O IRMÃO DE LUCIANO É MUITO MELHOR
O apresentador de televisão Luciano Huck é irmão do cineasta Fernando Grostein Andrade. Ou meio-irmão, para ser mais preciso. Ambos têm a mesma mãe, Mara Dora Grostein, que é arquiteta e urbanista. Mas seus pais são distintos: o de Luciano é o jurista Hermes Marcelo Huck e o de Fernando é Márcio Escobar de Andrade, ex-diretor de redação da revista Playboy. O que os dois compartilham é a grande paixão pelo audiovisual, com o primeiro se destacando no universo do entretenimento e o outro em uma sólida carreira na produção de documentários e obras de ficção. O que os diferencia é que o programa televisivo oferece uma distração que é descartável, enquanto as realizações de Fernando fazem pensar, propõem debate sobre temas sensíveis e aprofundam a visão crítica de quem assiste. Isso não desmerece o trabalho do outro, que tem uma enorme popularidade. Mas, os coloca em dois níveis muito diferentes.
Fernando trata de xenofobia, política antidrogas, LGBTfobia e mesmo a masculinidade. Esse último tema lhe custou a necessidade de ir embora do Brasil, porque fez um histórico detalhado da fragilidade da família de Bolsonaro, nesse quesito. Com “Quebrando Mitos”, ele investigou tudo, desde a infância de Jair Messias até os momentos atuais dele e dos seus filhos. Não deu outra: foi ameaçado de morte. Hoje está nos Estados Unidos, mais precisamente em Los Angeles, na Califórnia. Felizmente isso dista uns 2,3 mil quilômetros do Texas, para onde se mudou depois o deputado conspirador Eduardo Bolsonaro. A distância reduziu muito, mas ainda oferece alguma segurança.
Um breve passeio sobre a produção de Fernando nos leva ao ano de 2008, quando ele lançou “Coração Vagabundo”. Trata-se de um belo documentário musical que segue Caetano Veloso ao longo de uma turnê internacional feita para o lançamento do seu álbum A Foreign Sound. Ele oferece um olhar íntimo sobre o artista, que merece ser visto. Em 2011 foi a vez de “Quebrando o Tabu”, no qual discute o combate às drogas e os danos causados por essa guerra. Mostra os abusos, toda a violência e as redes criminosas que se estabelecem. O trabalho conta com vários depoimentos de personalidades, como Dráuzio Varella, Jimmy Carter, Bill Clinton e Fernando Henrique Cardoso.
Com “Na Quebrada” (2014), ele nos escancara fatos reais sobre jovens da periferia paulistana. E revela como alguns deles encontraram no cinema uma forma de expressar suas vidas e superar realidades difíceis, como a ausência parental e a extrema violência do seu meio. Três anos depois, em 2017, ele dirigiu a aclamada série “Carcereiros”, ao lado de Pedro Bial. A obra, uma parceria da TV Globo com a Gullane e a Spray Filmes, foi baseada em livro homônimo de Dráuzio Varella. E ganhou o prêmio de melhor no MIP Drama Screenings.
Para o já citado “Quebrando Mitos” (2022), Fernando traça um interessante paralelo entre sua própria trajetória, sendo ele um homem gay, com a ascensão política de Jair Bolsonaro. Para tanto, explora com maestria os conceitos de masculinidade tóxica e os efeitos nefastos das políticas do ex-presidente na sociedade em geral e na comunidade LGBTQIA+ em particular. Enfim, toda a obra de Fernando Grostein é marcada por um forte engajamento social, com a proposta de promover transformação através do diálogo. Ele faz uso de narrativas que misturam o pessoal e o político, num desafio constante às estruturas históricas do poder.
Fernando também é o criador da plataforma “Quebrando o Tabu”, que se tornou um dos espaços e das vozes mais relevantes nas redes sociais para discussão de temas progressistas. E em 2024 ele foi nomeado um dos Young Global Leaders pelo Fórum Econômico Mundial, que ocorre em Davos, na Suíça. Isso em reconhecimento ao seu impacto social e ao compromisso com a inovação. Hoje, atua em produtoras como a Cosmic Dog Studios e a Film Soul Studios, com trabalhos tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos.
21.11.2025

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O bônus de hoje é Coração Vagabundo, de Caetano Veloso, com o próprio e Gilberto Gil.