O MUNDO GIRA EM TORNO DA BOLA

A partir de hoje o mundo volta a girar em torno de uma bola. Começa outra Copa do Mundo, com o mais amado de todos os esportes tendo o maior de todos os troféus em disputa. Não são clubes, mas sim seleções nacionais que se enfrentam. Mas esses confrontos não são belicosos, uma vez que todas as batalhas são simbólicas e duram 90 minutos ou pouco mais. Agora, que ninguém se iluda: de quatro em quatro anos o que entra em campo não são apenas os selecionados; o que está em questão não é apenas um jogo de futebol. Vitórias, derrotas e interesses vão sempre muito mais além.

Cada um desses ciclos alcança o ápice em um país – ou dois, como já ocorreu antes – previamente escolhido, quando então juntam-se todas as bandeiras classificadas nas eliminatórias, com suas torcidas, suas cores e cânticos. Um show de culturas e de confraternização é oportunizado, mesmo que nos bastidores esteja operando a pleno vapor uma inevitável mercantilização de tudo. A paixão é negócio dos mais rentáveis. Tudo é previsto nos mínimos detalhes, para que se otimize atenções que geram faturamento.

Hoje às 13 horas os olhares de todo o planeta estarão voltados para o que ocorrerá no Estádio Al Bayt, que recebe Qatar e Equador, no jogo de abertura. Depois dele, mais 29 dias até que o capitão de uma das 32 equipes que entrarão em campo levante a taça. Ela é um objeto de ouro maciço, pesando seis quilos, tem 36,2cm de altura, com base de 11,2cm e 13,8cm no seu ponto mais largo. Considerando apenas o valor do metal precioso, seria algo em torno de R$ 1,1 milhão. Mas existe ainda o valor agregado, enquanto obra de arte. Seu desenho mostra a composição de duas figuras humanas segurando o globo acima delas. O trabalho é do escultor italiano Silvio Gazzaniga, que faleceu em 2016, com 95 anos.

Essa é a 22ª Copa do Mundo da história, com a pioneira entre elas tendo acontecido no Uruguai, em 1930. Mas é a primeira que ocorre em um final de ano, uma vez que todas as demais foram em julho, mês no qual o hemisfério norte vive o forte do verão. Também é inédita a realização em um país árabe. O Qatar investiu bilhões de dólares, primeiro para conseguir sua indicação e escolha, depois para construir toda a infraestrutura necessária. Isso porque se deu conta da oportunidade rara que teria para fazer com que a cultura do Islã fosse vista no mundo todo, de modo positivo. Que a sua própria imagem fosse melhorada. 

Foi assim que um país com área territorial apenas um pouco maior do que a região metropolitana de Porto Alegre (11.571 km² contra 10.097 km²) se projetou como um gigante, pela força das suas reservas petrolíferas de 25,2 bilhões de barris já comprovados. Aliás, está sendo o petróleo dos cataris a garantir o necessário reforço para a União Europeia, depois que a guerra entre Rússia e Ucrânia afetou sua principal fonte. Deste modo, o inverno não será tão congelante nas residências e muitas indústrias vão conseguir manter sua produção.

O país vem sendo acusado pela forma como teria tratado trabalhadores estrangeiros que garantiram a construção de sete novos estádios e a reforma do único que possuíam com tamanho suficiente, que é o Khalifa. Mas, o que pensamos quando são descobertos “empreendedores” aqui no Brasil mantendo pessoas em condições análogas à escravidão? Isso tem acontecido cada vez mais: gente morando em subsolo sem direito sequer à luz do sol, para produzir roupas; colhendo safras que trazem fortunas para o agronegócio; atuando na construção civil ou mesmo no trabalho doméstico.

O conservadorismo e a tradição que se enxerga com tanta facilidade no Oriente Médio, não acontece com relativa semelhança por aqui? Talvez apenas termos e temas sejam distintos. Podem todos ter certeza que por lá não se canta hino para pneus no meio de estradas, nem se ajoelha e bate no peito em plena rua, em absoluta histeria. Resta o problema real e grave de serem as mulheres ainda tratadas de forma inadequada, com discriminação e violência. Mas aqui já temos a igualdade absoluta? Homens e mulheres recebem as mesmas oportunidades e salários idênticos? Houve época que sequer direito a voto tinham as brasileiras. E o feminicídio segue sendo uma realidade absurda. Ah! mas o fanatismo religioso dos muçulmanos é inaceitável. Alguém já viu sessões de “exorcismo” dentro de alguma sede pentecostal?

A grande verdade é que o mundo não é perfeito. E, na média, sequer tão democrático quanto uma partida de futebol. Admitir isso está longe de se concordar com isso. Ao contrário: é necessário que se lute muito mais e sempre por conquistas que nos humanizem. Por direitos humanos, por liberdade, contra quaisquer injustiças, por saúde e educação de fato universalizadas, combatendo a desigualdade social, racismo e outras formas de preconceito. Mesmo assim, não precisamos abrir mão de torcer, assim como não se precisa deixar de apreciar arte, valorizar cultura e sonhar. Pessoalmente, vou torcer por duas coisas na Copa: primeiro pelo Brasil, depois por um futebol de qualidade pouco me importando que nação o pratique. Porque gosto do esporte em si. E porque amo esse país, independente de ter ocorrido em passado recente uma lamentável apropriação de seus símbolos, como a bandeira e o hino, pela extrema-direita fascista. Conspurcaram as cores amarela e verde, mas não são proprietários delas.

Não vou ficar indiferente quando nossos jogadores estiverem em campo, mesmo tendo plena consciência que um Neymar nunca terá a dimensão pessoal e política de um Sadio Mané. Mesmo sabendo que a FIFA hoje se preocupa mais com o lucro do que com o espetáculo, apesar de não dissociar um do outro. Todos nós que gostamos de cinema vemos filmes, mesmo entendendo se tratar de uma indústria bilionária e que se presta a incutir ideologias nem sempre aceitáveis.

Poucas alegrias, por exemplo, podem ser comparadas a de um pai que leva seu filho ou filha nos ombros, com as cores de um time, em algum estádio de futebol. Lembrança eterna para ambos. Não podemos e não devemos abrir mão de sonhos e de alegrias. No final da manhã de hoje estará começando uma oportunidade festiva ímpar. Vamos encarar isso dessa forma. É apenas futebol, mas o futebol pode ser muito. E assim será, ‘iin sha’ allah (se Deus quiser)!

20.11.2022

O bônus musical de hoje é Meio de Campo, na voz de Elis Regina. A composição de Gilberto Gil homenageia o jogador Afonso Celso Garcia Reis, o Afonsinho, um espetacular meio campista que jogou nos quatro maiores clubes do Rio de Janeiro, mas foi excluído da Seleção Brasileira por ser esquerdista e dedicar-se a temas sociais. Após deixar a carreira, tornou-se médico.

ESQUERDA, VOLVER

Em entrevista concedida em março deste ano, o presidente Joe Biden admitiu que chamava a América Latina de “quintal dos Estados Unidos”, durante seu tempo na universidade. Agora em junho, em função da Cúpula das Américas, acabou fazendo uma pequena correção e tratou de assegurar que somos o “terreno de entrada”. Ou seja, mudamos dos fundos para a frente, ficando agora como um local de passagem, para ser pisoteado. Isso que para todos nós foi mais interessante a sua eleição do que ser reconduzido o fascista do Trump. Entretanto, coisas como essa apenas demonstram que a única diferença entre democratas e republicanos, para seus “irmãos do sul”, é que os primeiros usam vaselina.

Mas, algo está mudando nos últimos tempos. E esse jardim do Biden e dos seus arrogantes conterrâneos está ficando repleto de rosas, todas vermelhas. Verdade que pelo menos uma delas já está nele há muito tempo, sendo um doloroso espinho a lembrar a surra que o gigante da bandeira estrelada levou da anãzinha corajosa. Falo de Cuba. Também a rosa Nicarágua incomoda muito e é relativamente mais antiga, assim como a Venezuela. Essa terceira os jardineiros passaram a respeitar mais, subitamente, depois de iniciada a Guerra da Ucrânia. Ela sumiu do noticiário que colocava lupa diária nos problemas locais, uma vez que o petróleo que oferta no mercado ganhou importância lá na parte alta do mapa. Esqueceram até de chamar Juan Guaidó de presidente, cargo para o qual ele jamais foi eleito.

Eleitos foram outros, avermelhando o jardim. Em 2019, quem abriu essa porta foi Alberto Fernández, ao vencer Maurício Macri, que buscava sua reeleição, com a esquerda então ocupando a Casa Rosada. Conseguiu isso ainda no primeiro turno das eleições na Argentina. Seguiu-se a tendência com o Peru: o professor da área rural, Pedro Castillo, venceu em junho Keiko Fujimori, filha do ex-presidente direitista Alberto Fujimori. Em dezembro ocorreu resultado semelhante no Chile, onde o deputado e ex-líder estudantil Gabriel Boric venceu o advogado José Antônio Kast. E também no final de 2021, Xiomara Castro chegou ao poder em Honduras.

Não se pode deixar de citar um caso que teve simbologia especial. Na Bolívia, um ano depois do esquerdista Evo Morales ter sofrido um golpe, o povo conseguiu pressionar por novas eleições, voltando às urnas no final de 2020 e devolvendo o controle do país para a esquerda. O eleito foi Luis Arce, do Movimento ao Socialismo, ainda no primeiro turno e com enorme repercussão regional. Naquele país, ex-ministros golpistas, como Luis Fernando López e Arturo Murillo, com ordens de prisão emitidas pelo Ministério Público após o novo pleito, fugiram para os EUA. O Brasil teria auxiliado, sendo rota de fuga para várias pessoas envolvidas na derrubada do presidente anterior, que fora eleito pelo voto popular.

A mais recente aquisição para o grupo foi a Colômbia, que pela primeira vez em sua história está colocando no poder um governo de esquerda. Foi no último domingo a vitória de Gustavo Petro sobre o candidato da extrema-direita Rodolfo Hernández, em um segundo turno bastante acirrado. Esse ineditismo, alcançado em uma sociedade extremamente conservadora e que sofre forte e direta influência dos EUA há décadas, comprova o fracasso da política neoliberal, que vinha conseguindo apenas aprofundar as desigualdades sociais naquele país e em todo o continente. Deste modo, são agora nove os países que se alinham numa tentativa de oferecer governos democráticos, voltados aos reais interesses da maioria da população. Todos eles com propostas que, reconhecidas suas peculiaridades locais, valorizam mais os programas sociais de combate à desigualdade, com geração de emprego e renda; o desenvolvimento sustentável; questões humanitárias; sua cultura; habitação e transporte; educação e saúde pública.

O “camisa dez” desse time deverá ser o Brasil, considerando que Lula está bastante à frente nas pesquisas eleitorais. Caso isso se confirme, outubro marcará o retorno do país ao período de real prosperidade vivido recentemente. E com a virada do ano haverá uma virada na vida da população. Ou uma “revirada”. Deve diminuir outra vez o número de famintos, que tem crescido; voltar a esperança do filho do porteiro do prédio chegar à faculdade; da classe C adquirir passagens aéreas; da gasolina deixar de ter seu preço alinhado ao dólar. As universidades públicas terão sua autonomia respeitada; as ilegalidades amazônicas serão enfrentadas; não haverá risco dos atendimentos via SUS passarem a ser cobrados; cessará a sanha privatizante, a tempo da Petrobrás e do Banco do Brasil serem salvos. A era da pós-verdade chegará ao fim, com combate efetivo ao disparo de fake news, sendo a justiça apoiada na punição dos responsáveis. A pesquisa será outra vez incentivada; a ciência terá respeito e, com isso, a terra plana novamente se tornará esférica e nenhum vacinado vai se transformar em jacaré. A era da pós-verdade chegará ao fim, com combate efetivo ao disparo de fake news. Outubro pode inclusive devolver aos brasileiros o direito de usar camisetas verde-amarelas com fins meramente esportivos, para quem sabe comemorar uma outra vitória, na Copa do Mundo que ocorre em novembro, no Qatar. Por fim, nossa bandeira voltará a ser de todos. E o Brasil não estará acima de tudo, mas ao lado de cada um de nós.

22.06.2022

Gustavo Petro, eleito domingo presidente da Colômbia, ao lado de sua vice Francia Márquez:
mulher negra, advogada e ativista ambiental

O bônus de hoje é o clipe com a música Sem Medo de Ser Feliz. Essa gravação foi feita com base na versão original do jingle de Hilton Acioli. E foi feito para presentear Lula, em surpresa preparada por sua esposa Janja. Dele participam vários músicos e artistas brasileiros.

DICA DE LEITURA

A ELITE DO ATRASO: da escravidão a Bolsonaro, de Jessé Souza

(272 páginas – R$ 22,84 – edição revista e ampliada)

Quem é a elite do atraso? Como pensa e age essa parcela da população que controla grande parte da riqueza do Brasil? Onde está a verdadeira e monumental corrupção, tanto ilegal quanto “legalizada”, que esfola tanto a classe média quanto as classes populares?

A elite do atraso se tornou um clássico contemporâneo da sociologia brasileira, um livro fundamental de Jessé Souza, o sociólogo que ousou colocar na berlinda as obras que eram consideradas essenciais para se entender o Brasil.

Por meio de uma linguagem fluente, irônica e ousada, Jessé apresenta uma nova visão sobre as causas da desigualdade que marca nosso país e reescreve a história da nossa sociedade. Mas não a do patrimonialismo, nossa suposta herança de corrupção trazida pelos portugueses, tese utilizada tanto à esquerda quanto à direita para explicar o Brasil. Muito menos a do brasileiro cordial, ambíguo e sentimental.

Sob uma perspectiva inédita, ele revela fatos cruciais sobre a vida nacional, demonstrando como funcionam as estruturas ocultas que movem as engrenagens do poder e de que maneira a elite do dinheiro exerce sua força invisível e manipula a sociedade – com o respaldo das narrativas da mídia, do judiciário e de seu combate seletivo à corrupção.

Basta clicar sobre a imagem da capa do livro, que está logo acima, para adquirir o seu exemplar. Caso isso seja feito usando esse link, o blog será comissionado.