ME PERMITA ORAR POR VOCÊ
Linda Inês de Souza é uma médica intensivista e socorrista que atua na linha de frente de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), assim como em serviços de emergência e resgate, estilo SAMU. Sua formação é sólida, tendo inclusive uma pós-graduação em POCUS (Point-of-Care Ultrasonography), uma técnica que é essencial para diagnósticos rápidos em ambientes de emergência. E sua trajetória registra passagens em algumas instituições renomadas no exterior, como o Queen Elizabeth Hospital, na Inglaterra, e o Hospital Erasme, na Bélgica. Além do seu trabalho regular, hoje em dia ela é frequentemente associada a grupos de ensino médico (como o MD Ensino), onde atua como instrutora e palestrante. Foi a forma que adotou para o compartilhamento do seu conhecimento técnico sobre o manejo de pacientes críticos.
Recentemente tive acesso a um vídeo no qual ela concedia entrevista para um podcast, o que teria sido pelo menos uns dois anos atrás. Mas, uma determinada narrativa e o modo como ela a fez, me motivaram para reproduzir aqui a história. O episódio, que ela citou com um dos tantos dolorosos que vivenciava em seu trabalho, ocorreu durante um resgate realizado em estrada na região metropolitana de São Paulo. Um grave acidente, entre dois caminhões, havia deixado um dos condutores preso entre as ferragens, em estado gravíssimo. Na verdade, foi constatado que ele estava em uma situação “incompatível com a vida”. Ou seja, se fosse removido morreria no mesmo momento.
Ela, depois de ter entrado espremida na cabine destroçada e constatado a irreversibilidade do fato, passou a conversar com o motorista, ainda consciente. E perguntou o que ele queria fazer, imaginando que ouviria algum pedido de levar mensagem posterior a familiares, ou coisa assim. Entretanto, foi surpreendida com a pergunta se ele poderia orar por ela. Diante do seu espanto, o homem acrescentou que gostaria de pedir, com a oração, que ela soubesse que fizera todo o possível. E ainda que lembrasse, depois daquele dia, que nascera para aquela missão. Ou seja, ao invés de ser consolado ele preferiu consolar a socorrista, que estava impotente.
Esta inversão inesperada de papéis foi de tal forma impactante que ela guardou na memória como um inacreditável exemplo de vida. Mesmo sendo declaradamente espírita, capaz de compreender um pouco tantas das razões aparentemente insondáveis da existência, não foi possível deixar de ficar sensibilizada: a técnica fria, necessária para todo e qualquer resgate, foi inundada pela emoção profunda do momento. O paciente, no instante de sua maior fragilidade física, em preparo de despedida, se tornava um provedor de força espiritual. Entregava para ela, que detinha o conhecimento de como agir, algo muito além da prática.
Em geral, as orações vão do saudável para o doente, daquele que fica para o que agoniza. Ao pedir “permissão”, o caminhoneiro devolvia para a Dra. Linda uma humanidade que, às vezes e por absoluta necessidade, o protocolo do SAMU e o uniforme de socorrista precisam esconder. Ele a abençoava. E este ato de desprendimento e generosidade demonstrava o quanto seu espírito era evoluído. O quanto estava levando consigo, da sua passagem terrena, em termos de bagagem e evolução. E muito ele deixou com ela, para atendimentos futuros.
02.05.2026
P.S.: A arte que acompanha esta crônica foi gerada com Inteligência Artificial. E não tem, de modo algum, a pretensão de ser fiel ao fato ocorrido. É meramente ilustrativa.

O bônus de hoje é clipe da música O que é o que é, de Gonzaguinha, na voz de Bruna Caram.