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O CARINHO DOS MEUS AVÓS

Eu sempre assinei apenas Solon Saldanha, mesmo não sendo esse o meu nome completo. No meio tem um José da Cunha, que às vezes me parece outra pessoa. Não que eu tenha qualquer problema de dupla personalidade, diagnosticado até hoje. Mas usar os quatro sempre me pareceu longo demais e pouco sonoro. Assim, fiquei com meu primeiro nome e com o sobrenome paterno, mesmo tendo a vida toda uma criação eminentemente materna. Porque a família da minha mãe era maior e mais próxima. Havia primos e primas de idades semelhantes à minha, memoráveis férias de verão e de inverno, tudo me permitindo belas recordações da infância.

No caso dos avós, o pai do meu pai faleceu quando ele tinha apenas dez anos. Minha avó casou outra vez e sempre esteve mais longe, em distância mesmo e não necessariamente em afeto. Nos encontramos poucas vezes na vida e não posso me queixar de falta de atenção, nessas ocasiões. Mas nada se compara aos momentos com os pais da minha mãe, o vô Ulysses e a vó Dorinha. O 360 da Brasiliano de Moraes, coração de uma Vila do IAPI em época na qual se podia brincar nas calçadas e nas praças, qualquer que fosse o horário, era o centro geográfico da família. Todos os parentes giravam em torno daquele endereço que, simbolicamente, era a nossa raiz, a nossa origem.

Seu Ulysses, que para todos nós sempre foi Vô Cunha, nasceu em Dom Pedrito e se criou em Bagé. Quando jovem, parece que lá por 1917, chegou a ser zagueiro central do glorioso Grêmio Bagé. A Vó Dorinha é de Jaguarão e ostentava um sobrenome de origem francesa, Bidigaray, tendo nascido a poucos metros da Argentina. Fronteiriços que vieram para a Capital e aqui criaram muito bem sete filhos. Os quase 30 netos eram numerados pelo meu avô, que seguido gostava de citar um por um, na ordem em que nasceram. Ele também tinha o hábito de me sentar no parapeito da janela da frente e ficar contando causos, além de inventar brincadeiras como apostar quantos carros, de que cor e de que marca passavam em cada sentido da avenida. Minha avó ficava numa cadeira de balanço logo atrás, participando dos assuntos – e eu chuleando ela levantar para me balançar. Era miúda de corpo e imensa em termos de carinho e sinceridade, essa sem dúvida a sua principal característica. E ela tinha, no fundo, a palavra final sobre tudo na família. O sistema era matriarcal mesmo.

Até o fim da vida o Vô Cunha tinha no seu quarto uma pequena estátua de Getúlio Vargas, ao lado de sua cuia para o mate diário e do radinho de pilhas onde ouvia noticiário e futebol. E embaixo da cama, um facão com o qual sempre dizia que iria degolar o Geisel, se tivesse alguma chance – se bem que afirmava preferir algo sem corte, para demorar mais. Lá pelos 85 anos, um dia pulou a janela e, para a surpresa de todos que conversavam na sala, entrou outra vez em casa pela porta, indignado porque não ouviram ele chamar por ajuda, depois que a fechadura estragou o deixando trancado no quarto. Ele costumava fechar até o botão mais alto, todas as camisas que usava, como se estivesse prestes a colocar uma gravata. E ela era vaidosa, sempre bem penteada, perfumada e com vestidos coloridos.

A comida da minha avó tinha cheiro bom e era feita em utensílios que ela chamava ainda por seus nomes franceses, me deixando curioso. Eu ajudava com os pacotes do supermercado e achava incrível ela deixar do lado de fora da porta, todas as noites, duas garrafas de vidro vazias que amanheciam cheias de leite do DEAL, com tampinhas de alumínio – na minha Bom Jesus os leiteiros traziam em tarros. Também gostava de ver os verdureiros passando em carroças; do afiador de facas que anunciava sua chegada tocando uma gaita de boca; de ver o Carnaval, na Avenida dos Industriários; dos passeios nos quais ela me levava ao Centro Histórico, em especial quando se ia de bonde; e dos sorvetes que vez por outra eu ganhava.

O Dia dos Avós, comemorado em 26 de julho, teve origem cristã, numa sugestão do Papa Paulo VI. A ideia era homenagear os avós maternos de Jesus, Ana e Joaquim, que haviam sido canonizados ainda no Século XVI, pelo então Papa Gregório VIII, em função da concepção de Maria ter acontecido mesmo ambos tendo sido considerados estéreis. Ainda assim, por vários anos ele passou quase despercebido, o que mudou em função do comércio entender que essa também poderia ser uma data boa para os negócios. Ainda não é como os comerciantes sonham, mas tem melhorado para eles. A mim, está servindo para relembrar essas figuras maravilhosas, que tanto iluminaram os primeiros anos da minha vida. E que hoje são pura saudade.

26.07.2020

UM BRASIL QUE O BRASIL NÃO VÊ

Merece muito ser assistido um documentário que é a minha recomendação de hoje. Falo de A Negação do Brasil, que faz uma viagem histórica pelas telenovelas brasileiras do passado. Mas o seu centro não é descrever o que foi ao ar em que época, mas sim fazer uma análise dos papéis que eram atribuídos nelas para os atores negros. O diretor é Joel Zito Araújo e ele conta com depoimentos de Ruth de Souza, Milton Gonçalves e Zezé Motta, entre outros, além de se basear na própria memória e em pesquisas que foram feitas sobre o assunto. Aponta com rigor o quanto foram sempre estereotipados os personagens a eles destinados, mas também faz um manifesto em favor de uma necessária incorporação de imagem positiva dos negros. A obra foi produzida no ano 2000 e 20 anos depois pouco mudou. Ela dura 91 minutos e tem cópias disponíveis em DVD. Do Youtube, consta ter sido retirada recentemente, atendendo solicitação da Rede Globo, mas vale procurar assim mesmo.

A primeira novela brasileira foi Sua Vida Me Pertence, teve apenas 15 capítulos e foi ao ar entre dezembro de 1951 e fevereiro de 1952, na TV Tupi, de São Paulo, sendo escrita e dirigida por Walter Foster. Mas a que de fato inaugurou repercussão e grande audiência foi O Direito de Nascer, uma adaptação de sucesso do escritor cubano Félix Caignet. Essa foi ao ar outra vez pela Tupi, mas também pela TV Rio, entre dezembro de 1964 e agosto de 1965, com um total de 160 capítulos de 30 minutos cada um. A redação era de Thalma de Oliveira e Teixeira Filho, com direção de Lima Duarte, Henrique Martins e José Parisi. Um fato realmente surpreendente foi que a protagonista era uma negra, a Mamãe Dolores, vivida por Isaura Bruno. Era uma mulher sofrida, abusada, que enfrentou dificuldades terríveis ao longo da vida. A cena final, na qual ela revela a identidade do pai de seu filho, foi tão marcante que acabou repetida em apresentações ao vivo, em teatros e ginásios Brasil afora. A fama meteórica de Isadora não lhe rendeu nada. Morreu alguns anos depois, pobre e vendendo doces nas ruas de São Paulo.

Este é o ponto de partida do documentário, que aponta para o fato de negras e negros só terem feito, desde então e por décadas, papéis secundários, normalmente de empregadas domésticas, jagunços, guarda-costas e motoristas. Presenças totalmente estereotipadas. A Cabana do Pai Tomás (de julho 1969 a fevereiro de 1970), com Ruth de Souza, foi a primeira grande produção da Globo. Mas enfrentou uma sequência de polêmicas. A principal era evidente que viesse a acontecer: escolheram um galã branco da época, Sérgio Cardoso, para fazer o papel-título. Ou seja, pintavam seu rosto de negro, colocavam rolhas nas suas narinas para que ficassem “abatatadas” e introduziam algodão na sua boca, para alterar o modo de falar. Tudo soando absurdamente falso, ao invés de simplesmente o papel ter sido dado a um ator negro. Durante a sequência dos capítulos, pressionada por uma opinião pública majoritariamente conservadora e racista, a direção “rebaixou” o nome da sua companheira na trama, negra que teve nomes de atrizes brancas em papéis menores colocados antes do seu. Para terminar, a novela foi encurtada para fugir dos poucos protestos, surpreendentemente liderados por um ator branco: o também escritor, diretor e jornalista Plínio Marcos.

Seis anos mais tarde (1976) Lucélia Santos, uma atriz branca, fez Escrava Isaura na Rede Globo. A novela se resumiu a um relato oficial, com a narrativa do ponto de vista dos brancos, “bonzinhos” que libertam os escravos por pena do seu sofrimento demasiado. Em Roque Santeiro a viúva Porcina, coerentemente, não fica nem com o mocinho (José Wilker) nem com o capataz negro (Toni Tornado): Regina Duarte foge é com o vilão da história, o Sinhozinho Malta (Lima Duarte) – acho até que o diretor geral Paulo Ubiratan foi um visionário, nesse detalhe. Mesmo com os três finais tendo sido gravados, um deles sequer foi vazado para a imprensa e a dúvida final sempre foi apresentada como apenas entre os dois restantes. A emissora não teve coragem de sequer cogitar que o negro se desse bem, mantendo ao final o seu papel de coadjuvante.

Em todas as novelas criança negra sempre é o moleque de rua, o desamparado, aquele que demanda pena e atendimento. Sendo adolescente é trombadinha ou viciado. As criadas negras na melhor das hipóteses são cômicas, sendo em geral alcoviteiras, maliciosas, preguiçosas e mentirosas. E os homens negros são pau mandado, cometem crimes, assumem culpas, sendo sempre descartáveis. As poucas vezes que não foi assim, confirmaram a regra vigente como exceções. A verdade é que em pleno Século 21, as telenovelas no Brasil ainda não conseguem atender à questão da diversidade racial existente entre nós. Se as produções buscam mesmo aquilo que em geral as emissoras prometem, que é ser um retrato da realidade, falham ao não mostrar alguns detalhes de como o país e seu povo são de fato. Escondem um Brasil racista, para que o Brasil todo não o veja e se envergonhe.

24.07.2020

A presença dos negros nas telenovelas brasileiras