A BADERNA E O BEDELHO
Sei lá qual é a razão disso, mas eu sempre adorei descobrir a origem de certas expressões que as pessoas usam em suas conversas informais e que, vistas isoladamente, parecem absurdas. Algo que surge em algum contexto determinado e que depois passa a ser utilizado em outro, que em geral não se teria como associar. Coisa como os mais velhos me dizerem, eu ainda menino, para não meter meu bedelho em algo. Mas, que raios era isso que eu tinha e não sabia?
Eu entendi que era para não me intrometer no assunto, mas só agora descobri o que vinha a ser o tal bedelho. E, como nem tudo é simples, este infeliz ainda tem duas prováveis origens diferentes. Dicionários afirmam tratar-se de uma peça pequena ou carta usada em alguns jogos e que tinha pouco valor. Só serviam para interferir, para atrapalhar a jogada dos outros. Entretanto, há uma discussão de ordem etimológica. O conceituadíssimo Houaiss, por exemplo, em seu verbete associa o termo ao espanhol bedel, que indica funcionário subalterno, um fiscal que era encarregado apenas de vigiar e transmitir ordens.
Saber isso ajudou a esclarecer aqueles antigos fatos, mas não deixou de ser um golpe – felizmente tardio – na minha autoestima. Uma declaração de subalternidade e desimportância. O que, convenhamos, não raras vezes os adultos atribuem aos “miúdos”, como se diria sendo português. O que também fiquei sabendo nessas minhas pesquisas é que existe até um verbo que nasceu da expressão. Mesmo pouco usado hoje em dia, bedelhar significa bisbilhotar, intrometer-se onde não se é chamado e até mesmo meter-se na vida dos outros.
E a baderna aquela, que políticos chegaram a apontar em passado bem recente como sendo característica presente nas universidades públicas, ao lado da “balbúrdia” – eles, acho que não cursaram nenhuma, fosse pública ou privada –, de onde foi que veio? Minha pesquisa se revelou ainda mais surpreendente, pois ela existiu, era uma pessoa. Marietta Baderna (1828–1892) foi uma bailarina italiana que veio para o Brasil e se radicou no Rio de Janeiro. Sua história é extraordinária e o seu sobrenome acabou incorporado ao português falado e escrito em nosso país, no sentido de confusão, tumulto e desordem.
Mulher talentosa e tida como muito bonita, ela logo conquistou um grupo particularmente entusiasmado de admiradores. Estes, conhecidos como “badernistas”, provocavam manifestações ruidosas e até tumultos nos teatros cariocas, especialmente em meio às disputas entre partidários de diferentes artistas. Com o tempo e as ações destes fãs, o sobrenome da bailarina sofreu um processo raro e delicioso de transformação em substantivo comum.
Baderna apresentava-se em geral no Theatro São Pedro de Alcântara, um dos principais espaços culturais da Corte. Sua formação era a do balé clássico europeu, mas uma vez aqui ela começou a aproximar sua dança de manifestações populares brasileiras — particularmente ritmos e movimentos associados ao lundu e às culturas afro-brasileiras. Existe um estudo acadêmico sobre sua trajetória que ressalta justamente como suas performances ajudaram a aproximar o balé, então associado aos padrões europeus, das danças populares brasileiras. E isso tinha enorme significado social no Brasil escravista de meados do século XIX. O valor da bailarina europeia se evidenciou porque não apenas observava essas manifestações como passou a incorporá-las artisticamente.
Se os políticos aqueles soubessem disso, teriam razões não apenas para fazer uso do sobrenome da moça, como também para odiá-la. Onde já se viu aproximar o povo daquilo que deveria ter sido mantido como uma das tantas exclusividades da elite? Para finalizar, aqui no “Sul Profundo” se diria que Marietta Baderna era uma mulher “de faca na bota”. Porém, isso já é fazer uso de mais uma expressão idiomática que teria que ser explicada. E, neste momento, não acho bom meter o bedelho nisso.
07.09.2026
P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é Quando o Morcego Doar Sangue, de Cosme Diniz e Rosemberg, com interpretação de Bezerra da Silva. A música está no álbum Eu Não Sou Santo, de 1990. O Brasil acabava de viver a primeira eleição presidencial direta desde 1960. Fernando Collor foi eleito com uma campanha que havia sido fortemente construída em torno das ideias de renovação, modernização, combate à inflação e à corrupção, com a falsa imagem do candidato que enfrentaria os chamados “marajás” do serviço público. A canção premonitoriamente duvidava disso.