Hitler não era apenas um homem obcecado pelo poder e pela morte. Ele também gostava de arte, por exemplo, sonhando inclusive em ser um artista. Acontece que também nessa área era medíocre e obviamente isso não prosperou. Outra coisa que o fascinava era a paranormalidade. Como confiava em pouca gente e sempre imaginava que poderia estar em perigo, ameaçado, entendia que toda e qualquer proteção sempre seria benvinda. Assim como todo e qualquer conhecimento. O escritor José Lesta, em seu livro O Enigma Nazi, relata que ele fundou, em julho de 1935, a Sociedade de Estudos para a História Antiga do Espírito, que ficou conhecida pela sigla Ahnenerbe. Naquela época ele era chanceler da Alemanha, com o seu partido já dominando a política do país, usando toda a sorte de estratégias para incentivar o fanatismo, buscando que as pessoas vissem o nazismo como uma espécie de crença, algo de fato inquestionável. E o objetivo dessa organização era justamente auxiliar para que este objetivo fosse alcançado.

O suposto objetivo da Ahnanerbe era estudar e valorizar as tradições do povo alemão, além de procurar a origem da raça ariana. Mas nas suas reuniões o que era discutido de fato era uma forma de substituir o cristianismo, que era a crença preponderante no país, por uma nova religião. O oficial Heinrich Himmler, então comandante das SS, um corpo militar de elite, milícia responsável entre outras coisas pela proteção de Hitler, foi o escolhido para chefiar também esse grupo. O ocultismo seria uma das armas, talvez a principal, para o convencimento da população. Ele acreditava piamente tanto no sobrenatural quanto na missão que lhe foi delegada. Dentro da própria SS foi escolhido um grupo ainda mais seleto, que o futuro Führer – líder em alemão – gostava de chamar de “Monges Guerreiros”, passou a compor a Ordem Negra. Esses seguiam os preceitos do antigo paganismo germânico, participando de rituais.

Os pais de Hitler eram cristãos devotos e fervorosos. E ele soube usar essa proximidade com a religião para conseguir sua ascensão. Mas depois, cuidando para não deixar transparecer isso, foi se afastando do cristianismo. Não era mais necessário o seu auxílio e provavelmente até atrapalharia os seus verdadeiros planos de poder absoluto. Uma vez no comando do país, ele defendia o armamento da população; desacreditava da ciência que não fosse subserviente aos seus propósitos; via seus opositores todos como corruptos; se apresentava como um verdadeiro messias, que iria tirar o país de tempos sombrios na economia; acreditava cegamente na supremacia da raça ariana; perseguia negros, homossexuais, ciganos e judeus; usava com maestria recursos de comunicação social, em especial da propaganda, para doutrinar as pessoas; enxergava comunistas atrás de todas as moitas; e falava que uma nova política havia chegado, sendo ele o representante máximo de novos tempos.

Voltando ao que Lesta relata em seu livro, o primeiro departamento da organização criada foi o de simbolismos. Depois começaram a tratar de lendas, de uma tal de “geografia sagrada” e de ciências paranormais. A secção esotérica estava a cargo de uma dupla: Friedrici Hielscher e Wolfram Sievers. São poucas as informações que vazaram sobre ambos, mas se sabe que o primeiro era uma espécie de sumo sacerdote, temido até pelos membros da Gestapo, a polícia secreta alemã. A religião que estavam criando era baseada no sangue – não deles, é lógico – e na coragem. O Natal foi substituído por uma adoração ao Sol. A Páscoa pela festa Ostara, celebrando o início da primavera e a deusa da fertilidade. O casamento também deveria aos poucos ser substituído por uma outra cerimônia. Foi a pedido da Ahnanerbe que foram feitas várias experiências médicas em prisioneiros dos campos de concentração. Com o fim da guerra, o grupo acabou dissolvido. Mas existe a hipótese não confirmada de que vários de seus membros teriam fugido para a América do Sul. Em 1946 a organização foi declarada criminosa e Sievers, o último a assumir o seu comando, foi acusado de crimes contra a humanidade e enforcado. Morreram esse e outros homens igualmente fanáticos. O fanatismo não: esse permanece presente em nossos dias, assumindo novas roupagens, mas com a mesma essência do mal.

19.02.2021

O bônus musical de hoje oferece o tema composto por John Williams para o filme de Steven Spielberg, A Lista de Schindler.

3 Comentários

Deixe uma resposta para Rosaliene Bacchus Cancelar resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s