O último livro do neurocientista francês Michel Desmurget, lançado agora no mês de outubro, tem o expressivo título A Fábrica de Cretinos Digitais. Diretor de pesquisas do afamado Instituto Nacional de Saúde da França, o autor expõe uma situação alarmante e defende sua tese apresentando dados concretos. Segundo ele, a explosão do uso de dispositivos digitais está tendo como consequência causar déficit no desenvolvimento neural de crianças e jovens. O embasamento dessa afirmação está em especial no fato de que testes sucessivos estão apontando para uma redução no Quociente de Inteligência (QI) da geração mais recente, em comparação com as anteriores.

Essa medida foi proposta como um meio de expressar a capacidade intelectual dos indivíduos, baseando-se em critérios referenciais e em comparações, pelo psicólogo alemão Wilhelm Stern, em 1912. Ele é considerado fundador da psicologia diferencial. A aferição buscava e busca representar o nível mental das pessoas, a partir da introdução dos termos “idade mental” e “idade cronológica”. Mas o QI, mesmo sendo um teste padrão, não se trata de um sistema “congelado”, uma vez que ele é constantemente revisado. Essas revisões, que acontecem a cada 25 anos ou mais, são necessárias porque os testes são normatizados para uma pontuação de cem, que representa a média da população. E esse valor médio se altera com o tempo.

Explicando melhor: se uma pessoa hoje avaliada com cem pontos (mediana) fizesse um dos primeiros testes, marcaria cerca de 130. Se uma pessoa que lá no início dos testes era avaliada em cem pontos (também mediana) pudesse fazer o teste de hoje, estima-se que deveria marcar algo perto de 70. Porque o nível vinha sempre crescendo, lentamente. Esse aumento constante leva o nome de “Efeito Flynn”, que faz menção ao psicólogo James Flynn, norte-americano que constatou isso. E foi esse efeito que simplesmente, pela primeira vez na história, não está tendo alteração positiva.

Desmurget mesmo ressalta em seu livro que o Quociente de Inteligência é influenciado fortemente por fatores externos, como a alimentação, o tipo de escola e a capacidade do sistema de saúde disponível. Mas o que começou a assustá-lo foi perceber que em países onde estes e outros condicionantes sociais e econômicos têm se mantido estáveis há décadas está sendo vivenciada a retração por ele estudada. Os jovens em países como Finlândia, Dinamarca, Noruega e Holanda, por exemplo, estariam apresentando essa situação inédita de recuo. Ou seja, a nova geração pela primeira vez é menos inteligente do que as anteriores. Nesses países, avaliações comprovaram que, na média, os filhos recentes têm QI menor do que seus pais. E o que os diferencia é o fato de serem esses jovens o que se chama de “nativos digitais”.

O autor, que trabalhou em centros de pesquisa muito prestigiados, como o Instituto de Tecnologia de Massachusetts – MIT e a Universidade da Califórnia, garante que a exposição excessiva à televisão, videogames e especialmente celulares leva a uma significativa redução cognitiva. Isso seria consequência de seu afastamento das interações sociais, de atividades que seriam mais enriquecedoras – leitura, arte, música –, de interrupção do sono e do seu estilo de vida tendente a ser sedentário. Hoje em dia, crianças de dois anos passam quase três horas por dia na frente dos aparelhos de televisão, que servem como “babás eletrônicas”. As que têm oito, ficam cerca de cinco horas diante de aparelhos eletrônicos diversos. E os adolescentes e jovens  pelo menos sete horas, em especial usando seus celulares. Isso atrasa a maturação anatômica e funcional dos seus cérebros. Várias redes, com destaque para as relacionadas com atenção e linguagem, terminam atingidas. Essas telas, mesmo as consideradas “recreativas”, prejudicam a concentração, diminuem o desempenho escolar e aumentam até o risco de obesidade.

O livro de Desmurget já está entre os mais vendidos na França. Ele, além desta constatação e quase denúncia, reafirma não haver qualquer desculpa para o que estamos fazendo aos nossos filhos. E, se nada for feito para alterarmos isso, o autor entende que vamos continuar colocando em risco seu futuro e desenvolvimento saudável.

25.11.2020

O bônus de hoje é diferente. Ao invés de um clip musical, uma animação de Steve Cutts que mostra o que o homem está fazendo ao mundo com a sua “inteligência”.

14 Comentários

  1. Olá Solon,
    Eu ouvi sobre este livro, é uma observação terrível …
    Isso é o que no meu nível de humildade procuro explicar aos meus filhos, mexendo nas orelhas deles, “cuidado, abra os livros, desenhe, mexa, aprenda sozinho e não fique satisfeito com o que eu ‘damos a você saber, ouse empurrar o cursor do conhecimento, é uma liberdade e vamos aproveitar !!! faça seu cérebro funcionar “, porque o que vai acontecer é que a elite continuará a ser a elite e que haverá em baixo “os outros” aqueles que não terão tentado fugir e fazer seus filhos escaparem do embrutecimento que as novas tecnologias podem gerar se não soubermos nos distanciar delas. (massas mais facilmente controláveis, que se contentarão em exultar com o hiperconsumo).
    Devemos viver em nosso tempo, mas também devemos permanecer muito vigilantes, o que parece um passo à frente para a humanidade pode muito bem causar nossa queda de uma forma ainda mais devastadora do que certas desordens ecológicas, pode muito bem alterar nossas liberdades e nossa capacidade de tomar. nas mãos nossos destinos comuns.
    Há um filme muito engraçado que eu gostaria de recomendar para vocês, só para rir dele (mas não disso) é Idiocracy, de Mike Judge.
    Vigilância, todos somos responsáveis ​​e temos o dever de fazer a nossa parte pela salvação dos nossos filhos, do mundo de hoje ao de amanhã …
    Tenha um bom dia
    Corinne
    Obrigado Google Translate;)

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    1. Em relação aos nossos filhos, muitas das preocupações em teu país e no Brasil são as mesmas. Nosso amor por eles nos deixa sempre preocupados com o futuro. Obrigado pela sugestão do filme. E que bom que temos tradutores na internet, que permitem entendimento, apesar dos idiomas diferentes. Abraço!

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  2. James Flynn é um gênio; ele acha que meu filho evita ao máximo que seu filho (3 anos) seja insípido diante de gadgets digitais.
    Excelente contribuição

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    1. Obrigado pelo elogio. Com certeza, para mim também é um prazer visitar o teu blog, Angelilie. Vamos acompanhar o trabalho um do outro. Abraço!

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