em Brasília, mas hoje está propositalmente desidratada pelo governo federal. Claro que essa última, além de fomentar, também tem o encargo de regular e fiscalizar a indústria cinematográfica e videofonográfica, algo que legalmente não poderia ser competência da primeira.

Com suas naturais limitações, a Spcine tenta reconhecer e estimular tanto o potencial criativo como também a viabilidade econômica das produções paulistanas, considerando seu impacto nos âmbitos social e cultural. Esses impactos são algo levado muito a sério em outros países. A Índia, com apoio governamental, é recordista mundial no número de produções. A Coreia do Sul tem crescido e conquistado mercados devido a uma decisão estratégica de suas lideranças políticas – acaba de ganhar o Oscar de Melhor Filme com a produção Parasita, dirigida por Bong Joon-ho, um prêmio inédito para filme não em língua inglesa. E os EUA faz uso permanente de sua produção cultural, em especial do cinema e da música, como arma que legitima sua hegemonia política global. Na economia, esta realidade está hoje seriamente ameaçada pela China.

A boa notícia, que vale também para quem está distante de São Paulo, é que a Spcine está disponibilizando seu acervo de forma gratuita, durante o período de isolamento social que estamos vivendo, em função da pandemia do coronavirus. Basta acessar o site da empresa e não se precisa nem sequer fazer cadastro. Depois, comodamente sentado no sofá da sala, tendo uma smartv – ou mesmo acessando através de notebook, em qualquer lugar da casa –, se pode escolher entre títulos como Pixote, a Lei do Mais Fraco; O Beijo da Mulher Aranha; Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia; e Carandiru, os quatro do diretor Hector Babenco. Ou Brava Gente Brasileira; e Quase Dois Irmãos, de Lúcia Murat. Isso para citar apenas alguns dos disponíveis, desses dois diretores, porque existem outros. Basta clicar sobre o cartaz do título que escolher. O streaming sai a custo zero.

Há também quase a totalidade da produção de Zé do Caixão, nome artístico de José Mojica Marins – na verdade de um dos seus personagens, que acabou virando uma espécie de marca registrada –, um diretor tido como trash por alguns e ídolo por outros. Ele é o considerado o pai do terror nacional, sendo reconhecido no mundo todo pelo modo singular como narrava suas histórias. Nascido na Vila Mariana, depois morou nos fundos de um cinema na Vila Anastásio, sendo seu gerente. Antes disso, aos 12 anos, ganhou uma câmara V-8 que passou a ser seu “brinquedo” predileto. E, aos 17, fundou com amigos e vizinhos uma escola de interpretação. Quem quiser se arriscar a sentir medo – ou talvez assumir dar boas risadas vendo os efeitos – pode ver A Meia Noite Levarei Sua Alma; Esta Noite Encarnarei em Seu Cadáver; ou O Despertar da Besta, citando três dos 12 filmes disponíveis.

Voltando a sugestões menos extremas, o acervo da Spcine tem também bom número de documentários, séries, infantis, mostra com filmes de diretoras mulheres, musicais, mostra de audiovisuais negros e muito mais. Entre os documentários, recomendo para leitores aqui do sul que vejam O Caso do Homem Errado, de Camila de Moraes. Ela conta a história real de um homem negro, o operário Júlio César de Melo Pinto, que nos anos 1980 foi executado por soldados da Brigada Militar, em Porto Alegre. Fora confundido com um assaltante e fotos publicadas na imprensa o mostram sendo colocado numa viatura, sem nenhum ferimento, e também desembarcando em hospital 37 minutos depois, morto a tiros. O trabalho do fotógrafo Ronaldo Bernardi, da Zero Hora, foi fundamental para provar que ele fora morto no caminho até a delegacia de polícia, em terreno baldio na Avenida Cristiano Fischer.

As investigações do crime, feitas em função de forte pressão da opinião pública – foi apenas dois anos após o final da ditadura militar e estava sendo elaborada a nova Constituição –, posicionada pela ação do Movimento de Justiça e Direitos Humanos e pelo Movimento Negro Unificado (MNU), impediram mais uma injustiça. Sem isso, Júlio seria considerado culpado por um crime que não cometeu e os assassinos ficariam impunes. O problema do operário foi ser pobre e negro, além de estar no lugar errado na hora errada. Certo é o momento de aproveitarmos o acesso gratuito a essa e tantas outras boas histórias. Dolorosamente reais ou de ficção.

03.04.2020

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