UMA DATA QUE EXALTA O TÊNIS BRASILEIRO
O jogo aconteceu em 29 de maio de 1997. Estava sendo disputada a terceira rodada de um dos quatro torneios de tênis mais importantes do mundo, os chamados Grand Slam (*). Esse, cujo nome oficial é Les Internationaux de France de Roland-Garros, mas que muitos preferem chamar simplesmente de Roland Garros ou French Open, é o único deles disputado em piso de saibro. De um lado da quadra estava o austríaco Thomas Muster, ex-número um do mundo e campeão em Paris dois anos antes. Naquele momento, ele era considerado o maior especialista da modalidade nesse tipo de piso. Do outro lado, um brasileiro de apenas 20 anos, praticamente desconhecido. Seu nome era Gustavo Kuerten.
Para surpresa geral, Guga venceu por 3×2, depois de mais de três horas de jogo. A partir dali, continuou avançando na competição. Pelo caminho, eliminou adversários de peso, entre eles o então campeão Yevgeny Kafelnikov e o bicampeão Sergi Bruguera. Quando a competição terminou, o jovem catarinense havia conquistado um dos títulos mais improváveis da história do tênis mundial e entrado definitivamente para a galeria dos grandes nomes do esporte brasileiro.
Exatos sete anos depois, em 29 de maio de 2004, Guga voltou a viver outro momento memorável em Roland Garros. Novamente disputava a terceira rodada. E outra vez diante de um adversário gigantesco. Do outro lado da rede estava Roger Federer, então número um do mundo e já apontado como um dos maiores talentos da história do tênis. Mesmo assim, o brasileiro venceu por 3×0, em uma atuação que permanece entre as mais celebradas de sua carreira.
Guga ainda avançou até as quartas de final, onde foi superado pelo argentino David Nalbandian. Mesmo sem alcançar o título, a vitória sobre Federer ficou marcada como um dos últimos grandes capítulos de sua trajetória no torneio francês. Uma grave lesão no quadril, que o acompanhava desde 2001, acabaria encurtando sua carreira e conduzindo a uma aposentadoria muito antes do que os admiradores desejavam.
Agora, em 29 de maio de 2026, quiseram os astros ou quis o destino que outro brasileiro estivesse no mesmo palco. Depois de duas décadas sem que sequer um nome do país conseguisse despertar grandes expectativas em quaisquer etapas do circuito, foi a vez de João Fonseca carregar as esperanças nacionais nas quadras francesas.
E o desafio não poderia ser maior. Na terceira rodada, o chaveamento colocou diante dele o sérvio Novak Djokovic, dono de praticamente todos os recordes relevantes do tênis moderno. Com 24 títulos de Grand Slam, liderança do ranking por mais semanas do que qualquer outro atleta e uma medalha de ouro olímpica conquistada em 2024, Djokovic já havia assegurado seu lugar entre os maiores esportistas de todos os tempos.
Mesmo assim, ao final de mais de cinco horas de disputa, João Fonseca venceu por 3×2. E a façanha se tornou ainda mais impressionante porque o brasileiro chegou a estar perdendo por 2×0. Na rodada anterior, já havia conseguido uma virada semelhante diante do espanhol Pablo Carreño Busta. Depois, ainda superou o norueguês Cásper Ruud antes de encerrar sua campanha nas quartas de final, diante do tcheco Jakub Menšík. O resultado final pouco diminui o brilho da trajetória. Afinal, tratava-se de um atleta de apenas 19 anos enfrentando alguns dos principais nomes da modalidade e recolocando o tênis brasileiro em evidência.
Considerando que temos datas comemorativas para as mais diversas coisas, algumas bastante peculiares, como o Dia do Preservativo (3 de fevereiro), o Dia do Enfermo (11 de fevereiro), o Dia do Pi (14 de março), o Dia da Cor (21 de março), o Dia da Toalha (25 de maio), o Dia do Orgulho Nerd (25 de maio) e o Dia do Gato (8 de agosto), talvez alguém devesse propor que 29 de maio se tornasse oficialmente o Dia do Tênis Brasileiro.
Seria uma homenagem bastante justa para uma data que reuniu, em diferentes épocas, alguns dos momentos mais marcantes da história desse esporte no país. E olha que não tenho nada contra toalhas, nerds, gatos, cores ou preservativos. Aliás, considero até recomendável o uso destes últimos, justamente para evitar que muita gente venha a “celebrar” o Dia do Enfermo. Quanto ao pi, prefiro deixar o assunto para os matemáticos. Só entender o que ele significa já me parece um desafio digno de Grand Slam.
09.06.2026
(*) Além de Roland-Garros integram o grupo mais prestigioso do tênis profissional mundial: o Australian Open, disputado em Melbourne (piso duro), o Wimbledon Championships, disputado em Londres (grama) e o US Open, disputado em Nova York (piso duro).
P.S.: A ilustração desta crônica foi criada pelo autor, utilizando recursos de Inteligência Artificial.

O bônus de hoje é a música Hall of Fame, com a banda irlandesa de pop rock formada em Dublin, The Script.